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domingo, 24 de fevereiro de 2019

Minha experiência com o câncer


Will Eisner em Ao coração da tempestade


Agora são 5h da manhã, acordei às 4h. Não consigo dormir. Adoro o silêncio dessas horas, enquanto a maioria dos mortais dorme. Vou aproveitar para escrever esse texto há muito tempo adiado. Isso  faria parte de um projeto que eu tinha com a Babu (uma oficina de escrita para pessoas que tinham passado por experiências de câncer e gravação de depoimentos em vídeo, porque eu achava que valeria a pena as pessoas compartilharem essas história de alguma forma) antes de eu decidir passar mais um ano em Porto Alegre. Como isso não rolar, ou pelo menos não tão já, vou postar aqui. Pensei em gravar um vídeo - depois de ter gravado um vídeo de cinco minutos como parte do processo seletivo da TAG, consigo gravar qualquer coisa -, mas escrever é melhor.

No começo pensei em escrever sobre minha experiência e mandar só para amigos muito próximos,  porque falar sobre o câncer não é falar  sobre o câncer, é falar também sobre minha relação com família, amigos, Yuri, trabalho, tempo, vida e morte e mais uma porção de coisas que talvez eu preferisse não trazer à tona porque ainda doem de alguma forma. Até pouco tempo, não queria me expor dessa forma, mas se ajudar alguém com alguma coisa (talvez a refletir sobre a própria vida, a finitude da vida, gratidão), já ficarei feliz.

Esse relato também foi motivado pelo Lourenço Mutarelli, com quem estou fazendo uma oficina de HQs autorais. Em uma das aulas ele me questionou e também um colega que teve uma doença muito grave se em algum momento nos perguntamos "por que eu?" (e não outra pessoa). Ele disse que achava importante a gente compartilhar essas histórias para que outras pessoas que estivessem passando pela mesma situação soubessem que não estão sozinhas ou algo assim. No primeiro dia da oficina nos apresentamos, eu e esse colega nos expusemos, falamos sobre as doenças, então as pessoas sabiam. Ele comentou que sim, que se perguntou por quê, mas não havia muito o que fazer, porque no caso dele a doença era genética. Eu não falei nada porque, que me lembre, nunca questionei isso e estava tentando lembrar o que senti quando fui diagnosticada. Não lembro bem, na maior parte do tempo são lembranças embaçadas com alguns lampejos nítidos. 

Para quem não sabe, fui diagnosticada com um câncer na língua no começo de 2017. Não vou conseguir escrever com detalhes, como o David Coimbra conseguiu escrever sobre a experiência dele no livro Hoje venci o câncer, até porque meu diário dessa época ficou em Porto Alegre e não devo ter escrito muito. Pode ser que uma parte do relato seja meio ficção, mas é a forma como lembro e sinto tudo isso hoje.

Em outubro ou novembro de 2016, notei uma "ferida" branca embaixo da língua. Eu já tinha tido isso uns quinze anos antes e um otorrino de São José fez uma microcirurgia para retirar a lesão pré-cancerígena. Fiz exames na época, depois da cirurgia, e eu estava "cancer free". Então, em 2016 estava tranquila e pensei "vou pro médico quando entrar de férias em dezembro" (esse é um erro, uma negligência, que nunca mais vou cometer comigo: adiar assuntos de saúde por não querer faltar no trabalho). A ferida não cicatrizava e começou a doer, então marquei uma consulta no otorrino. A médica, de cara, já disse que precisava de uma biópsia e tirou uns pedaços da minha língua para análise. E fez perguntas que todos os outros médicos seguintes também fizeram: "Você fuma?", "Convive com fumantes?", "Bebe?". Não para todas as perguntas. 

O resultado da biópsia saiu um tempo depois, vi escrito "carcinoma", imaginei o que era, mas tinha medo de jogar no Google. Marquei outra consulta com outro otorrino e essa consulta foi bem bizarra porque durou uns cinco minutos, o cara parecia apavorado, não me explicou nada, disse que ele não era da equipe do dr. Fulano, que cuidava de casos como o meu. Precisei marcar outra consulta, e dessa vez tive mais clareza do que estava acontecendo. Esse otorrino era também cirurgião de cabeça e pescoço, porém não especializado em câncer, e me explicou que eu tinha um tumor maligno, que provavelmente precisaria passar por uma cirurgia e tratamento com radio e químio, mas que era para eu ficar tranquila, porque meu caso estava no início e São Paulo tinha os melhores oncologistas e hospitais especializados (me indicou A. C. Camargo e ICESP), falou para eu voltar lá caso não conseguisse consulta logo nesses hospitais. Fiquei atordoada, mas não chorei, acho que estava tentando processar a informação. [Teve um dia que o prof. Assis propôs um exercício em que o personagem descobria que tinha uma doença muito grave e como tinha sido esse dia para ele; não consegui escrever nada.] Nesse dia a Yuri foi comigo na consulta (como iria em todas as outras), mas não entrou comigo no consultório, e, quando saí, me perguntou o que tava acontecendo, acho que eu não falava coisa com coisa porque lembro de ela ter falado algo do tipo: "Não estou entendendo nada, o que você tem? O que o médico disse?".

Depois disso, a Yuri me ajudou a correr atrás das coisas práticas: verificar se o convênio cobria os procedimentos, como fazer o pedido para o convênio, como ser atendida no A. C. Camargo pelo SUS (é possível, mas é difícil porque é a prefeitura que encaminha os pacientes para hospitais de tratamento de câncer onde há vagas; o tratamento particular nesse hospital me custaria um rim ou mais) etc. Em meio a isso, o que mais me angustiava era ter que contar para os meus pais. Contar sobre o diagnóstico e também que eu namorava a Yuri (em seis anos, eu não tinha conseguido contar isso pros meus pais). Senti que era a hora de falar sobre a Yuri porque era ela que estava do meu lado e seria ela que me ajudaria a atravessar aquele inferno - e também porque eu não aguentava mais mentir (ou fingir ou omitir uma parte importante da minha vida). Minha prima mais próxima, a Diana, que é fisioterapeuta e trabalha com uma linha mais "holística", disse que talvez o câncer na língua não tenha sido aleatório, que talvez eu tinha muita coisa para falar, mas não conseguia, fui guardando e aquilo me fez muito mal. Fez sentido pra mim.

Eu estava MUITO nervosa no fim de semana em que viajei para São José dos Campos para comunicar meus pais sobre isso. Isso já era começo de janeiro, eu estava de férias, e adiei a viagem o quanto pude. Não queria falar disso por telefone. Lembro que meu pai foi me buscar num ponto perto do shopping Vale Sul, onde costumo descer, porque fica mais ou menos perto de onde eles moram. Quando chegamos em casa, nos abraçamos e meu pai perguntou se estava tudo bem, aí eu disse algo do tipo: "Preciso falar duas coisas pra vocês. Saiu o resultado da biópsia e estou com câncer. E namoro a Yuri já faz alguns... anos". Duas bombas atômicas. Hiroshima e Nagasaki. Meu pai fingiu não estar tão surpreso mas devia estar processando as informações e começou a falar sem parar. Só lembro de a minha mãe ter dito (sobre a Yuri): "Eu desconfiava, mas até ter certeza..." e depois ficou muda. Meu pai falou por um tempo que me pareceu umas duas horas. Não lembro de quase nada, só de ele ter dito que queria que eu me casasse com um homem porque ele queria netos (rebati que mesmo se me casasse com um cara, não ia querer filhos, o que é verdade... e preferi nem comentar que era "bi" - apesar de não gostar de rótulos -, porque seria coisa demais pra cabeça deles num dia só), disse que eu era um "galho quebrado" (eu não daria continuidade à nossa família - mas, gente, meus primos têm dois, três filhos, parecem uns coelhos, a família Sassaki não vai acabar nunca)... comentou também, claro: "O que a nossa família vai pensar?". Foda-se o que a família, no caso, parentes, iam pensar, né? Não respondi isso, como deixei passar várias falas absurdas, porque estava muito cansada. Aliás, toda essa situação foi bem absurda. Se eu morresse, nada disso importaria. Como, na realidade, não importa. Ao mesmo tempo, entendo que tudo isso deve ter sido muito difícil para eles. Pelo menos nenhum dos dois correu atrás de mim com uma faca pela casa (uma amiga, descendente de japoneses, me contou que a mãe dela fez isso com ela quando ela contou que era lésbica - fato: a realidade é mais incrível que a ficção).

Depois dessas duas horas, passamos para a pauta doença. As coisas práticas. Fiquei de marcar consulta com oncologista no A. C. Camargo e avisá-los.

Nessa consulta, uns dias depois, fomos eu, a Yuri, meus pais e meu irmão. O médico foi atencioso (a consulta era particular, caríssima, meu convênio era o mais básico e não cobria nada no A. C. Camargo, um dos melhores hospitais de câncer daqui - nunca contratei convênio além do básico nas empresas onde trabalhei, minha saúde era boa e achava que nunca ia precisar), mas (mas!) quando joguei o nome dele no Google, descobri que quando ele era estudante de medicina, matou um cara, um descendente de japoneses, como eu, com um chute no peito, por causa de uma discussão no trânsito ou algo assim; descobri também que ele tinha tratado o Lula, o que me deixava só um pouco menos tensa. Ele nunca foi condenado pela morte, veio fazer a vida em São Paulo, o crime prescreveu. Fiquei chocada com isso, mas meus pais estavam desesperados (muito mais que eu) e a gente precisava resolver isso logo. Se não houvesse outra alternativa, eu faria a cirurgia com ele, apesar de ele ter matado uma pessoa de forma consciente e de os pais dele provavelmente terem pago os melhores advogados para que nada acontecesse (que mundo, que pessoas).

Por esses acasos da vida (nunca são acasos, né?), meu chefe, o editor com quem eu trabalhava, lembrou que o Alexandre, um funcionário da distribuidora de livros que ele conhecia, teve o mesmo tipo de câncer que eu e me colocou em contato com ele. Daí o Alexandre me indicou a dra. Beatriz Cavalheiro, a cirurgiã de cabeça e pescoço dele, senti um alívio. Eu não precisaria ser operada por aquele cara que matou uma pessoa.

