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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Travessia

Travessia, 2016 (Heloisa da Costa Medeiros)


Apesar do silêncio, continuo viva e tentando viver ao máximo. No momento, tenho a agradável sensação de que estou exatamente onde deveria estar e passando para a próxima fase que ainda não sei qual é.

Quando junho virou julho algo aconteceu. O primeiro semestre foi meio caótico, muitas coisas fora do meu controle acontecendo dentro e fora de mim. Quando começou o segundo semestre, senti uma serenidade se instalando. Não que tudo tenha se resolvido num passe de mágica, mas parece que tive uma "iluminação" do tipo: não importa o que aconteça, tudo vai ser como deve ser e está tudo bem. Não preciso me angustiar nem nada - a vida vai seguir seu próprio rumo.

Sexta sonhei com a minha batian que faleceu há dois meses. Ela e minha mãe tinham vindo me visitar aqui. Fui para o banheiro. Ela entrou e se sentou no piso do banheiro enquanto eu estava na privada e comentou que o piso era bonito. Eu sabia que ela já tinha morrido e não fazia sentido. Comentei que era para os azulejos serem brancos e não verdes (como naquele sonho que estávamos vivendo, eu sabia que era sonho). Alguns segundos depois acordei com saudade, chorei, mas sonhar com ela me fez acreditar, de novo, que as coisas vão ficar bem - de uma forma ou de outra. 

Meu próximo post vai ser uma "Carta de Porto Alegre nº..." escrita de São Paulo mesmo. Quero contar coisas que vivi nos últimos dois meses. Vivenciei muitas coisas, a maioria escrevi no diário (estou escrevendo mais seguido no diário de papel, por isso, também, deixei esse diário virtual meio de lado... é que no diário de papel posso escrever tudo que penso e sintosem filtros, e adoro essa liberdade).

Um brinde à vida e ao futuro, seja lá o que for!


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Canção de ninar, de Leïla Slimani (5/265)



Não lembro como cheguei a Leïla Slimani, uma autora franco-marroquina, mas lembro de ter lido uma entrevista em que ela contava que se baseou em uma história verídica, ocorrida nos Estados Unidos, para escrever Canção de Ninar (Chanson douce, no original) e fiquei impressionada. Nesse livro, que ganhou o Prêmio Goncourt, ela conta a história de uma babá que assassina duas crianças de que cuidava. Quis muito ler, mas o livro ainda não tinha sido publicado no Brasil e seria caro comprar o livro importado. Um tempo depois, a Tusquets o lançou e a edição está muito bem cuidada.

O choque já vem na primeira página, na primeira linha: "O bebê está morto. Bastaram alguns segundos.". Essa cena inicial prossegue por mais duas páginas e, no fim, lemos "Adam está morto. Mila não vai resistir". 

Gostei muito da forma como a autora trabalha a personagem principal, Louise, a babá. Slimani vai mostrando, pouco a pouco, quem é Louise, além de seu papel como a babá perfeita, e se aprofunda nisso. Os personagens secundários são a família: Myriam, a mãe, que volta a trabalhar como advogada um tempo depois de dar à luz ao segundo filho; Paul, o pai e produtor musical em ascensão; Mila, a primogênita, um pouco mimada, mas educada; e Adam, o bebê. É perturbadora a forma como Louise vai se entranhando na família até a história culminar no trágico final.

Gostei da forma como a autora descreve a relação entre patrões e empregadas; há cenas em que ela apresenta babás estrangeiras, algumas em situação ilegal em Paris, no parque com as crianças de que cuidam, e como é essa relação.

Além da babá e empregada perfeita que Louise era, ela também tinha muitas outras facetas que os patrões sequer imaginavam. O que me fez pensar em algo que li no fotolivro da Vivian Maier, algo como: "O que as pessoas fazem quando não estão trabalhando?". As pessoas podem fazer coisas extraordinárias com o tempo livre ou não fazer nada, não ter condições e nem vontade de fazer nada e só ficar remoendo angústias.

Talvez um ponto fraco (?) na escrita de Slimani seja a forma com que ela trata os personagens menos importantes na história (a mãe de Paul, o locador do apartamento em que Louise morava e alguns outros), dando-lhes um peso maior do que o necessário. Isso não chegou a me incomodar, porque ela descreve os personagens muito bem, não é algo monótono nem nada, mas eu ficava me perguntando se isso era mesmo necessário - contar sobre essas pessoas quando poderia se concentrar mais em Louise ou nos membros da família.

