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terça-feira, 6 de março de 2007

A morte é um hiato

No sábado fui à missa de sétimo dia do meu primo Yukio, que aconteceu numa igreja católica em Pinda, onde ele morava antes de ir para o Japão. No domingo, aconteceu uma cerimônia na Seicho-No-Ie e o enterro simbólico das cinzas. Ele estava no Japão e não sei exatamente se o processo para trazer o corpo era complicado demais ou se o corpo tinha mesmo de ser cremado lá, mas minha prima (irmã dele) e a esposa dele, que estavam também no Japão, trouxeram as cinzas.

Doeu muito essa morte repentina (parece que ele teve um infarto fulminante, igual aconteceu com meu tio, pai dele, há um ano e meio mais ou menos), doeu muito ver minha tia e minhas primas naquele estado de dor profunda e desamparo, chorei muito, e não consegui dizer nada a elas, só as abracei. Uma amiga, a Mary, que me disse isso uma vez, que não era preciso dizer nada, bastaria ir lá e dar um abraço... e provavelmente a pessoa saberia o que eu estava sentindo e que ela poderia contar comigo.

Por mais que, racionalmente, eu saiba que a morte é algo natural, uma passagem, uma viagem rumo à evolução espiritual, é muito difícil aceitar que alguém possar ir, assim, de uma hora para outra, sem realizar muitos dos seus planos, sem ter dito tudo que queria, sem ter feito tudo que queria. É difícil acreditar que muitas pessoas que amamos podem partir sem aviso, de um dia para o outro.

Eu queria ser uma semi-deusa, assim, nenhuma das pessoas que eu amo tanto morreria. Seriam todas imortais, porque sim, porque eu as amo, quero que fiquem sempre por perto e porque sou mesmo egoísta (quero que elas fiquem por perto porque eu as amo e, estando perto de mim, eu também vou ficar bem).

Para que a nossa própria morte não seja uma surpresa surpresísima, acho que é preciso dizer sempre o que se pensa, o que se sente, para que quando a gente se for, repentinamente, não fique com essa sensação de hiato. Apesar de não me considerar uma pessoa "amorosa", tenho dito mais "eu te adoro", "você foi/é/sempre vai ser importante pra mim por causa disso, disso e disso e eu nunca vou me esquecer de você e nem do que você me ensinou", "te admiro por tal coisa"... e também gostaria de dizer "não morre nunca, tá?", igual o Kevin Arnold, da série "Anos Incríveis", disse/pediu pro pai dele um dia.

Eu me sinto mal quando penso na morte das pessoas que amo, mas não me sinto mal quando penso na minha própria morte. Aliás, tenho até curiosidade pra saber o que acontece depois. Será mesmo que vemos um túnel de luz? Será que as pessoas que já estão lá vêm me dar a mão pra eu não me sentir tão desamparada? Quanto tempo demora a passagem entre os mundos? Quantos passoa temos que dar? A gente vai morar em "nuvens" até nascer de novo? Será que a gente nasce de novo mesmo?

Uma amiga espírita, a Aline, disse uma vez que a gente sempre nasce num ambiente "amigo", de pessoas da nossa própria família ou pessoas com quem temos laços de sentimentos profundos. É reconfortante pensar assim, que a gente sempre volta para casa. Então, a qualquer hora, pode ser que o Yukio renasça entre nós ou venha até nós de outra forma e, mesmo se não for assim, é provável que todos nos reencontremos onde ele está em breve. O duro é que a nossa compreensão das leis da vida e da morte é muito limitada ainda, por isso, agora, sofremos.

É preciso aceitar que todos temos o próprio caminho a seguir e isso ninguém pode fazer por nós. Caminhando, a gente erra, aprende, erra, aprende, e vai evoluindo, evoluindo, evoluindo... até virarmos anjos no céu de Berlim?? :)

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