Na época, eu estava anestesiada, sofri muito menos do que as pessoas com diagnóstico de câncer sofrem, acho. Estava esgotada de tanto trabalhar e, por um lado, eu estava "feliz" porque não sentia culpa em faltar no trabalho (olha o nível de loucura da pessoa), e também pude faltar nas aulas do MBA, as faltas seriam abonadas, todo mundo entendia que eu não tinha condições de funcionar normalmente, porque estava concentrada em me curar. Nesse período pensei em algo horrível: "Se eu morrer nessa cirurgia, pelo menos vou poder descansar. Não vou precisar mais trabalhar em coisas sem sentido nem me preocupar com as contas". Na verdade, os primeiros anos na editora foram ótimos, eu aprendia muitas coisas, depois fui assumindo cada vez mais coisas administrativas e o tempo que eu passava fazendo coisas do editorial diminuiu, me sentia estagnada e não havia para onde crescer. Apesar disso, foi o melhor lugar onde trabalhei, as condições (salário, benefícios, ambiente) eram ótimas e aprendi muito com o editor, que tinha quase a minha idade de experiência em publicação. A coisa toda era comigo, não lido bem com "estagnação" e falta de sentido.

Só fui entender o grau de sofrimento que me impunha ano passado e tive pena de mim mesma. Eu ficava pensando que não podia perder o emprego porque precisava pagar as contas e, se saísse, teria que voltar a morar com meus pais e isso seria um retrocesso. Só que eu não conseguia enxergar que isso não tem a menor importância, não seria um retrocesso, talvez só uma pausa, não sou de me acomodar, logo encontraria outras coisas pra fazer, outro emprego, outras metas. E isso seria muito menos doloroso do que continuar vivendo daquela forma. Também tinha a ver com o fato de eu não querer ser a "filha problemática". Meu irmão deu muita dor de cabeça pros meus pais durante alguns anos (ele talvez nem tenha ideia disso e meus pais nunca vão falar isso pra ele), acompanhei uma parte desse período, não me metia porque não era problema meu, mas aquilo me afetava e devo ter ficado com isso na cabeça: "não quero fazer meus pais passarem por isso de novo, preciso ser responsável". E sempre fui responsável, não fui uma criança problema nem uma adolescente rebelde, corri atrás das coisas (até demais), me virava e queria que meus pais continuassem me vendo dessa forma. Eu era o que o meu irmão não conseguia ser. A que preço? Eu estava exausta, infeliz e morta e não percebia.

Nessa época eu estava trabalhando nos freelas também, por isso o cansaço era maior. Em meados de 2015, quando nada estava fazendo muito sentido, recebi um e-mail falando que um conto meu tinha sido selecionado para uma coletânea do Bunkyo, uma associação nipo-brasileira. O concurso de contos tinha rolado em 2012 e eu tinha esquecido. Fiquei feliz, entendi como um sinal do tipo: talvez eu devesse investir nisso, talvez eu não escreva tão mal, pelo menos quem leu esse achou que era razoável a ponto de entrar na coletânea. Ou talvez eu precisasse de uma desculpa para ir embora de tudo aquilo que já não fazia sentido. Daí me planejei. Decidi juntar o máximo de grana possível e me inscrever para a oficina de escrita do Assis Brasil no fim de 2016, que era algo que eu queria desde o começo dos anos 2000. Se fosse selecionada, ótimo, se não, eu sairia da editora da mesma forma. Me inscrevi, fui selecionada para fazer a oficina em 2017, mas, depois do diagnóstico, o plano foi adiado (mandei e-mail, expliquei a situação para a Bibiana, que falou com o Assis, eles entenderam, falaram que minha vaga estaria lá no ano seguinte - YES! Isso foi ideia da Ana Igual, por mim, já tinha dado a vaga como perdida). Tudo é muito absurdo, mas de certa forma fez sentido. Se eu tivesse feito a oficina em 2017, não teria conhecido as pessoas que conheci e que foram/ são importantes (e que quero que continuem na minha vida "pra sempre" ou o máximo de tempo possível). No fim, tudo faz sentido. E agora, mais do que nunca, sempre sinto que estou onde deveria estar. É uma sensação nova e reconfortante.

Em 2015 eu e a Yuri passamos por uma experiência que me abalou muito. Tem a ver com eu ser muito ingênua, com estar trabalhando demais, com minha vida estar muito ruim e eu não me dar conta, com encontrar paliativos para tornar a vida um pouco mais suportável. Nunca falei isso (na verdade, coloquei isso pela primeira vez na carta que escrevi pro Mutarelli - escrevi uma carta para ele contando sobre a minha experiência), mas às vezes eu tinha vontade de subir no último andar do prédio comercial onde trabalhava e me jogar de lá. O prédio devia ter uns 15 andares, a editora ficava no primeiro. Esse era meu estado mental entre 2015 e 2016. Como trabalhava muito, não conseguia ver os amigos, não conseguia falar com ninguém sobre o que eu sentia e pensava, as pessoas iam me achar louca, eu mesma me achava bem louca na época (todo mundo conseguia lidar com angústias profissionais e pessoais, por que era tão difícil, quase insuportável, pra mim? Eu precisava dar conta). Não entendia o que eu sentia, não sabia de onde vinha tanta angústia, e às vezes eu só queria parar de sentir o que quer que fosse. Me expus dessa forma porque, imagino, muitas pessoas devem sentir isso, mas ninguém fala, é importante falar. Às vezes é difícil entender e também admitir que as coisas não vão bem, a gente se engana muito. Achava que estava tudo sob controle, mas nessa época estava precisando de ajuda profissional. 

Analisando tudo isso agora, vejo o quanto eu fui dura comigo mesma. Não precisava ser assim. Tem um filme iraniano em que uma menina perde o único par de sapatos, a família é pobre e ela pensa que os pais ficariam muito bravos, porque não teriam dinheiro para comprar outro sapato para ela. O irmão uns anos mais velho passa a emprestar o único par de tênis que ele tem pra ela ir pra escola, enquanto tenta encontrar o sapato dela pelo bairro. Para a menina, aquilo é uma tragédia. No fim, não lembro se era aniversário dela, mas, apesar da pobreza, a mãe já tinha reservado um dinheiro para comprar sapatos novos para ela. Tudo se resolve. Eu era essa menina que perde o par de sapatos e acha que isso é o fim do mundo. Não é. Poucas coisas na vida são o fim do mundo. Quase tudo pode ser resolvido de uma forma ou de outra. Só a morte não pode ser remediada.

Voltando pra minha cirurgia: correu tudo bem. A dra. Beatriz é ótima (fui pra consulta com ela essa semana - de seis em seis meses preciso fazer exames e voltar lá -, está tudo em ordem). Precisei de anestesia geral e fiquei pensando "já pensou se eu não volto da anestesia?". Ela tirou o tumor da língua, ou seja, cortou um pedaço da lateral esquerda, que foi pra biópsia depois, e fez o "esvaziamento cervical" do lado esquerdo - fez um corte no pescoço para retirar os linfonodos, já que não dava pra saber se o tumor tinha atingido outros órgãos. Isso também foi para a biópsia e os linfonodos estavam limpos, ou seja, o tumor se restringiu à língua. Agora tenho uma cicatriz de uns 20 cm no pescoço e as pessoas devem ser perguntar por quê, não tenho problema em falar sobre isso, mas nunca me perguntaram diretamente. Um amigo, o Sergio, disse que eu poderia fazer uma tatuagem de pontos de sutura aparecendo sobre a cicatriz, tipo noiva cadáver... haha Estou de boa com a cicatriz, não me incomoda, se eu dependesse do corpo/ da imagem para trabalhar estaria mal, não é o caso. Outra "sequela" foi que uma parte do meu rosto, do lado esquerdo, é um pouco anestesiada. Já me acostumei. Poderia ter ficado sem levantar o braço esquerdo, isso, sim, seria muito problemático. Meu braço esquerdo é um pouco mais fraco que o direito e teoricamente eu não deveria pegar muito peso com ele...

Sobre a cirurgia, preciso dizer que o convênio não cobriu, mesmo em se tratando de uma doença muito grave - queriam que eu esperasse uns vinte dias úteis para analisar o caso pra daí decidir se liberavam a cirurgia ou não (quê?). A dra. Beatriz disse que era melhor não esperar, ela não tinha como dizer qual a natureza do tumor, podia ser que dali um mês ele estivesse muito maior. Meu pai ficou bem preocupado e acabou pagando tudo de forma particular, a conta deve ter ficado entre R$ 30 e R$ 35 mil (médicos, hospital, internação). Eu tinha esse dinheiro, mas meu pai disse pra eu guardar para ir para Porto Alegre. Aliás, apesar de estar bem conformada com tudo que estava acontecendo, às vezes eu pensava que seria triste morrer com essa grana no banco sem ter feito o que eu queria com ele depois de tanto esforço. Em algum momento, eu quis muito continuar viva, ter oportunidade de fazer as coisas do "jeito certo" (piada da Yuri na época: "Você tem que viver mais pelo menos trinta anos, pro investimento do seu pai valer a pena!").

Pelo que lembro, fiquei internada três dias. Tomei várias medicações que nem sei. Só lembro de um analgésico muito forte chamado Tramal, que me dava náuseas, eu não conseguia comer nada, nem gelatina, tudo me dava vontade de vomitar. Nesse período no hospital, me comunicava escrevendo num caderno, tinha medo de falar e estourar os pontos na língua. A Yuri e meus pais se alternaram como companhia no quarto. Fiz essa cirurgia em fevereiro de 2017, estava com 78 kg (!); considerando que meu peso ideal é 50 kg, eu estava com quase 30 kg a mais. Nunca fui "magra", só quando criança, sempre tive um sobrepeso e isso em geral não me incomodava, mas nunca tinha chegado nesse nível (entre 2014 e 2016 engordei muito, comia muita besteira, era uma válvula de escape + não tinha tempo nem disposição pra cozinhar nem fazer atividades físicas). Nunca mais vou fazer isso comigo, me descuidar dessa forma. Eu não admitia, mas olhar no espelho e me ver tão "deformada" me machucava muito. 

Depois da cirurgia, como só me alimentava de líquidos e gelatina, emagreci uns quilos; por esse lado, achei bom não conseguir comer muita coisa.

Voltei para o trabalho por um tempo, depois comecei o tratamento com radioterapia. A dra. Beatriz achou melhor fazer isso de forma preventiva. Meus linfonodos estavam limpos, o tumor havia sido retirado por completo, mas como eu era "muito jovem", ela indicou a rádio para diminuir as chances de o câncer voltar (em 2017 fiquei lendo muito sobre o assunto e tem artigos falando que meu tipo de câncer não é tão grave, as chances de cura são altas quando diagnosticado no início, mas o índice de recorrência é maior que outros tipos de câncer e acontecem em até cinco ou dez anos depois do primeiro diagnóstico; passados dez anos, as chances de ele voltar diminuem). Ela disse que se eu tivesse uns 70 anos, não me faria passar por isso. Prescreveu 30 sessões de rádio. Não precisei fazer quimioterapia.