De qualquer forma, é um livro perturbador e fascinante. Qualquer mãe que o leia vai pensar mil vezes antes de deixar os filhos com a babá.

***

Trecho inicial (p. 9):

"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul."


Hoje eu venci o câncer, de David Coimbra (4/265)



Estou lendo bastante, mas meio sem ânimo para escrever sobre os livros aqui. Decidi postar um resumo de algumas linhas no Instagram no dia do término da leitura e depois escrever melhor aqui. Por isso, nesse primeiro momento, as postagens sobre livros não vão seguir a ordem de leitura. (Quero escrever sobre livros que li no começo do ano quando possível, mas vou numerando as leituras conforme for postando mesmo.)


***

A Aly me emprestou esse livro do jornalista gaúcho David Coimbra há mais ou menos um mês. Ela ganhou de presente de aniversário do irmão mais velho dela, leu, gostou e me emprestou. A Aly teve um câncer de mama há seis anos, o David Coimbra foi diagnosticado com câncer nos rins com metástases no fim de 2013. Os casos deles foram muito mais graves que o meu, mas sinto que independentemente da gravidade, a experiência com o câncer nos transforma - em geral, para melhor.

No livro, David conta que descobriu o câncer "por acaso", quando foi para o médico ver o que era uma dor no peito, por meio de exames chegou-se ao diagnóstico de câncer. Os médicos não tinham um prognóstico bom, mas uma rede de contatos entre médicos foi ativada e, no fim, ele acabou indo para Boston para participar de uma pesquisa com um medicamento novo. Sua esposa e o filho pequeno também se mudaram para lá alguns meses depois. Aliás, em algum momento, ele diz que inicialmente o livro foi pensado para que o filho se lembrasse dele depois que ele partisse, mas que bom que ele não partiu e está vendo o filho crescer.

Apesar do assunto pesado, a história é contada com leveza, mesclando histórias profissionais e pessoais (como, por exemplo, sua infância pobre em uma casa na av. Assis Brasil e o abandono da família pelo pai), além de histórias sobre e com amigos (gostei da homenagem; ele nomeou os amigos para que eles ficassem, de alguma forma, imortalizados) e crônicas publicadas no Zero Hora, onde ele tinha ou tem uma coluna.

Com exceção de uma crônica com um tom machista ("O que o homem gosta na mulher"), gostei da forma como ele conta tudo. Sobre a crônica, leiam esse trecho (p. 19):

"Uma modelo é muda. Não está acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as modelos.

[...]

As atrizes, sim. As atrizes têm de ler e compreender textos. Ou seja: elas precisam pensar. Então, você pode encontrar mulheres belas e de espírito entre as atrizes."

Alguém que coloca todas as pessoas de uma profissão num mesmo saco e as julga "incapazes de raciocinar" e recomenda que os caras procurem atrizes para se relacionar deve ter um lado meio leviano, né? Just saying. A favor dele, há outras crônicas bonitas e tocantes. A forma como ele fala do filho pequeno é comovente.

***

Trechos:

p. 82

"O papel do jornalista é contar como o mundo muda. Assim, de certa forma, ele ajudará a mudar o mundo."

p. 103

"[...] O fato é que o câncer desperta solidariedade mesmo, e não só em mineiros. As pessoas pensam que você vai morrer em seguida e passam a tratá-lo como um cadáver virtual, uma espécie de pré-morto. É muito bom. As pessoas ficam gentis e tolerantes. Não dão mais importância às coisas sem importância, enxergam mais o que você tem de bom do que o que tem de ruim, exaltam suas qualidades e esquecem seus defeitos."

p. 149 e 150 (final da crônica "Para sempre. Nunca mais." da qual eu gostei!)

