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sábado, 17 de março de 2007

Love Letter - Shunji Iwai

Assisti a esse filme ontem à noite/de madrugada. O filme não tem título em português porque não chegou aqui ainda (e talvez nem seja lançado). Esse filme é japonês e veio no pacote de DVDs que importei da Coréia... filme japonês, lançado na Coréia e cujo DVD foi comprado por uma garota brasileira, descendente de japoneses (de fato, estamos num mundo globalizado!).

O filme é de 1995, do diretor Shunji Iwai, que eu ainda não conhecia; não sei se posso julgar o trabalho dele só por esse único filme que vi, mas adorei e vou tentar conseguir outros filmes dele. Logo que terminei de ver, fiquei com vontade de escrever uma carta ou e-mail para ele... vou procurar os contatos e escrever - eu gosto de dar feedback quando aprecio algo, acho importante os artistas e escritores saberem quem está vendo, lendo ou apreciando suas obras e por que aquilo nos toca... ou, pelo contrário, por que achamos "ruim". Tenho um pouco de problema com críticas "construtivas"... já cheguei a escrever um e-mail enorme para um "escritor" de dois romances "gay pop", criticando as "obras" dele, mas, depois, no fim das contas, deixei pra lá, reli o que eu havia escrito e percebi que aquilo provavelmente não ia mudar nada nele, não ia mudar a visão que ele tem das coisas e, mais provavelmente ainda, ele (mais do que ninguém) tem noção de que o que ele escreve é "literatura de consumo", coisas escritas só para vender mesmo, sem maiores pretensões... é que eu sempre parto do princípio de que as pessoas deveriam fazer o melhor e buscar sempre o melhor e, por outro lado, o que é desprezível, infértil, o que não acrescenta e não é capaz de provocar mudanças significativas deveria ser deixado de lado, mas "no mundo real" as coisas não funcionam dessa forma... eu é que crio essas expectativas, então azar o meu.

Voltando ao filme... é uma história bem original (pelo menos não me remeteu a nenhum outro filme nem livro):

O filme abre com uma cerimônia fúnebre, num cemitério, no meio da neve; é uma missa para Itsuki Fujii, que morrera dois anos antes, tentando escalar uma montanha. Depois da missa, a ex-noiva de Itsuki, Hiroko Watanabe, passa na casa da ex-sogra para conversar e, talvez, tentar matar um pouco a saudade que o ex-noivo ainda fazia. A ex-sogra lhe mostra o "livro do ano" (livro em que há fotos de todos os alunos e recadinhos que colegas escrevem no fim do ano) e, quando Hiroko encontra o endereço onde Itsuki morava na época do colégio, anota-o e escreve uma carta para ele. Surpreendentemente, ela recebe uma resposta, uma carta assinada por "Itsuki Fujii".

Conversando com Akiba, um amigo comum de Hiroko e Itsuki, ela lhe conta sobre as cartas e ele decide tentar desvendar o mistério. Secretamente, ele escreve uma carta em nome de Hiroko, desafiando Itsuki a provar que ele realmente existe; em resposta, Hiroko recebe uma cópia da carteira de motorista de Itsuki Fujii que, na realidade, é uma mulher; junto com a cópia, ela pede para que Hiroko não escreva mais.

Akiba convence Hiroko a ir até Otaru (cidade onde Itsuki morou e estudou) para se encontrar com a xará de seu ex-noivo. Eles pegam o avião (porque moram em Kobe) - Otaru fica bem ao norte, na ilha "de cima", Hokkaido, e Kobe fica na ilha maior (do meio), Honshu - e encontram a casa de Itsuki Fujii, mas, naquele dia, ela havia ido ao hospital tratar de uma gripe que estava acabando com ela. Como Itsuki estava demorando muito para chegar, antes de irem embora, Hiroko escreve uma carta, explicando que esteve ali, suas razões e quem fora Itsuki Fujii e deixa na caixa do correio dela (aquelas caixas de correio japonesas, vermelhas, são tão bonitinhas!). Ao ler a carta, Itsuki escreve novamente para Hiroko, contando-lhe que ela havia estudado por três anos com o Itsuki Fujii que fora seu noivo e então Itsuki passa a ser um elo de ligação entre elas.
Hiroko pede para que Itsuki conte tudo que ela lembra sobre o Itsuki que fora seu noivo, dos tempos de colégio, tudo, tudo.

Itsuki conta-lhe várias histórias, a maioria delas, desagradáveis, pois seus colegas de classe infernizavam a vida deles por eles terem o mesmo nome (diziam que haviam nascido um para o outro, faziam piadas, gracinhas), inclusive, contra a vontade deles, elegeram-nos como responsáveis pelo trabalho da biblioteca da escola (aliás, Itsuki vivia cercada de livros, pois trabalhava como bibliotecária na biblioteca municipal e também tinha muitos livros em casa). Itsuki não colaborava com ela na organização da biblioteca e tinha o costume de emprestar vários livros só para poder assinar seu nome nos cartões de empréstimo e procurava pelos livros cujos cartões estivessem vazios.