Além da radioterapia, tive que fazer acompanhamento com uma dentista, porque a radiação na área da face e pescoço agride muito as gengivas e os dentes. A oncologista, dra. Karina Moutinho (ótima!), indicou o dentista que faria a laserterapia pelo convênio num consultório perto do hospital oncológico onde eu faria as sessões de rádio. O dentista era um bosta, sério. Entrei no consultório, ele me olhou e perguntou algo do tipo "Qual o problema?". Ele ouviu com muito desinteresse, falou coisas que contradiziam o que a oncologista tinha dito (para fazer a laserterapia o máximo de vezes possível, logo no começo do tratamento, para retardar ao máximo as feridas na cavidade bucal causadas pela radiação). O dentista disse que a laserterapia não seria necessária no começo e que depois agendaria as sessões, umas duas vezes por semana. Odiei esse cara, um velho. E pensei que ele devia ser um cara muito frustrado, provavelmente queria ser médico e não conseguiu (ele tinha ligações, uma parte como sócio, algo assim, com o hospital oncológico e devia usar os pacientes como cobaias pras pesquisas dele). 

Acho que por recomendação da dra. Beatriz, cheguei à dra. Thais Brandão, a dentista especializada em pacientes oncológicos (isso existe), que me atendeu superbem, mas precisei pagar a laserterapia de forma particular. Todo dia eu ia pra laserterapia, em geral, depois da sessão de rádio. Quando a situação começou a piorar, ela ou outra dentista de confiança dela ou o marido dela me atendia até sábado e domingo (as sessões de rádio aconteciam de segunda a sexta). 

Em algum momento fui ver uma fonoaudióloga, porque perdi um pedaço da língua, a dra. Beatriz disse que talvez eu teria dificuldade com a fala. A fono me passou uns exercícios, fiz do jeito que dava (durante a rádio ficou difícil, não conseguia fazer muita coisa), mas ela disse que minha fala não seria tão afetada. Hoje sinto que quando falo muito rápido, me enrolo haha, nada grave. 

A radioterapia consistia em colocar uma máscara feita com uma tela "reticulada" de plástico, moldada sob medida para o meu rosto e pescoço e prendiam essa máscara no leito onde a aplicação da radiação era feita. 

Tirei essa imagem daqui

Em geral, gastava um certo tempo na sala de espera do hospital, as sessões atrasavam, às vezes o equipamento enguiçava e não tinha sessão (aconteceu poucas vezes). A sessão de radiação durava cerca de 30 minutos. Uma vez por semana uma enfermeira media minha pressão e me pesava, às vezes eu precisava ver a nutricionista. A Yuri me levou para todas as sessões de rádio e laserterapia; não tenho palavras, tenho uma dívida de gratidão eterna com ela.

A primeira semana de radioterapia correu bem. Na segunda semana, aconteceu o inevitável: perdi o paladar. Comprei um pão de queijo pra comer no ônibus de volta pra casa (eu tinha voltado a trabalhar), mordi e não tinha sal! Comi mais e, na verdade, não tinha gosto! Demorou um pouco pra cair a ficha, mas era isso. As médicas já tinham dito que alguns dos efeitos colaterais da rádio eram perda do olfato e perda do paladar. Não lembro direito, mas acho que entre a terceira e quarta semana, começaram a surgir feridas na minha boca e garganta; isso foi piorando, apesar da laserterapia. Comecei a perder peso porque já não conseguia comer sólidos e depois, nem líquidos. Mais para o fim do tratamento, cheguei a perder 5 kg em uma semana, isso foi assustador e me deu vontade de chorar. Eu precisava me alimentar para que o sistema imunológico não ficasse tão fraco, mas não conseguia nem beber água (parecia que cacos de vidro desciam pela garganta). E também não podia perder peso senão teria que fazer outra máscara para o tratamento de radioterapia (a máscara precisa estar bem justa no rosto, às vezes, com a perda de peso, ela fica frouxa, aí precisam moldar outra e nisso perdem-se dias de sessões e o tratamento demora mais para terminar). A última semana de rádio e a primeira após a última foram as piores, como previsto pelas médicas. Me sentia muito fraca, não conseguia pensar direito (pensei nas crianças que não se alimentam direito e precisam ir pra escola - não aprendem nada porque não conseguem se concentrar). No fim da rádio, eu estava com 60 e poucos quilos. Ainda bem que eu estava obesa. Fico pensando se eu fosse enfrentar toda a situação com o peso que tenho agora (56 kg)... no fim, eu estaria com uns 36 kg, se estivesse viva. No meio do ano passado, a dra. Beatriz pediu para que eu fosse ver um endócrino, para ele analisar melhor minha tireoide. Ele me "deu bronca", falou que minha glicemia estava alta e que eu precisava emagrecer se não quisesse morrer de diabetes (ele deve ter suavizado o discurso, mas o que ouvi foi isso). Como tenho tendência a diabetes, se eu conseguir ficar no meu peso ideal (além de alimentação saudável e atividade física) - estou tentando, emagreci uns quilos desde a última consulta com esse dr. Terroristinha -, a taxa de glicemia fica estável. Não quero nunca precisar de insulina na barriga todo dia. Quero me manter saudável.

Ainda durante a rádio, em algum momento, minha pele do pescoço e parte do rosto ficou muito queimada, como se tivesse ficado no sol do meio-dia por vários dias, aí eu passava um óleo de girassol (acho que era de girassol) que uma das enfermeiras me deu. Também passava uma toalhinha embebida em chá de camomila no rosto e pescoço de vez em quando para amenizar os efeitos da rádio. Eu gostava do cheiro, mas não tinha muito efeito prático.

Não lembro muito dos dias, mas fiquei muito tempo jogada num colchão na sala, o "colchão maldito", como a Yuri o chama, porque era só eu deitar nele e não conseguia levantar mais, vendo todos os programas de comida na Netflix. Eu não podia comer, mas sentia prazer em ver as comidas (sou doente), em ver os chefs preparando iguarias ou falando sobre alimentação saudável.

O tempo foi passando e, depois do término da rádio, fui me recuperando. Comecei a beber líquidos, comer gelatina, tomar sopa.  Aos poucos, o paladar foi voltando e consegui reintroduzir os alimentos sólidos (a dra. Karina falou uma coisa que me deu pavor: se eu deixasse de comer alimentos sólidos por muito tempo, o diâmetro de alguma parte do aparelho digestivo, a glote?, ia diminuir e eu não conseguiria mais comer normalmente). Como a salivação foi afetada (as glândulas que produzem saliva do lado esquerdo não funcionam mais), não consigo mais comer pão, bolacha, farofa e coisas muito secas sem beber algo junto. Não gosto de chiclete, mas às vezes mastigo para manter a boca úmida.

Como previsto, saí do trabalho e o segundo semestre de 2017 não foi exatamente bom. Acho que passei por uma depressão leve (não tinha vontade de fazer nada, nem de ir pro cinema nem de tomar sorvete - a coisa foi assim grave -, queria dormir o dia todo e dormia muito, não queria falar com ninguém além do necessário). Talvez tivesse a ver com alguma tentativa de assimilar o que tinha acontecido e/ ou com a minha tireoide afetada pela radiação e o desequilíbrio na produção de hormônios, incluindo os hormônios que causam bem-estar. Em alguma consulta, a dra. Beatriz prescreveu um remédio para a tireoide, o Synthroid, que preciso tomar meia hora antes do café da manhã e estou tomando até agora. Me senti melhor depois do remédio, e a viagem que fiz com a Yuri para João Pessoa em novembro me ajudou a melhorar os ânimos e a renovar a energia também.

Quando fui para Porto Alegre, em março do ano passado, passei desse estado disfórico para a euforia total. Haha. Não entendo bem o que aconteceu, mas eu estava muito feliz. A Babu e alguma outra pessoa me falou que eu não estava normal e que era bom eu procurar terapia. Não dei muita atenção porque depois de muito tempo eu me sentia feliz, não me sentia anormal. No primeiro semestre também fiz uma tatuagem que queria fazer há pelo menos quinze anos. No segundo semestre, fiz mais duas (e quero mais, eu quero sempre mais! :). Pensei que não deveria adiar mais nada.

A oficina de escrita estava indo bem, eu estava conhecendo pessoas, consegui ter uma certa rotina de exercícios, leitura, escrita, cozinhei bastante. Pessoalmente eu estava confusa (alguma novidade?) com várias questões, e fui levando. Apesar das confusões, ano passado consegui me concentrar em mim, pensar em várias coisas, foi muito bom.

Quando o segundo semestre chegou, as coisas foram se acalmando, viajei para Belém (realizei esse sonho, agora falta Manaus!), a Babu não pôde ir comigo, como tínhamos combinado (ela ia me ensinar a surfar!), tô morrendo de saudade dela, ela está num tipo de recolhimento por motivos religiosos (por causa dela, mês passado pisei num terreiro de candomblé pela primeira vez, achei lindo o ritual pelo qual ela passou), consegui me concentrar melhor na escrita, algumas coisas foram se resolvendo. Acho que perdi uma amizade porque alguém provavelmente se apaixonou por mim, mas isso não era recíproco - "oráculos" me disseram que depois que ela começar a namorar talvez eu consiga me reaproximar (então tô torcendo pra ela conseguir namorar logo, haha, porque sinto falta das conversas e da companhia). Nisso descobri a diferença entre afeto e desejo e que nem sempre vou desejar quem eu gosto, por mais que goste. E que nunca vou conseguir desejar pessoas por quem não sinto afeto nenhum. E é meio raro as duas coisas coincidirem. Descobri que não posso agradar todo mundo o tempo todo, nem a mim mesma. Decidi não me sentir mal nem culpada por coisas que estão fora do meu controle (acontecimentos, o que sinto, o que as pessoas sentem, o rumo que as coisas tomam), mesmo quando elas viram uma confusão. Não entendo tudo que sinto, mas abri mão de entender, porque isso me enlouquece. Também deixei de querer preencher expectativas. Algumas (várias?) coisas não consegui resolver, talvez só na terapia e/ ou na escrita. Talvez não se resolvam nunca, e não tem problema. O jeito é conviver com elas da melhor forma possível, assim como convivo com os efeitos da radioterapia. Infelizmente não dá pra arrancar o que sinto e colocar em vasinhos de bonsai (por não querer matar nem manter certas coisas crescendo dentro de mim). [Tem um conto do Michel sobre isso, não vou mais reler porque sempre choro.]