"[...]
Se morasse nessas distâncias, quanta saudade não sentiria? Por coincidência, quando vagava nesses pensamentos, minha amiga Mariana Bertolucci mandou-me uma mensagem do outro lado do Atlântico: "Que saudade da nossa antiga turma do Lilliput". Lembrei-me então que, naquela época, em algum momento em que, por algum motivo, ela nos negligenciou, eu lhe disse: "Mais tarde, vamos nos separar para sempre, e tu vais sentir saudades".
Tantos anos depois, e minha profecia daquela noite se cumpriu. Nos separamos para sempre, e ela sente saudade. Para sempre. Nunca mais. As pessoas não acreditam, mas a vida é cheia de para sempre e de nunca mais. Se morasse aqui, quantos para sempre e nunca mais acrescentaria na minha vida? Quantos estou acrescentando nesse instante, mesmo sem morar aqui? Pessoas que vou perder e que vão me perder para sempre. Sentimentos que nunca mais voltarão. Pensar nisso me deu certa melancolia. Olhei a neve lá fora. Estremeci. Pedi outro Bourbon. Caubói, é claro."

p. 182 e 183

"[...] Aprendi que não devo e não posso ficar preocupado com o futuro. Tenho de me preparar para o futuro, mas não me afligir com ele. Até porque o futuro não chega nunca. Quando chega, se transforma em presente. Aí, haverá outro futuro com que se incomodar."

p. 198

"Poder caminhar, poder levantar algum peso, poder dormir em qualquer posição. É assombroso como atividades mínimas da existência, para as quais não damos a menor atenção, fazem diferença para você se sentir bem e feliz."


Como escrevi outras vezes, a experiência com o câncer transforma as pessoas. Para mim foi marcante, pois sinto que consigo aproveitar muito melhor o presente agora. A noção de tempo se tornou muito mais palpável - tento viver o máximo que posso, dar o meu melhor e ter as prioridades sempre em mente; sou muito "ativa", quero fazer e aprender a fazer milhares de coisas, mas sei que não terei tempo para tudo isso (mesmo se eu vivesse até uns 100 anos!). 

Por fim, esse livro me inspirou a escrever um relato sobre a minha experiência também, para não esquecer, embora já tenha esquecido muitas coisas - mas não pretendo postar, no máximo, vou compartilhar com pessoas próximas. A Babu já tinha me dado essa ideia há alguns meses. Ainda ando com uns bloqueios de escrita e ela sugeriu que, se eu escrevesse sobre uma experiência pessoal, seria mais fácil - de fato, né? Não é difícil escrever sobre algo que aconteceu com a gente... ou pelo menos isso é bem mais fácil do que inventar histórias fictícias "do nada".



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Carta de Porto Alegre nº 5


Porto Alegre, 21 de maio de 2018


Queridos amigos,

esta é a vista do terraço do prédio onde moro. Tirei essa foto num dia em que subi para tomar sol e ler. Ao fundo dá para ver o rio, lago ou estuário [escolha a denominação que quiser; se quiser, também pode trocar por linguiça] Guaíba. 

Como já faz um certo tempo que escrevi a última carta, tenho novidades e descobertas para compartilhar. Meu ~ intercâmbio ~ em terras gaúchas tem sido mais produtivo no sentido pessoal que "profissional" ou de aprimoramento de escrita. Aliás, esses dias me questionei se não superestimei a ficção - é o momento perfeito para me questionar isso mesmo, bem no meio de uma oficina de escrita de ficção que vai durar até o fim do ano. Haha. De repente parece que a ficção não chega nem perto do que é viver e sentir de verdade - e talvez agora eu esteja mais ansiosa para viver do que ficar lendo e escrevendo sobre pessoas e coisas que não existem. Deve ser só uma fase, porque sempre gostei muito de ficção e quis muito vir pra cá para fazer essa oficina, me sacrifiquei em alguns sentidos em São Paulo para poder estar aqui, então isso precisa valer a pena, mesmo que depois eu conclua que não sirvo para ser ficcionista.

No começo do mês (entre 4 e 9 de maio), estive em São Paulo para comemorar o aniversário da Yuri, fazer exame de sangue, retornar ao dr. Terroristinha, meu endócrino, pegar o certificado do MBA em Book Publishing, antes que a faculdade o perdesse, ver meus pais em São José dos Campos, cortar o cabelo. Consegui fazer tudo isso e foi ótimo. Também aproveitei para ver algumas amigas, correr no parque Ibirapuera, um dos meus lugares preferidos, e comprar comida na Liberdade. 