Aos poucos, Hiroko vai descobrindo histórias desconhecidas de quando Itsuki era garoto e, de certa forma, mais tarde, isso a ajuda a superar sua morte e a falta que ele lhe fazia.

Quando Hiroko envia uma câmera polaroid para Itsuki tirar fotos de uma pista onde Itsuki corria (na carta anterior, Itsuki havia contado a ela sobre isso: Itsuki gostava de correr), ela aproveita e vai visitar o antigo colégio onde estudaram, que (parece) era bem próximo da pista de corrida. No colégio, ela reencontra uma antiga professora e, quando Istuki conta que é bibliotecária, ela a conduz para a biblioteca do colégio, onde algumas alunas estavam reorganizando os livros. Quando a professora apresenta Itsuki para as meninas, elas riem e explicam que encontraram seu nome (Itsuko Fujii) em vários cartões de empréstimos de livros e que elas haviam inventado um jogo: quem encontrasse o maior número de livros com cartões assinados por ela, ganhava. Itsuko explica que não era ela e que, na verdade, havia um garoto com o mesmo nome na sala dela. As meninas comentam coisas do tipo: "Que romântico! Ele escreveu seu nome tantas vezes!!", enquanto ela tenta explicar, em vão, que não é nada daquilo.

É interessante o modo como Itsuki passou a ter paixão por escrever para Hiroko - muitas vezes ela aparece à noite, datilografando a carta ou mesmo no trabalho, terminando de digitar uma carta no computador, enquanto alguma colega pede a sua ajuda, então ela responde: "Só um minuto, já estou terminando". Na penúltima carta, Itsuki conta que, um pouco depois de o pai dela ter morrido de pneumonia (e por isso ela não estava indo ao colégio), Itsuki apareceu na casa dela para entregar um livro; ele disse que havia esquecido de devolver o livro e pediu para que ela fizesse isso por ele... o livro se chamava "Lembrança de coisas perdidas". Ela não entendeu por que ele mesmo não devolvia o livro, mas ele desconversou. Quando ela voltou ao colégio (alguns dias depois), um colega contou que Itsuki havia se transferido de colégio e, sobre a mesa dele, havia flores num vaso... em meio ao burburinho antes do início da aula, ela foi até a mesa que era dele, pegou o vaso, jogou-o no chão e saiu da sala (eu não entendi o significado dessa cena). Então, a última vez em que Itsuki o vira foi quando Itsuki fora entregar o livro para ela.

Quando Itsuki quase morre - por ter negligenciado a gripe, ela fica com uma febre de 41,8º e seu avô a leva, correndo, para o hospital - há uma interrupção na escrita das cartas, mas, algum tempo depois, as estudantes encarregadas de tomar conta da biblioteca do colégio vão até a casa dela para mostrar algo que encontraram: era o livro "Lembranças de coisas perdidas". As meninas disseram para ela olhar o verso do cartão de empréstimo e, quando ela vira o cartão, se surpreende com o desenho que Itsuki havia feito dela na época... então ela fica sabendo que o que o que Hiroko já havia insinuado em algumas cartas e que as meninas também haviam insinuado no colégio ("ele escreveu SEU nome tantas vezes...") é verdade: Itsuki a amava, mas era tímido demais para declarar seu amor.

Itsuki envia o livro (ou apenas o cartão com o desenho que Itsuki fez dela) para Hiroko, mesmo sendo uma situação embaraçosa. E o filme termina assim.

Perfeito!

O encadeamento da história é muito bom. Não há nenhuma parte em que o espectador pensa: "de onde surgiu essa situação?", "de onde surgiu esse personagem?", "por que está acontecendo isso?", etc.

Cinema asiático é o mais legal mesmo! O modo como as coisas são retratadas é perfeito. Eu amei o filme porque me fez pensar em como algumas pessoas nunca vão se dar conta do quanto eram especiais para nós ou nunca vão ter a oportunidade de saber disso... ou talvez só saibam disso quando já não houver mais nada a ser feito. Engraçado que comentei isso ontem mesmo com o Waldi... ando trocando "confidências adolescentes" com ele e ele disse que estou apaixonada... hahahaha. Mesmo se eu estiver apaixonada, bom, é mais uma merda de paixão platônica que não serve para nada - coisa típica minha. Sou do tipo difícil de demonstrar sentimentos, não sou do tipo que se declara. Inclusive hoje sonhei com a tal pessoa e ela dizia que queria ficar comigo e o que eu fiz? Nada. Só fiquei olhando para ela, sem falar nada (que provavelmente é o que eu faria na vida real mesmo - sem comentários!!!).

O filme também me fez pensar sobre "reconstrução". Como as pessoas ficam na nossa lembrança, como e por que nos lembramos delas e como as reconstruimos para nós mesmos e para os outros.


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