A vida, em geral, ficou mais leve. Muita coisa perdeu a importância. E me pergunto sempre coisas do tipo: vale a pena me chatear por isso? Vale a pena investir tempo nisso? Isso vai me fazer feliz? Quanta sanidade mental isso vai me custar? O quanto quero isso? Realmente quero isso? Vale mesmo a pena? Isso faz sentido? 

Minha percepção de tempo se alterou. Sempre penso que posso não ter tempo para algumas coisas, então, se acho importante, coloco como prioridade. Há uns dez anos, decidi falar "gosto de você"/ "quero ficar com você" / "quero te beijar" para que as pessoas soubessem o que eu sentia, isso se tornou um pouco mais urgente agora; ainda morro dez vezes antes de falar esse tipo de coisa, mas menos do que se imagina, porque a sensação é rara. Não entendo direito o que acontece comigo (a Mayu disse que sou "sapiosexual", haha, não sei, talvez eu seja), mas está tudo bem, me aceito, não preciso ser igual as outras pessoas. Um dia na terapia eu falei que só queria ser normal e a terapeuta me perguntou o que era ser normal para mim. Nem lembro o que eu disse, mas é algo que me incomoda, é minha "questão essencial" (na oficina de escrita, o prof. Assis disse que os personagens devem ter uma questão essencial e tal, aí fiquei pensando que isso também se aplicava às pessoas... me perguntei qual seria a minha questão, concluí que é isso: eu tentando sempre me encaixar e me angustiando porque nunca vou conseguir - a não ser que mate muitas coisas em mim). Um amigo, um dentista com quem trabalhei no convênio, me disse uma vez para eu não me "mediocrizar", talvez querer me encaixar signifique isso. Fiquei emocionada ao ouvir o que ele disse, talvez eu queira matar coisas bonitas que as pessoas veem em mim só pra me encaixar e me sentir confortável, mesmo sabendo que isso nunca vai acontecer. Estou tentando ficar bem com isso. Eu sou assim e... TUDO BEM. As pessoas que gostam de mim vão continuar por perto e quem não gostar vai partir. Simples assim, não preciso ficar triste, só me resta agradecer pelo tempo que ficaram por perto (falo isso sobretudo para mim mesma, às vezes é difícil, sinto saudade).

Em termos "práticos", passei a ser muito disciplinada quanto aos exercícios físicos e alimentação. Li que açúcar contribui para o surgimento de câncer e diminuí muito o consumo, tomo vitamina e suco sem açúcar, por exemplo, já não gostava muito de refrigerante, parei de tomar (na primeira vez que tomei refrigerante, meses depois de ter terminado a rádio, minha boca ARDEU horrores, refrigerante não é uma bebida normal). Continuo comendo chocolate, bolos, sobremesas, mas com uma frequência bem menor que antes. Como pouco pão e estou evitando massas - adoro, porém tudo vira açúcar. Estou cozinhando mais e isso me dá satisfação. Estou tentando dormir horas suficientes, meditar antes de dormir (não consegui me disciplinar ainda) e me angustiar menos com o futuro.

2018 foi um ano incrível. A San, uma amiga do colegial que adoro, disse que eu parecia uma fênix, achei bonita a impressão que ela tinha de mim, ano passado renasci de alguma forma mesmo. Vivenciei muitas coisas (coisas reais e outras que só aconteceram na minha cabeça - aproveitei tudo) e me senti muito viva. Ri e chorei bastante, voltei a falar com amigos que estavam um pouco distantes, fiz umas merdas (às vezes ouço a voz da Babu falando "Miga, não faz isso!" e eu respondendo "Já fiz" haha), recebi a Crisinha e a Tatsy em Porto e foi muito bom revê-las. Conheci pessoas extraordinárias. Pedalei muito ao longo da orla do Guaíba (eu amo aquilo). Voltei a escrever e está sendo prazeroso. Voltei a traduzir e está sendo bom. Está tudo bem, apesar de ainda precisar me planejar quanto ao futuro e definir metas com as quais consiga conviver sem morrer mais que o necessário todos os dias.

Essa é a minha jornada até agora. Que bom que tive a chance de continuar vivendo por mais um tempo. Quero e vou aproveitar tudo que puder.

Recados que li nas ruas de Porto Alegre e que talvez sirvam para vocês:



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Sobre os cursos da vida



Terça passada comecei um curso de HQs autorais com o Lourenço Mutarelli na Biblioteca de São Paulo, onde ficava o presídio do Carandiru. Em 2009 fiz carteirinha para emprestar livros lá - morava no Tucuruvi e trabalhava em Santana, tudo ali na Zona Norte, mas usei muito pouco porque não encontrava o que queria ler na época. Dez anos depois, me surpreendi, a biblioteca parece outra - bem melhor -, tem até uma DVDteca!

Coincidência, destino, sorte? "Quando o aluno está pronto, o professor aparece"? Agora tenho a estranha sensação de estar sempre onde deveria estar e sou muito grata por oportunidades como essa.

Me inscrevi nesse curso para aprender a organizar um projeto de HQ e entender como era um roteiro para esse fim (essa pergunta o Mutarelli já me respondeu: não há fórmulas, quanto maior a afinidade entre roteirista e desenhista e quanto mais liberdade o roteirista der ao desenhista, melhor fica o trabalho), só que, pelo jeito, vou aprender muito mais. 

Nessa primeira aula, o Mutarelli falou sobre ele, sobre HQs em geral e um pouco sobre o trabalho dele, contou várias histórias bem pessoais e outras de alunos - ele é um contador de histórias ótimo -, depois cada um se apresentou. Em geral, essa parte é chata, ainda mais ter que falar ao microfone (tenho um certo pavor), só que dessa vez foi interessante ouvir os colegas (uns vinte, mais homens que mulheres). Era para falar o nome, a profissão e a motivação para estar ali, porém acabou sendo uma sessão de terapia coletiva - ironicamente, minhas sessões em Porto Alegre eram/ são terça à tarde. 

Talvez o fato de o Mutarelli ter "exposto as vísceras", como costumo dizer, motivou as pessoas a se expor também. Antes da apresentação ele disse para a gente dosar o que expor ali, para ser mais interessante (?). Tinha um cara que estava com a namorada revisora, se não me engano ele contou que teve depressão e a namorada me pareceu a parte animada da relação; outro cara contou que trabalhava no Banco do Brasil e pediu as contas ano passado (ele tinha gastrite e não davam licença pra ele), agora o pai dele não fala mais com ele (!); tem um cara que trabalha numa editora de livros de autoajuda, teve "uma doença muito grave" e, no período de recuperação, teve a ideia de fazer uma HQ baseada nessa experiência; a garota do meu lado disse que escreve poesia e voltou a desenhar há pouco tempo (comentou que os traços dela e de uma prima de 7 anos são parecidos), teve um garoto de 24 anos que foi bem simples e falou que era designer, gostava de desenhar, mas não tinha nada de interessante pra contar - isso, por si só, já é interessante, porque as pessoas em geral querem parecer tão incríveis, né? Ele se chama Lucas, o único nome que consegui guardar. 

Na minha vez, já me senti #aíntima, falei que era tradutora, tinha trabalhado em algumas editoras,  que tive um câncer (lembrei da Roseane comentando "ela fala 'tive câncer' como se falasse 'caí e ralei o joelho'", haha, as pessoas devem ter ficado um pouco chocadas, mas pra mim é natural falar disso) e estava fazendo coisas de que gosto porque durante a recuperação me dei conta de que poderia ter morrido sem fazer nada do que eu queria. Falei que tinha ido fazer uma oficina de escrita em Porto Alegre e estava dando um tempo lá. Falei também do meu projeto de HQ contando os bastidores das editoras com base em experiências próprias e alheias - situações que "leitores comuns" nunca imaginariam (vivi situações surreais e queria jogar isso pro mundo em forma de HQ tragicômica, temperada com ironia e deboche, o problema é que não desenho).

Enquanto se apresentava e durante a apresentação de cada pessoa no auditório, ele ia perguntando, comentando sobre HQs, escrita e sobre a VIDA, fazendo as pessoas ficarem à vontade. Foi mesmo uma terapia coletiva aquilo. Adorei! :) Senti que havia muita sinceridade no que as pessoas diziam, várias se abriram sobre angústias, questões pessoais, comentaram que não estavam felizes no trabalho - em geral todo mundo fantasia que adora o trabalho, né? Me senti à vontade ali. Talvez o mundo precise desse contato mais profundo com o outro - algo que sempre busco na relação com  as pessoas -, saber que o outro também sofre e se angustia, às vezes pelas mesmas coisas que a gente, e ninguém fala sobre isso.

Aliás, lembrei muito da Babu e de uma conversa que tivemos há algum tempo, sobre o porquê de sentir vontade de fazer "arte" (ela trabalha na área de audiovisual). Ela disse que se sentia muito "cheia" e queria jogar as coisas pro mundo pra talvez extravasar o que ela tinha dentro. Já eu, sinto vontade de compartilhar o que penso e sinto para me sentir menos louca. Porque não é possível que só eu pense nas coisas que penso e sinta as coisas que sinto. E nesse mundo de super-heróis (todo mundo é um profissional incrível, que ama o trabalho, faz tudo muito bem, é presente na família, ótimo pai, excelente mãe, vida doméstica indo superbem, tudo ótimo, obrigado), tudo me parece cada vez mais superficial e encenado. Preciso de mais. Quero me relacionar com pessoas que sangram, que não têm problema em expor angústias, medos e fragilidades. Somos todos humanos, afinal.

Pelo nível das apresentações, o curso será sobre HQs, mas também sobre a VIDA - no fim das contas, é o que importa.

O Mutarelli disse que costuma desenhar ouvindo música e que "o desenho é uma microdança". E, olha que poético, "desenhar é uma forma de entender a beleza das coisas". 