A Ana Igual queria ir a um café novo e moderninho na Liberdade chamado 89ºC Coffee Station (89ºC é a "temperatura ideal para se fazer um bom espresso", conforme escrito no local), aí nos encontramos lá. Não tomo café, então pedi um frapê de matchá que estava muito bom. A Ana tomou dois cafés - ou seja, deve valer a pena!


Sobre os exames de sangue, minha glicemia se estabilizou, o nível de hormônio da tireoide também está se normalizando por causa do remédio que a dra. Beatriz (a cirurgiã de cabeça e pescoço que me operou e que consulto de seis em seis meses) receitou, mas minha vitamina D está quase em estado crítico. Recomendações do dr. Terroristinha: tomar sol com roupas minúsculas e perder mais peso (emagreci seis quilos em dois meses e ele nem escreveu um "parabéns" no receituário!, haha, em vez disso, ouvi que preciso perder mais peso... pelas minhas contas, pelo menos mais sete quilos).

Então vamolá correr assim que der, né?


Aconteceu uma coisa perturbadora em São Paulo: quando fui pegar o metrô pela primeira vez depois de dois meses e vi aquele monte de gente, me deu taquicardia, igual quando tinha recém chegado para morar e trabalhar na cidade. Não gosto de multidões, me sinto bem insegura, mas precisei me acostumar com aquilo. Também me blindei para não sentir e não chorar toda vez que alguém me empurrava ou esbarrava em mim e não pedia desculpa. Doentio, não? A gente precisar se blindar para não desmoronar com a brutalidade cotidiana de uma cidade... Isso porque não me considero uma pessoa "sensível". Imaginem os sensíveis - devem morrer por dentro todo dia antes de chegar ao trabalho.

Apesar da brutalidade paulistana, ler esse tipo de arte na rua Augusta ainda me dá certa esperança na humanidade:


Talvez exista amor em SP e "não precisa sofrer para saber o que é melhor para você" ("Não existe amor em SP" é uma música do Criolo que descobri recentemente - quem não conhece, clica aqui, vale a pena!).



De volta a Porto Alegre, mil coisas.

Fui jantar com a Carol num lugar de que ela gosta: Cuca Haus. Lá tem sanduíches feitos com cuca (céus!), hambúrgueres e um pão com duas linguiças + complementos de que não lembro (pedi esse último - uma ogrice sem tamanho, óbvio que não aguentei comer nem a metade, mesmo estando muito bom, ainda mais que a Carol me deu um pedaço meio grande da cuca com carne de panela que ela tinha pedido! Da próxima vez peço o que ela pediu, mesmo sabendo que só vou conseguir comer um terço... daí peço para embrulhar para comer no almoço e no jantar do dia seguinte :).


Só queria saber por que DUAS linguiças... hahaha... para mim uma já era mais que suficiente.


No dia 11/05, uma sexta, voltei ao Von Teese, porque a Aly me convidou para ver um show com  músicas em francês (a banda apresentou músicas em homenagem a Edith Piaf e Zaz). Foi legal voltar a ouvir músicas em francês. Lembrei de quando uma das professoras de francês da faculdade nos obrigava a cantar músicas em francês para melhorarmos a pronúncia, mas logo afastei o pensamento, porque isso foi meio traumático para mim. Apesar disso, gosto de ouvir músicas em francês... só não me animo a cantar.




Continuo encontrando mensagens e frases pelas ruas e prestando atenção:










Semana passada finalmente comprei um cabideiro, assim minhas coisas ficam menos espalhadas pelo quarto!

Ainda sobre assuntos domésticos, as roupas sujas estão bem acumuladas no cesto, ainda não levei para a lavanderia. Daqui a pouco não vou ter mais roupa para usar... preciso resolver isso. Vou resolver em breve. Ah, teve um dia em que estava frio e fiquei lavando lenços, panos de prato, tênis, chinelo... no tanque... pra quê? Dor de garganta atacou, lógico. Estou rouca e tomando chá de gengibre e mel ou limão e mel até hoje. Uma hora isso passa, eu sei, só queria que passasse logo.

No sábado retrasado, dia 12/05, fui fazer uma oficina de fotografia de rua na Casa de Cultura Mario Quintana. A Aly que tinha me chamado, porque sabe que sou #aloucadasfotos e porque ela também se interessa muito pelo assunto, mas depois lembrou que tinha o chá de aniversário da mãe para ir, então, como eu já tinha me inscrito (e pago), fui lá. O Henrique, fotógrafo que estava ministrando a oficina, recomendou o livro Manual do fotógrafo de rua, do fotógrafo inglês David Gibson, que comprei pela Amazon e mandei entregar em São Paulo. Uma parte da oficina aconteceu dentro do Laboratório Fotográfico da Casa de Cultura, onde o Henrique apresentou o trabalho de vários fotógrafos de rua, incluindo o chinês Fan Ho, do qual a Ana Igual já tinha me falado, e falou de algumas técnicas (tem uma técnica muito louca em que andamos com a câmera na altura da cintura e tiramos fotos de passantes sem olhar o que estamos fotografando - nenhuma foto que tirei assim prestou). Depois saímos para fotografar o centro histórico, fomos andando até o Mercado. A segunda aula aconteceria no último sábado, mas como eu e outras pessoas não poderíamos ir, o Henrique comentou que era melhor adiar. Não sei quando será essa segunda aula, mas provavelmente não estarei por aqui (vou para São Paulo essa semana e volto no começo de junho).










Numa tarde da semana passada, o barulho de obras em algum apartamento estava insuportável e, quando o som de serra elétrica ou furadeira parava, ouvia a vizinha da foda gritando e gemendo e a cama batendo contra a parede. Eram umas 15h! "Sua vizinha não trabalha?", perguntou um amigo. Aparentemente, não. Começo a pensar que talvez esse seja o trabalho dela... "A vida sexual da sua vizinha é bem ativa, né?", comentou outra amiga, "É, de onde será que vem tanto fogo?", devolvi, e ela: "Da vida". Hahaha. Ok, beleza, "o fogo vem da vida", entendido. Bom, com essas condições não conseguia escrever, então saí para dar uma volta. Fui até a Igreja Nossa Senhora das Dores para ver uma obra da 11ª Bienal do Mercosul lá. Para compô-la, artistas gravaram várias línguas com risco de extinção nas Américas e na África; eram trechos lidos em vários alto-falantes (cada alto-falante apresentava uma língua diferente, com textos de diferentes tamanhos e conteúdos). Alguns colegas e professores da faculdade de Tradução talvez pirariam com isso. Só achei curioso e fiquei pensando que as línguas são orgânicas, talvez tenham um ciclo de vida também, ainda que seja lamentável que morram e levem consigo o legado de uma cultura.




Também fui para o Santander Cultural e Memorial do Rio Grande do Sul ver outras obras da Bienal. 


No Santander Cultural, a obra mais legal é "Departamento de Recursos Não Revelados", de Mark Dion. Nela, dois performers agem como se fossem funcionários de um banco, responsáveis pelo cofre. Há uma mesa com ares de burocracia, o atendente pergunta: "Gostaria de ver o seu cofre?", mexe em papéis, informa o número do cofre, recebemos um "recibo" e passamos para a área com os cofres (li aqui que foram usados cofres antigos do próprio Santander). O atendente dá uma chave com o número do cofre e pega outra chave, pois são necessárias duas para abri-lo. "No três, gire a chave em sentido horário." Ele conta, um, dois, três, nós dois giramos a chave e o cofre abre. O atendente pega uma caixa de metal pesada e leva até uma das três mesas que ficam num dos cantos da saleta. Abri a caixa e havia muitos grãos de café, fiquei mexendo neles, como se fosse Amélie Poulain, e minha mão ficou cheirando a café por algumas horas. Depois é só chamar o atendente para dizer que já vimos o conteúdo, ele guarda o cofre e pergunta se queremos ficar com o recibo. Eu quis ficar com o meu.




Voltei ao Santander outro dia, porque queria que a Aly visse essa obra e saber o conteúdo do cofre que iam designar para ela. No dela tinha vários potinhos com areia colorida e, no meu segundo cofre, quatro ou cinco espelhos dupla-face redondos (dica de que preciso olhar para mim mesma/ para dentro de mim?), o que me impactou. Quero voltar para ver o que mais tem nos outros cofres. Adoro essas obras interativas!

No Memorial do Rio Grande do Sul, gostei da obra "Capa-Canal", do mexicano Héctor Zamora, em que telhas foram feitas literalmente nas coxas (é daí que vem a expressão "feito nas coxas", já ouviram falar?):


O vídeo com a performance da obra pode ser visto aqui.