Todo mundo sabe desenhar, quando a gente é criança desenha e tudo é bonito, depois vamos tentando nos enquadrar e criando vários bloqueios. Teve um menino que disse que estava num curso de desenho e o Mutarelli disse que talvez a melhor forma de aprender seja simplesmente desenhar, às vezes os cursos "formatavam" (não foi esse o termo que ele usou) demais os traços das pessoas, tirando delas o que havia de mais genuíno. Fiquei pensando que isso também serve para a escrita. Por falar nisso, ele comentou que escreve de forma intuitiva, não fica indo e voltando, reescrevendo e melhorando o texto; depois de um tempo ele relê/edita e aí, sim, o processo é racional.

A gente precisa ser menos autocrítica e fazer o que gosta do jeito que a gente acredita, pensar menos no que os outros vão achar (na hora em que ele disse isso, pensei: "sim, porque vão falar mal da gente e do que a gente faz mesmo, então, foda-se, né?").

Não adianta fazer muitos cursos, o negócio é colocar a mão na massa. Pode-se aprimorar, mas o importante é fazer. "Não existe um jeito certo de fazer as coisas, existe o jeito de cada um fazer as coisas e que funciona." Ele disse algo engraçado: "chega uma hora que a gente precisa fazer o nosso próprio curso", ou seja, ouvir menos o que os outros têm a dizer e mais a nossa própria voz. Juro que estou tentando.

Ele comentou que achou ótimo a turma não ser de quadrinistas e que ele costumava dar esse curso no Sesc Pompeia, aí pegou uma turma péssima, cheia de "nerds", ficou injuriado e não deu mais o curso por anos. Quando ele disse isso lembrei do "orgulho nerd" (enfiem isso na bunda?). Fiquei imaginando um bando de nerd fazendo perguntas nerd ou comentários com base científica/ citando autores X, Y, Z ou em milhares de coisas que eles leram pro Mutarelli, um porra louca intuitivo incrível. Aliás, ele comentou uma coisa sobre a qual eu, o Michel e a Roseane já tínhamos conversado várias vezes: é bom ler e ter cultura geral, mas é muito mais importante viver e ter experiências diversas, porque, em tese, isso torna nossa escrita mais autêntica. 

Foi ótima a aula. Amanhã (hoje, quinta) tem mais. Fiquei com vontade de voltar a desenhar, mesmo achando meus desenhos horríveis ("estou tentando ser menos autocrítica, blablablá" haha). De repente, se eu conseguir desenhar de um jeito bom o suficiente para mim, consigo tocar a HQ sozinha no futuro, o que seria mais interessante, por melhor que fosse o(a) desenhista e por mais próximo(a)s que fôssemos.

Falei sobre o curso pra Rê Supimpa (ela curtiria, certeza) e ela fez esse desenho com vários elementos de que gosto enquanto esperava o sobrinho ser atendido pelo médico. AMEI e me senti inspirada. Quero desenhar. Não faço isso com constância desde o colegial (!), mas como não fiz cursos, talvez seja mais fácil recuperar a naturalidade dos traços. Vamos ver o que acontece.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

100 fatos sobre mim

Estava falando com a Rê Supimpa faz umas semanas e ela comentou que comia todas as frutas, MENOS morango (adoro morango!). Respondi que isso poderia entrar na lista "100 fatos sobre mim [no caso, sobre ela]". Ficamos de fazer essa lista e trocar, então aí vai. [Estou fazendo isso também para me aquecer na escrita, não estou conseguindo escrever nada, não estou conseguindo nem verbalizar conversas com amigos próximos pelo whats.]

1. Meço 1m53 e peso 56 kg (meu peso ideal é 50 kg - eu chego lá!).

2. Meus avós paternos, Sakae e Fushao Sassaki, vieram de Fukushima (ilha de Honshu, a principal), minha avó materna, Kiyono Yamanouchi, veio de Saga (Kyushu, a ilha mais ao sul) e meu avô materno, Kazuwo Yamanouchi, veio de algum lugar da ilha de Hokkaido (ao norte). 

3. No fim do terceiro ano do colegial (Ensino Médio), prestei vestibular para Letras, Tradução, Jornalismo e Odontologia. 

4. Minha cor preferida é azul. A segunda preferida é amarelo. Também gosto de vermelho.

5. Sou curiosa e me interesso por várias coisas e isso às vezes é um problema.

6. Tenho um certo vício em sorvete (dizem).

7. O primeiro livro que li sozinha foi O medo da sementinha, do Rubem Alves, na primeira série.

8. Nasci em São José dos Campos, estudei em São José do Rio Preto, atualmente moro em Porto Alegre (às vezes em São Paulo e também em Júpiter).

9. Adoro sereias.

10. Queria saber desenhar para fazer minhas próprias HQs.

11. Duas metas profissionais: ser uma boa editora e traduzir literatura japonesa.

12. Eu não acreditava em cartas de tarô até 2018.

13. Se pudesse viajar para algum lugar agora, seria para Tóquio.

14. Ouvi muito Legião Urbana e Marisa Monte na adolescência e continuo gostando. 

15. Fiquei com sete pessoas na vida (dois caras, cinco minas; seria bom equilibrar/ diversificar esses números? :).

16. Gosto de (quase) todo mundo, mas pouca gente de fato me interessa.

17. Já pratiquei natação, vôlei e judô, mas não sou boa em nada disso.

18. Fiz aulas de órgão eletrônico quando tinha 12 anos e logo vi que também não era boa com instrumentos musicais.

19. Pintei umas telas com tinta a óleo quando tinha 16 anos. Logo vi que não sou um gênio na pintura, haha, e desisti.

20. Gosto de cozinhar (e de comer).

21. Já fui escoteira.

23. Nunca traí (e se fizesse isso teria que valer muito a pena, porque sei que ia querer morrer depois).

24. Alguns dos meus livros preferidos são: O som da montanha, do Kawabata, Minha querida Sputnik, do Murakami, O bestiário, do Cortázar e Venha ver o pôr do sol e outros contos, da Lygia Fagundes Telles.

25. Adoro frutas, todas que provei até agora.

26. Não tomo refrigerante.

27. Meu tipo sanguíneo é A+.

28. Amo cinema. Meus filmes top 3 são: Asas do desejo, do Wim Wenders, Dolls, do Takeshi Kitano e Encontros e desencontros, da Sofia Coppola. Talvez isso mude no futuro.

29. Tenho insônia/ não consigo dormir quando algo me incomoda ou me preocupa muito.

30. Fiz aulas de datilografia quando tinha 10/ 11 anos porque queria datilografar minhas histórias. Achava minha letra horrível - ironicamente, depois que terminei o curso, ela melhorou e hoje as pessoas a acham "bonita".

31. Quando tinha 4 anos falei pra minha mãe que queria entrar na escola porque via as crianças brincando no parquinho e queria brincar/ socializar com elas (haha).

32. Até hoje, se estiver passando "Chaves", paro pra ver e rio das mesmas piadas idiotas.

33. A pessoa com quem eu mais me identifico na família é a minha tia Harumi, irmã mais velha da minha mãe, porque ela também gosta de ler, escrever, ver filmes e se interessa por muitas coisas.

34. Nunca consegui ser vegetariana.

35. Sei dirigir, mas tenho receio porque me distraio fácil - em vez de prestar atenção em placas, retrovisores, outros carros e semáforos, fico olhando outras coisas (nuvens, pessoas, cachorros, paisagens).

36. Meu pai disse que, quando eu era pequena, ia no colo de todo mundo (fico imaginando a cena: um(a) estranho(a) abrindo os braços e eu pulando no colo dele(a), gente do céu!). Continuo "dada": quando confio em alguém, falo sobre coisas muito pessoais fácil, ainda que isso não seja recíproco, mas, nesse caso, recuo senão depois me sinto mal.

37. TV não me faz falta.

38. Tenho quatro tatuagens (e quero mais uma dezena!).

39. Ainda escrevo cartas a mão.

40. Um dos sonhos frequentes quando era adolescente: eu pulava num abismo, mas a queda sempre era amortecida por algo macio (almofadas, um monte de feno...).

41. Já perdi o controle, gritei e quis bater em alguém uma vez. Sim, a coisa foi mesmo séria para eu reagir dessa forma.

42. Não gosto de falar ao telefone.

43. Uma das minhas comidas preferidas é macarrão com funghi (e massas em geral).

44. As enfermeiras elogiam as minhas veias - elas conseguem me furar com facilidade e quase não sinto nada.

45. Quando eu tinha 20 e poucos anos estava nos meus planos adotar uma criança em algum momento da vida, mas desisti disso há uns cinco anos.

46. Já tive vontade de morrer antes da hora.

47. Às vezes fica uma bagunça dentro de mim.

48. Não tomo café porque me dá dor de estômago.

49. Não gosto de comida muito apimentada.

50. No colégio, quando as pessoas não me conheciam direito, achavam que eu era um gênio. Depois viram que eu ia muito mal em exatas e pararam de pedir cola. :)

51. Comecei a estudar inglês com 11 anos (pedi pra minha mãe me colocar numa escola de idiomas e ainda bem que ela fez isso). 

52. Quero aprender mais sobre budismo. 

53. Escrevo diário desde criança. Fiquei períodos sem escrever nada por motivos variados, mas sempre retomo porque sei que a maioria das coisas que vivo esqueço. É terapêutico também.

54. Se eu não fosse tradutora, cogitaria ser fotógrafa ou roteirista.

55. Eu gostava de brincar de boneca e com bichos de pelúcia quando era criança. Acho que sempre fui meio lerda porque brinquei com essas coisas até os 11 ou 12 anos. (MC Melody está a anos luz de mim.)

56. Me sinto mais à vontade quando estou com pessoas que compartilham os mesmos interesses que eu.

57. Não gosto quando acabo de conhecer a pessoa e ela não consegue falar comigo sem me tocar (no braço, cabelo, ombro...). Penso, mas não falo: "Não precisa me tocar, estou te ouvindo".

58. Fumaça de cigarro me incomoda.

59. Gosto de festa junina e todas as comidas de festa junina.

60. Já chorei por amores imaginários ou que não deram certo.

61. Choro por um monte de coisas, incluindo as que não entendo.

62. Não gosto de tomar sol. Uso filtro solar, em geral com fator 50.

63. Eu colecionava papel de carta quando era criança.

64. Quando pessoas que adoro indicam uma música, fico ouvindo mil vezes. 

65. Sou ruim em entender cantadas e piadas.

66. Sou boa em falar bobagens.

67. Falo palavrão.

68. Nunca consegui imaginar a minha vida como um filme ou uma série, mas, se fosse, seria uma tragicomédia.

69. Eu gosto. (Que piada infame. :)

70. Deixo o celular sempre no silencioso, a não ser que esteja esperando ligação/ mensagem dos meus pais, de amigos próximos ou de trabalho.