Depois, fui ver o filme Para ter onde ir na Casa de Cultura Mario Quintana. Li a sinopse, sobre três mulheres que se encontram e viajam em busca de "algo", vi que se passava no Pará e me interessei (quero muito conhecer Belém), mas para mim o filme não compensou. Não tinha enredo, as cenas eram clichês, senti zero empatia com as personagens. Só a ambientação no Pará (lugares bonitos, trilha tecnobrega) se salvou. Isso tudo no meu olhar de leiga, claro. Para cineastas e especialistas, talvez o filme seja genial do caralho, para mim foi mais "PQP, quero meu dinheiro e meu tempo de volta". Mas pelo menos foi melhor do que ficar no JK ouvindo barulho de serra elétrica e vizinhos transando.

Quinta-feira passada, depois da oficina, fui para o shopping Bourbon, que fica perto da PUCRS, onde as aulas acontecem, encontrar a Carol, porque ela tinha que comprar umas coisas lá. Depois fomos para a casa dela, que fica perto do shopping, para conversar e jantar. Ela mora no décimo andar e tem uma vista incrível.


Conversamos e rimos muito das coisas que nos acontecem, de coisas que acontecem com os outros, e depois jantamos o que ela considera um prato "bem gaúcho": massa, galeto e polenta frita (e uma saladinha para disfarçar toda a gordice fora dos parênteses). Tudo estava bom e comi demais.

Esse cenário na casa da Carol é demais! Paredes forradas de pôsteres de filmes antigos e essa luminária. Tem também uns lustres que combinam com a decoração.



Por fim, sexta passada fui para Maquiné, que fica a umas duas horas de Porto Alegre, com a Aly. Já tínhamos combinado isso há mais ou menos três semanas, a pousada já estava reservada, então não dava para desistir por causa do tempo (estava chovendo e frrrrio). Saímos de manhã e fomos até Torres, que fica depois de Maquiné, porque só poderíamos entrar na pousada às 17h.

Não deu para ver muita coisa em Torres porque estava chovendo. "Tu só vai tirar foto de dentro do carro, né?", "Na verdade, quero sair um pouco para tirar umas fotos..." E saí. Porque não sei quando e se vou voltar lá e também porque preciso registrar tudo em fotos para me lembrar depois, já que não estou conseguindo atualizar meu diário de papel.



Essas duas fotos são do parque da Guarita:



Abaixo, o rio Mampituba, que funciona como uma divisa natural de Santa Catarina. Do outro lado já é Santa Catarina (Passo de Torres). Há uma ponte para pedestres e outra para carros que interliga as cidades.

A gente almoçou num restaurante em frente a esse rio. Estava chovendo, mesmo assim ficamos ali um tempo tirando fotos. A Aly também é meio #aloucadasfotos... hahaha.



Depois dessas fotos voltamos para Maquiné. Nos perdemos um pouco na estrada de terra e chegamos pouco antes de anoitecer.

Ao passar pelo caminho aberto na mata para chegarmos na nossa cabana, tive a sensação de estar na ilha do filme As filhas do botânico (Les filles du botaniste). Estranho e familiar. No fim, não tinha botânico, mas o dono da pousada, Marcelo Tcheli, também tem outra atividade inusitada, é bonequeiro (constrói e apresenta peças de teatro de bonecos - adoro!; às vezes viaja o mundo com a esposa para fazer apresentações) e tem histórias ótimas.

Esse é o Tcheli, dono da pousada Recanto da Mata. É ele que planeja, constrói e cuida de tudo na propriedade. Incrível, não tenho palavras para descrevê-lo, mas ele mudou minha perspectiva sobre vida e trabalho.



Chegando à ilha de As filhas do botânico... :)



Cabana/ chalé (apesar desse solzinho, que durou meia hora, estava chovendo):







Uma das cozinhas coletivas:




Sanitário compostável:




Serragem para jogar depois de usar o sanitário :)



Pia ao ar livre:


Depois que chegamos, o Tcheli explicou como as coisas funcionavam na pousada, fez fogueira para esquentar a água do chuveiro (!!), que fica fora do chalé - parece que tem outros chalés com banheiro interno -, o que me impressionou muito. Tomamos banho, que estava quente e bom, e depois fui preparar o jantar, um risoto de shiitake (fomos comprar os ingredientes no Mercado alguns dias antes, achei shiitake fresco, fiquei contente). Jantamos e logo fomos dormir porque estava muito frio e o dia tinha sido um pouco cansativo.