71. Prefiro ser chamada pelo meu segundo nome, mas também atendo pelo primeiro, porque sou um cachorrinho bem treinado.

72. Já pintei parte do meu cabelo de azul.

73. Várias pessoas me falam que sou ingênua. Estou cuidando disso. Quero ser um demônio.

74. O que mais gosto em Porto Alegre é andar de bike pela orla do Guaíba.

75. O que mais gosto em São Paulo é a vida cultural (e caminhar no Ibira).

76. Quando tinha 11 anos eu sabia selar um cavalo, hoje não sei mais.

77. Gosto de meias listradas e coloridas, mas também uso as brancas para parecer normal.

78. Michel disse que gosto de "remexer no passado". Estou tentando parar com isso. 

79. Babu disse que tendo a colocar todo mundo que eu gosto em pedestais. Também estou tentando parar com isso.

80. Carol disse que ela e outros amigos me amam, apesar de eu ser assim e fazer umas merdas inexplicáveis às vezes (nesse dia eu chorei e ganhei um abraço :).

81. Dan disse que tendo a racionalizar tudo, incluindo emoções, por isso às vezes não consigo entender nada. Acho que é verdade, mas não sei o que fazer a respeito.

82. Tive uma amiga por correspondência (agora é amiga de Facebook/ Instagram) iraniana que trabalhava numa revista de cinema, por isso a cultura iraniana/ o Irã me interessa. Teve uma época em que eu queria aprender persa por causa dela. #aloka [é, algumas pessoas me inspiram nesse nível]

83. Sinto saudades de pessoas com quem provavelmente não voltarei a falar nem encontrar. [Nesse momento ouço o Michel falando na minha cabeça: "Você gosta de remexer no passado" - ainda não consigo evitar, as pessoas ficam em mim mesmo quando não quero.]

84. Quando eu tinha 20 e poucos anos escrevi contos eróticos com um "parceiro textual" (que revisava a verossimilhança das cenas de sexo haha) e postávamos num blog, com pseudônimos, claro.

85. Depois dos 30 comecei a me interessar mais pela cultura japonesa (antes eu achava que era "moda" e não queria ser "otaku") e a querer entender por que minha família e familiares eram/ são do jeito que são, o que isso contribui para quem eu sou e como isso me afeta positiva ou negativamente.

86. Estudei Tradução na Unesp de São José do Rio Preto entre 1999 e 2002. O curso é ótimo e foi uma das escolhas acertadas que fiz na vida - apesar de todo ano ter a crise: "Vou prestar Fuvest e vou embora para São Paulo, não aguento mais essa cidade". [Passei em Letras na USP na segunda ou terceira chamada, mas escolhi ir para a Unesp porque a grade do curso era melhor e eu não queria fazer licenciatura.]

87. Estudei odontologia na Unesp de São José dos Campos por dois anos (2007 e 2008).

88. Já trabalhei num convênio odontológico. Isso foi ótimo para ter noção de como as coisas funcionavam na área e contribuiu para eu desistir do curso no fim do segundo ano. 

89. Me interesso pela área da saúde e gosto muito de ler sobre isso, mas concluí que não é uma área na qual quero atuar.

90. Nunca consegui me sentir "normal" e encaixada no mundo como as outras pessoas parecem ser.

91. Comecei a fazer terapia em setembro de 2018.

92. Me considero voyeuse em vários sentidos. Gosto de ver.

93. Beijei pela primeira vez com 19 anos. Eu queria que fosse com alguém especial e valeu a pena esperar.

94. Meus pais não leem livros e quase não assistem a filmes. Demorou muito tempo para eu aceitar que apesar do afeto que nos une, não temos quase nenhum interesse comum, por isso as conversas em geral são "rasas" e isso doía, eu não conseguia entender isso. Ter conversas rasas com quem eu gosto sempre dói (às vezes exponho as minhas vísceras na mesa enquanto a pessoa fica falando sobre o tempo, notícias da TV ou sobre a vida de terceiros - ok, só que trocar experiências humanas é mais enriquecedor pra mim). Bom, isso diz muito mais sobre mim do que sobre os meus pais.

95. Estou tentando praticar o desapego cada vez mais (obrigada, Marie Kondo!).

96. 2018 foi um dos melhores anos da minha vida.

97. (Ainda) não sei me maquiar.

98. Quando era adolescente, fazia cortes com gilete na pele para me distrair do que eu sentia. Funcionava. Quando entrei na faculdade, parei.

99. No começo de 2009 me mudei para São Paulo e comecei a trabalhar numa editora. Continuar em São José dos Campos não dava mais.

100. Quero ser feliz. Quero que todo mundo que amo também seja feliz. Na medida do (im)possível.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Travessia

Travessia, 2016 (Heloisa da Costa Medeiros)


Apesar do silêncio, continuo viva e tentando viver ao máximo. No momento, tenho a agradável sensação de que estou exatamente onde deveria estar e passando para a próxima fase que ainda não sei qual é.

Quando junho virou julho algo aconteceu. O primeiro semestre foi meio caótico, muitas coisas fora do meu controle acontecendo dentro e fora de mim. Quando começou o segundo semestre, senti uma serenidade se instalando. Não que tudo tenha se resolvido num passe de mágica, mas parece que tive uma "iluminação" do tipo: não importa o que aconteça, tudo vai ser como deve ser e está tudo bem. Não preciso me angustiar nem nada - a vida vai seguir seu próprio rumo.

Sexta sonhei com a minha batian que faleceu há dois meses. Ela e minha mãe tinham vindo me visitar aqui. Fui para o banheiro. Ela entrou e se sentou no piso do banheiro enquanto eu estava na privada e comentou que o piso era bonito. Eu sabia que ela já tinha morrido e não fazia sentido. Comentei que era para os azulejos serem brancos e não verdes como naquele sonho que estávamos vivendo (eu sabia que era sonho). Alguns segundos depois acordei com saudade, chorei, mas sonhar com ela me fez acreditar, de novo, que as coisas vão ficar bem - de uma forma ou de outra. 

Meu próximo post vai ser uma "Carta de Porto Alegre nº..." escrita de São Paulo mesmo. Quero contar coisas que vivi nos últimos dois meses. Vivenciei muitas coisas, a maioria escrevi no diário (estou escrevendo mais seguido no diário de papel, por isso, também, deixei esse diário virtual meio de lado... é que no diário de papel posso escrever tudo que penso e sintosem filtros, e adoro essa liberdade).

Um brinde à vida e ao futuro, seja lá o que for!


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Hoje eu venci o câncer, de David Coimbra (4/265)



Estou lendo bastante, mas meio sem ânimo para escrever sobre os livros aqui. Decidi postar um resumo de algumas linhas no Instagram no dia do término da leitura e depois escrever melhor aqui. Por isso, nesse primeiro momento, as postagens sobre livros não vão seguir a ordem de leitura. (Quero escrever sobre livros que li no começo do ano quando possível, mas vou numerando as leituras conforme for postando mesmo.)


***

A Aly me emprestou esse livro do jornalista gaúcho David Coimbra há mais ou menos um mês. Ela ganhou de presente de aniversário do irmão mais velho dela, leu, gostou e me emprestou. A Aly teve um câncer de mama há seis anos, o David Coimbra foi diagnosticado com câncer nos rins com metástases no fim de 2013. Os casos deles foram muito mais graves que o meu, mas sinto que independentemente da gravidade, a experiência com o câncer nos transforma - em geral, para melhor.

No livro, David conta que descobriu o câncer "por acaso", quando foi para o médico ver o que era uma dor no peito, por meio de exames chegou-se ao diagnóstico de câncer. Os médicos não tinham um prognóstico bom, mas uma rede de contatos entre médicos foi ativada e, no fim, ele acabou indo para Boston para participar de uma pesquisa com um medicamento novo. Sua esposa e o filho pequeno também se mudaram para lá alguns meses depois. Aliás, em algum momento, ele diz que inicialmente o livro foi pensado para que o filho se lembrasse dele depois que ele partisse, mas que bom que ele não partiu e está vendo o filho crescer.

Apesar do assunto pesado, a história é contada com leveza, mesclando histórias profissionais e pessoais (como, por exemplo, sua infância pobre em uma casa na av. Assis Brasil e o abandono da família pelo pai), além de histórias sobre e com amigos (gostei da homenagem; ele nomeou os amigos para que eles ficassem, de alguma forma, imortalizados) e crônicas publicadas no Zero Hora, onde ele tinha ou tem uma coluna.

Com exceção de uma crônica com um tom machista ("O que o homem gosta na mulher"), gostei da forma como ele conta tudo. Sobre a crônica, leiam esse trecho (p. 19):

"Uma modelo é muda. Não está acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as modelos.

[...]

As atrizes, sim. As atrizes têm de ler e compreender textos. Ou seja: elas precisam pensar. Então, você pode encontrar mulheres belas e de espírito entre as atrizes."

Alguém que coloca todas as pessoas de uma profissão num mesmo saco e as julga "incapazes de raciocinar" e recomenda que os caras procurem atrizes para se relacionar deve ter um lado meio leviano, né? Just saying. A favor dele, há outras crônicas bonitas e tocantes. A forma como ele fala do filho pequeno é comovente.

***

Trechos:

p. 82

"O papel do jornalista é contar como o mundo muda. Assim, de certa forma, ele ajudará a mudar o mundo."

p. 103

"[...] O fato é que o câncer desperta solidariedade mesmo, e não só em mineiros. As pessoas pensam que você vai morrer em seguida e passam a tratá-lo como um cadáver virtual, uma espécie de pré-morto. É muito bom. As pessoas ficam gentis e tolerantes. Não dão mais importância às coisas sem importância, enxergam mais o que você tem de bom do que o que tem de ruim, exaltam suas qualidades e esquecem seus defeitos."

p. 149 e 150 (final da crônica "Para sempre. Nunca mais." da qual eu gostei!)