O melhor "quarto" da cabana! A Aly insistiu para eu ficasse com ele.





No verão dá para entrar nesse rio. Mais para cima tem uma cachoeira, que não fomos ver porque estava chovendo e muito frio! Queria voltar no verão.




Vista da varanda da casa do Tcheli, onde tinha sinal de celular e wi-fi:



Paisagens rurais de Maquiné que me fizeram pensar na série Dark. Fotos tiradas de dentro do carro na volta para Porto Alegre:






Essa viagem para Maquiné foi muito especial e serei eternamente grata à Aly. Me lembrei de várias coisas, de quando era criança e ia para o sítio do meu pai e do meu tio, senti a mesma vibe, porque precisávamos nos preparar (levar comida, organizar malas, cobertores, travesseiros...), adorei a cabana porque sempre quis ter uma casa na árvore e nunca tive; meu pai ia adorar o Tcheli e conversar com ele sobre as construções e invenções (ele nos mostrou um liquidificador movido a manivela adaptada de um eixo de bicicleta!, o que achei genial, porque não depende de eletricidade!), as galinhas, a paisagem rural. 

As conversas com a Aly também foram ótimas. Falei que estava meio perdida profissionalmente, acho que gosto de uma coisa (trabalhar com livros) que não é compatível com o mundo real ou está cada vez menos compatível, sei lá... ela disse que eu tinha que pensar em coisas que me faziam vibrar, aí lembrei que um dia quis muito fazer jornalismo, depois de Tradução, para trabalhar na revista Os caminhos da Terra, que nem existe mais. Ficava imaginando as viagens para lugares distantes, as paisagens que ia ver, as pessoas que ia conhecer e em todos os livros que teria de ler para escrever uma boa matéria, contando a história do lugar e ao mesmo tempo falando sobre a vida contemporânea de um jeito vivo e que tocasse as pessoas. Então, mesmo que elas não se dispusessem a ir aos países pobres ou em guerra ou com risco de contágio para onde eu fosse, elas se ampliariam de alguma forma com as minhas experiências. Isso me faria vibrar. Tocar, despertar e ampliar as pessoas para mundos diferentes me faria vibrar - e meu questionamento em relação à ficção é esse: até que ponto eu conseguiria tocar as pessoas com histórias de pessoas que não existem? Até que ponto isso faria diferença na vida delas? É muita pretensão desejar "que as pessoas se ampliem a partir da minha escrita"? Gosto de coisas que não são práticas nem rentáveis e não sei o que fazer com elas. 


Além disso, estão acontecendo algumas coisas na vida pessoal/ familiar que prefiro nem comentar porque não são tão boas. Estou meio orgulhosa de mim porque tenho conseguido lidar com tudo de  forma muito mais leve. Aceito mais as coisas como elas são, não faço mais drama nem sofro por coisas pequenas. Se aproximar da morte relativiza tudo; vários tipos de problemas passam a ter pouca ou nenhuma importância. Essa é uma grande lição depois do câncer: evitar desgastes emocionais desnecessários. Aceito o que não posso mudar, porque a vida está em constante movimento, tudo vai passar e depois vai ser apenas uma lembrança - para mim, nem isso se minha memória não ajudar.

Hoje à tarde vou fazer uma tatuagem de duas carpas simbolizando "ying yang", as forças opostas. Depois vou combinar com a tatuadora Thay Aoyama (@pandonautatattoo) porque também quero uma flor de lótus. E, quando chegar no meu "peso ideal", meu prêmio: a carpa grande nas costas. [Fiquei pensando e eu poderia cobrir o corpo inteiro com tatuagens de temática oriental e depois vender a pele para algum japonês maluco fazer abajur quando eu morrer...]

Fiquem com essa imagem do entardecer visto do "meu" terraço e lembrem-se de tentar viver intensamente entre um compromisso e outro. É só o que desejo para vocês e para mim também!

Abraços e luz,

Aline Naomi