"[...]
Se morasse nessas distâncias, quanta saudade não sentiria? Por coincidência, quando vagava nesses pensamentos, minha amiga Mariana Bertolucci mandou-me uma mensagem do outro lado do Atlântico: "Que saudade da nossa antiga turma do Lilliput". Lembrei-me então que, naquela época, em algum momento em que, por algum motivo, ela nos negligenciou, eu lhe disse: "Mais tarde, vamos nos separar para sempre, e tu vais sentir saudades".
Tantos anos depois, e minha profecia daquela noite se cumpriu. Nos separamos para sempre, e ela sente saudade. Para sempre. Nunca mais. As pessoas não acreditam, mas a vida é cheia de para sempre e de nunca mais. Se morasse aqui, quantos para sempre e nunca mais acrescentaria na minha vida? Quantos estou acrescentando nesse instante, mesmo sem morar aqui? Pessoas que vou perder e que vão me perder para sempre. Sentimentos que nunca mais voltarão. Pensar nisso me deu certa melancolia. Olhei a neve lá fora. Estremeci. Pedi outro Bourbon. Caubói, é claro."

p. 182 e 183

"[...] Aprendi que não devo e não posso ficar preocupado com o futuro. Tenho de me preparar para o futuro, mas não me afligir com ele. Até porque o futuro não chega nunca. Quando chega, se transforma em presente. Aí, haverá outro futuro com que se incomodar."

p. 198

"Poder caminhar, poder levantar algum peso, poder dormir em qualquer posição. É assombroso como atividades mínimas da existência, para as quais não damos a menor atenção, fazem diferença para você se sentir bem e feliz."


Como escrevi outras vezes, a experiência com o câncer transforma as pessoas. Para mim foi marcante, pois sinto que consigo aproveitar muito melhor o presente agora. A noção de tempo se tornou muito mais palpável - tento viver o máximo que posso, dar o meu melhor e ter as prioridades sempre em mente; sou muito "ativa", quero fazer e aprender a fazer milhares de coisas, mas sei que não terei tempo para tudo isso (mesmo se eu vivesse até uns 100 anos!). 

Por fim, esse livro me inspirou a escrever um relato sobre a minha experiência também, para não esquecer, embora já tenha esquecido muitas coisas - mas não pretendo postar, no máximo, vou compartilhar com pessoas próximas. A Babu já tinha me dado essa ideia há alguns meses. Ainda ando com uns bloqueios de escrita e ela sugeriu que, se eu escrevesse sobre uma experiência pessoal, seria mais fácil - de fato, né? Não é difícil escrever sobre algo que aconteceu com a gente... ou pelo menos isso é bem mais fácil do que inventar histórias fictícias "do nada".



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Carta de Porto Alegre nº 5


Porto Alegre, 21 de maio de 2018


Queridos amigos,

esta é a vista do terraço do prédio onde moro. Tirei essa foto num dia em que subi para tomar sol e ler. Ao fundo dá para ver o rio, lago ou estuário [escolha a denominação que quiser; se quiser, também pode trocar por linguiça] Guaíba. 

Como já faz um certo tempo que escrevi a última carta, tenho novidades e descobertas para compartilhar. Meu ~ intercâmbio ~ em terras gaúchas tem sido mais produtivo no sentido pessoal que "profissional" ou de aprimoramento de escrita. Aliás, esses dias me questionei se não superestimei a ficção - é o momento perfeito para me questionar isso mesmo, bem no meio de uma oficina de escrita de ficção que vai durar até o fim do ano. Haha. De repente parece que a ficção não chega nem perto do que é viver e sentir de verdade - e talvez agora eu esteja mais ansiosa para viver do que ficar lendo e escrevendo sobre pessoas e coisas que não existem. Deve ser só uma fase, porque sempre gostei muito de ficção e quis muito vir pra cá para fazer essa oficina, me sacrifiquei em alguns sentidos em São Paulo para poder estar aqui, então isso precisa valer a pena, mesmo que depois eu conclua que não sirvo para ser ficcionista.

No começo do mês (entre 4 e 9 de maio), estive em São Paulo para comemorar o aniversário da Yuri, fazer exame de sangue, retornar ao dr. Terroristinha, meu endócrino, pegar o certificado do MBA em Book Publishing, antes que a faculdade o perdesse, ver meus pais em São José dos Campos, cortar o cabelo. Consegui fazer tudo isso e foi ótimo. Também aproveitei para ver algumas amigas, correr no parque Ibirapuera, um dos meus lugares preferidos, e comprar comida na Liberdade. 



A Ana Igual queria ir a um café novo e moderninho na Liberdade chamado 89ºC Coffee Station (89ºC é a "temperatura ideal para se fazer um bom espresso", conforme escrito no local), aí nos encontramos lá. Não tomo café, então pedi um frapê de matchá que estava muito bom. A Ana tomou dois cafés - ou seja, deve valer a pena!


Sobre os exames de sangue, minha glicemia se estabilizou, o nível de hormônio da tireoide também está se normalizando por causa do remédio que a dra. Beatriz (a cirurgiã de cabeça e pescoço que me operou e que consulto de seis em seis meses) receitou, mas minha vitamina D está quase em estado crítico. Recomendações do dr. Terroristinha: tomar sol com roupas minúsculas e perder mais peso (emagreci seis quilos em dois meses e ele nem escreveu um "parabéns" no receituário!, haha, em vez disso, ouvi que preciso perder mais peso... pelas minhas contas, pelo menos mais sete quilos).

Então vamolá correr assim que der, né?


Aconteceu uma coisa perturbadora em São Paulo: quando fui pegar o metrô pela primeira vez depois de dois meses e vi aquele monte de gente, me deu taquicardia, igual quando tinha recém chegado para morar e trabalhar na cidade. Não gosto de multidões, me sinto bem insegura, mas precisei me acostumar com aquilo. Também me blindei para não sentir e não chorar toda vez que alguém me empurrava ou esbarrava em mim e não pedia desculpa. Doentio, não? A gente precisar se blindar para não desmoronar com a brutalidade cotidiana de uma cidade... Isso porque não me considero uma pessoa "sensível". Imaginem os sensíveis - devem morrer por dentro todo dia antes de chegar ao trabalho.

Apesar da brutalidade paulistana, ler esse tipo de arte na rua Augusta ainda me dá certa esperança na humanidade:


Talvez exista amor em SP e "não precisa sofrer para saber o que é melhor para você" ("Não existe amor em SP" é uma música do Criolo que descobri recentemente - quem não conhece, clica aqui, vale a pena!).



De volta a Porto Alegre, mil coisas.

Fui jantar com a Carol num lugar de que ela gosta: Cuca Haus. Lá tem sanduíches feitos com cuca (céus!), hambúrgueres e um pão com duas linguiças + complementos de que não lembro (pedi esse último - uma ogrice sem tamanho, óbvio que não aguentei comer nem a metade, mesmo estando muito bom, ainda mais que a Carol me deu um pedaço meio grande da cuca com carne de panela que ela tinha pedido! Da próxima vez peço o que ela pediu, mesmo sabendo que só vou conseguir comer um terço... daí peço para embrulhar para comer no almoço e no jantar do dia seguinte :).


Só queria saber por que DUAS linguiças... hahaha... para mim uma já era mais que suficiente.


No dia 11/05, uma sexta, voltei ao Von Teese, porque a Aly me convidou para ver um show com  músicas em francês (a banda apresentou músicas em homenagem a Edith Piaf e Zaz). Foi legal voltar a ouvir músicas em francês. Lembrei de quando uma das professoras de francês da faculdade nos obrigava a cantar músicas em francês para melhorarmos a pronúncia, mas logo afastei o pensamento, porque isso foi meio traumático para mim. Apesar disso, gosto de ouvir músicas em francês... só não me animo a cantar.




Continuo encontrando mensagens e frases pelas ruas e prestando atenção:










Semana passada finalmente comprei um cabideiro, assim minhas coisas ficam menos espalhadas pelo quarto!

Ainda sobre assuntos domésticos, as roupas sujas estão bem acumuladas no cesto, ainda não levei para a lavanderia. Daqui a pouco não vou ter mais roupa para usar... preciso resolver isso. Vou resolver em breve. Ah, teve um dia em que estava frio e fiquei lavando lenços, panos de prato, tênis, chinelo... no tanque... pra quê? Dor de garganta atacou, lógico. Estou rouca e tomando chá de gengibre e mel ou limão e mel até hoje. Uma hora isso passa, eu sei, só queria que passasse logo.

No sábado retrasado, dia 12/05, fui fazer uma oficina de fotografia de rua na Casa de Cultura Mario Quintana. A Aly que tinha me chamado, porque sabe que sou #aloucadasfotos e porque ela também se interessa muito pelo assunto, mas depois lembrou que tinha o chá de aniversário da mãe para ir, então, como eu já tinha me inscrito (e pago), fui lá. O Henrique, fotógrafo que estava ministrando a oficina, recomendou o livro Manual do fotógrafo de rua, do fotógrafo inglês David Gibson, que comprei pela Amazon e mandei entregar em São Paulo. Uma parte da oficina aconteceu dentro do Laboratório Fotográfico da Casa de Cultura, onde o Henrique apresentou o trabalho de vários fotógrafos de rua, incluindo o chinês Fan Ho, do qual a Ana Igual já tinha me falado, e falou de algumas técnicas (tem uma técnica muito louca em que andamos com a câmera na altura da cintura e tiramos fotos de passantes sem olhar o que estamos fotografando - nenhuma foto que tirei assim prestou). Depois saímos para fotografar o centro histórico, fomos andando até o Mercado. A segunda aula aconteceria no último sábado, mas como eu e outras pessoas não poderíamos ir, o Henrique comentou que era melhor adiar. Não sei quando será essa segunda aula, mas provavelmente não estarei por aqui (vou para São Paulo essa semana e volto no começo de junho).










Numa tarde da semana passada, o barulho de obras em algum apartamento estava insuportável e, quando o som de serra elétrica ou furadeira parava, ouvia a vizinha da foda gritando e gemendo e a cama batendo contra a parede. Eram umas 15h! "Sua vizinha não trabalha?", perguntou um amigo. Aparentemente, não. Começo a pensar que talvez esse seja o trabalho dela... "A vida sexual da sua vizinha é bem ativa, né?", comentou outra amiga, "É, de onde será que vem tanto fogo?", devolvi, e ela: "Da vida". Hahaha. Ok, beleza, "o fogo vem da vida", entendido. Bom, com essas condições não conseguia escrever, então saí para dar uma volta. Fui até a Igreja Nossa Senhora das Dores para ver uma obra da 11ª Bienal do Mercosul lá. Para compô-la, artistas gravaram várias línguas com risco de extinção nas Américas e na África; eram trechos lidos em vários alto-falantes (cada alto-falante apresentava uma língua diferente, com textos de diferentes tamanhos e conteúdos). Alguns colegas e professores da faculdade de Tradução talvez pirariam com isso. Só achei curioso e fiquei pensando que as línguas são orgânicas, talvez tenham um ciclo de vida também, ainda que seja lamentável que morram e levem consigo o legado de uma cultura.




Também fui para o Santander Cultural e Memorial do Rio Grande do Sul ver outras obras da Bienal. 


No Santander Cultural, a obra mais legal é "Departamento de Recursos Não Revelados", de Mark Dion. Nela, dois performers agem como se fossem funcionários de um banco, responsáveis pelo cofre. Há uma mesa com ares de burocracia, o atendente pergunta: "Gostaria de ver o seu cofre?", mexe em papéis, informa o número do cofre, recebemos um "recibo" e passamos para a área com os cofres (li aqui que foram usados cofres antigos do próprio Santander). O atendente dá uma chave com o número do cofre e pega outra chave, pois são necessárias duas para abri-lo. "No três, gire a chave em sentido horário." Ele conta, um, dois, três, nós dois giramos a chave e o cofre abre. O atendente pega uma caixa de metal pesada e leva até uma das três mesas que ficam num dos cantos da saleta. Abri a caixa e havia muitos grãos de café, fiquei mexendo neles, como se fosse Amélie Poulain, e minha mão ficou cheirando a café por algumas horas. Depois é só chamar o atendente para dizer que já vimos o conteúdo, ele guarda o cofre e pergunta se queremos ficar com o recibo. Eu quis ficar com o meu.




Voltei ao Santander outro dia, porque queria que a Aly visse essa obra e saber o conteúdo do cofre que iam designar para ela. No dela tinha vários potinhos com areia colorida e, no meu segundo cofre, quatro ou cinco espelhos dupla-face redondos (dica de que preciso olhar para mim mesma/ para dentro de mim?), o que me impactou. Quero voltar para ver o que mais tem nos outros cofres. Adoro essas obras interativas!

No Memorial do Rio Grande do Sul, gostei da obra "Capa-Canal", do mexicano Héctor Zamora, em que telhas foram feitas literalmente nas coxas (é daí que vem a expressão "feito nas coxas", já ouviram falar?):


O vídeo com a performance da obra pode ser visto aqui.

Depois, fui ver o filme Para ter onde ir na Casa de Cultura Mario Quintana. Li a sinopse, sobre três mulheres que se encontram e viajam em busca de "algo", vi que se passava no Pará e me interessei (quero muito conhecer Belém), mas para mim o filme não compensou. Não tinha enredo, as cenas eram clichês, senti zero empatia com as personagens. Só a ambientação no Pará (lugares bonitos, trilha tecnobrega) se salvou. Isso tudo no meu olhar de leiga, claro. Para cineastas e especialistas, talvez o filme seja genial do caralho, para mim foi mais "PQP, quero meu dinheiro e meu tempo de volta". Mas pelo menos foi melhor do que ficar no JK ouvindo barulho de serra elétrica e vizinhos transando.

Quinta-feira passada, depois da oficina, fui para o shopping Bourbon, que fica perto da PUCRS, onde as aulas acontecem, encontrar a Carol, porque ela tinha que comprar umas coisas lá. Depois fomos para a casa dela, que fica perto do shopping, para conversar e jantar. Ela mora no décimo andar e tem uma vista incrível.


Conversamos e rimos muito das coisas que nos acontecem, de coisas que acontecem com os outros, e depois jantamos o que ela considera um prato "bem gaúcho": massa, galeto e polenta frita (e uma saladinha para disfarçar toda a gordice fora dos parênteses). Tudo estava bom e comi demais.

Esse cenário na casa da Carol é demais! Paredes forradas de pôsteres de filmes antigos e essa luminária. Tem também uns lustres que combinam com a decoração.



Por fim, sexta passada fui para Maquiné, que fica a umas duas horas de Porto Alegre, com a Aly. Já tínhamos combinado isso há mais ou menos três semanas, a pousada já estava reservada, então não dava para desistir por causa do tempo (estava chovendo e frrrrio). Saímos de manhã e fomos até Torres, que fica depois de Maquiné, porque só poderíamos entrar na pousada às 17h.

Não deu para ver muita coisa em Torres porque estava chovendo. "Tu só vai tirar foto de dentro do carro, né?", "Na verdade, quero sair um pouco para tirar umas fotos..." E saí. Porque não sei quando e se vou voltar lá e também porque preciso registrar tudo em fotos para me lembrar depois, já que não estou conseguindo atualizar meu diário de papel.



Essas duas fotos são do parque da Guarita:



Abaixo, o rio Mampituba, que funciona como uma divisa natural de Santa Catarina. Do outro lado já é Santa Catarina (Passo de Torres). Há uma ponte para pedestres e outra para carros que interliga as cidades.

A gente almoçou num restaurante em frente a esse rio. Estava chovendo, mesmo assim ficamos ali um tempo tirando fotos. A Aly também é meio #aloucadasfotos... hahaha.



Depois dessas fotos voltamos para Maquiné. Nos perdemos um pouco na estrada de terra e chegamos pouco antes de anoitecer.

Ao passar pelo caminho aberto na mata para chegarmos na nossa cabana, tive a sensação de estar na ilha do filme As filhas do botânico (Les filles du botaniste). Estranho e familiar. No fim, não tinha botânico, mas o dono da pousada, Marcelo Tcheli, também tem outra atividade inusitada, é bonequeiro (constrói e apresenta peças de teatro de bonecos - adoro!; às vezes viaja o mundo com a esposa para fazer apresentações) e tem histórias ótimas.

Esse é o Tcheli, dono da pousada Recanto da Mata. É ele que planeja, constrói e cuida de tudo na propriedade. Incrível, não tenho palavras para descrevê-lo, mas ele mudou minha perspectiva sobre vida e trabalho.



Chegando à ilha de As filhas do botânico... :)



Cabana/ chalé (apesar desse solzinho, que durou meia hora, estava chovendo):







Uma das cozinhas coletivas:




Sanitário compostável:




Serragem para jogar depois de usar o sanitário :)



Pia ao ar livre:


Depois que chegamos, o Tcheli explicou como as coisas funcionavam na pousada, fez fogueira para esquentar a água do chuveiro (!!), que fica fora do chalé - parece que tem outros chalés com banheiro interno -, o que me impressionou muito. Tomamos banho, que estava quente e bom, e depois fui preparar o jantar, um risoto de shiitake (fomos comprar os ingredientes no Mercado alguns dias antes, achei shiitake fresco, fiquei contente). Jantamos e logo fomos dormir porque estava muito frio e o dia tinha sido um pouco cansativo.

O melhor "quarto" da cabana! A Aly insistiu para eu ficasse com ele.





No verão dá para entrar nesse rio. Mais para cima tem uma cachoeira, que não fomos ver porque estava chovendo e muito frio! Queria voltar no verão.




Vista da varanda da casa do Tcheli, onde tinha sinal de celular e wi-fi:



Paisagens rurais de Maquiné que me fizeram pensar na série Dark. Fotos tiradas de dentro do carro na volta para Porto Alegre:






Essa viagem para Maquiné foi muito especial e serei eternamente grata à Aly. Me lembrei de várias coisas, de quando era criança e ia para o sítio do meu pai e do meu tio, senti a mesma vibe, porque precisávamos nos preparar (levar comida, organizar malas, cobertores, travesseiros...), adorei a cabana porque sempre quis ter uma casa na árvore e nunca tive; meu pai ia adorar o Tcheli e conversar com ele sobre as construções e invenções (ele nos mostrou um liquidificador movido a manivela adaptada de um eixo de bicicleta!, o que achei genial, porque não depende de eletricidade!), as galinhas, a paisagem rural. 

As conversas com a Aly também foram ótimas. Falei que estava meio perdida profissionalmente, acho que gosto de uma coisa (trabalhar com livros) que não é compatível com o mundo real ou está cada vez menos compatível, sei lá... ela disse que eu tinha que pensar em coisas que me faziam vibrar, aí lembrei que um dia quis muito fazer jornalismo, depois de Tradução, para trabalhar na revista Os caminhos da Terra, que nem existe mais. Ficava imaginando as viagens para lugares distantes, as paisagens que ia ver, as pessoas que ia conhecer e em todos os livros que teria de ler para escrever uma boa matéria, contando a história do lugar e ao mesmo tempo falando sobre a vida contemporânea de um jeito vivo e que tocasse as pessoas. Então, mesmo que elas não se dispusessem a ir aos países pobres ou em guerra ou com risco de contágio para onde eu fosse, elas se ampliariam de alguma forma com as minhas experiências. Isso me faria vibrar. Tocar, despertar e ampliar as pessoas para mundos diferentes me faria vibrar - e meu questionamento em relação à ficção é esse: até que ponto eu conseguiria tocar as pessoas com histórias de pessoas que não existem? Até que ponto isso faria diferença na vida delas? É muita pretensão desejar "que as pessoas se ampliem a partir da minha escrita"? Gosto de coisas que não são práticas nem rentáveis e não sei o que fazer com elas. 


Além disso, estão acontecendo algumas coisas na vida pessoal/ familiar que prefiro nem comentar porque não são tão boas. Estou meio orgulhosa de mim porque tenho conseguido lidar com tudo de  forma muito mais leve. Aceito mais as coisas como elas são, não faço mais drama nem sofro por coisas pequenas. Se aproximar da morte relativiza tudo; vários tipos de problemas passam a ter pouca ou nenhuma importância. Essa é uma grande lição depois do câncer: evitar desgastes emocionais desnecessários. Aceito o que não posso mudar, porque a vida está em constante movimento, tudo vai passar e depois vai ser apenas uma lembrança - para mim, nem isso se minha memória não ajudar.

Hoje à tarde vou fazer uma tatuagem de duas carpas simbolizando "ying yang", as forças opostas. Depois vou combinar com a tatuadora Thay Aoyama (@pandonautatattoo) porque também quero uma flor de lótus. E, quando chegar no meu "peso ideal", meu prêmio: a carpa grande nas costas. [Fiquei pensando e eu poderia cobrir o corpo inteiro com tatuagens de temática oriental e depois vender a pele para algum japonês maluco fazer abajur quando eu morrer...]

Fiquem com essa imagem do entardecer visto do "meu" terraço e lembrem-se de tentar viver intensamente entre um compromisso e outro. É só o que desejo para vocês e para mim também!

Abraços e luz,

Aline Naomi