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sábado, 5 de maio de 2007

Como um romance - Daniel Pennac

Acabei de ler o livro "Como um romance", do escritor francês Daniel Pennac, e me deu vontade de escrever sobre ele.

O escritor, que também é romancista e professor, conta sobre sua experiência como "formador de leitores" e como conseguiu despertar nos alunos o gosto pela leitura, livros e autores. De certa forma, acho que pais, professores de matérias do tipo "literatura e expressão" deveriam, mais que outros, ler esse livro. Na contra-capa há um excerto do que é melhor desenvolvido no fim do livro:

DIREITOS IMPRESCRITÍVEIS DO LEITOR

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas.
3. O direito de não terminar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de reler.
6. O direito ao bovarismo* (doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler em qualquer lugar.
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de calar.

*
bovarismo: tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que não possuem, passando a agir como se as possuíssem. (do dicionário Houaiss) Eu não deveria escrever o significado das palavras aqui, porque, como minha amiga xará, penso que as pessoas, por si mesmas, deveriam ir ao dicionário quando não entendem alguma palavra, mas, como o sentido desta palavra não estava muito claro para mim, procurei e resolvi colocar aqui. Da próxima vez, não tem boi! ;-)

Gostei muito do Pennac, do jeito não-pretensioso como escreve, de como ele deixa transparecer o amor pelos livros e, ao mesmo tempo, não julga mal e nem acha absuda a idéia de que haja pessoas no mundo que não lêem (mesmo que saibam ler, mesmo que tenham condições de todo o tipo para fazer isso). Acho que não tenho preconceito contra quem não lê, mas quem o faz, é sempre mais interessante e tem o que dizer, o que me acrescentar. Quem só vê a Globo... bom... me provoca um certo tédio porque os assuntos são sempre os mesmos e, de certa forma, quem não tem o que dizer, sempre acaba falando (mal) da vida dos outros, inclusive de artistas (ou pseudo-artistas) que nunca conheceram e provavelmente nunca vão conhecer (e eu não tenho muita paciência com essas coisas).

O Pennac fala, entre outras coisas, de algo com que me identifiquei bastante: que lemos o que as pessoas de quem gostamos nos indicam e, enquanto lemos, buscamos a pessoa no livro que ela indicou. (E isso acontece também com os filmes... leio e também VEJO muitas indicações de amigos e, quando leio os livros ou vejo os filmes, é como se estivesse dialogando com eles... como se, a partir daquele momento, estivéssemos compartilhando uma vivência em comum, o que faz com que eu me sinta mais próxima deles. É, meus caros, a arte tem dessas coisas.)

Sobre a "falta de tempo" para ler, destaco essa passagem:

"O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Tanto como o tempo para escrever, aliás, ou o tempo para amar.)
Roubado a quê?
Digamos, à obrigação de viver.
É sem dúvida por essa razão que se encontra no metrô - símbolo refletido da dita obrigação - a maior biblioteca do mundo.
O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
Se tivéssemos que olhar o amor do ponto de vista de nosso tempo disponível, quem se arriscaria? Quem é que tem tempo para se enamorar? E no entanto, alguém já viu um enamorado que não tenha tempo para amar?
Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse.
A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser." (PENNAC, Daniel. Como um Romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 118-9)

***

São legais as discussões acerca da leitura. Eu sempre gostei delas.

Uma dessas discussões foi levantada por um amigo e colega de sala do curso de tradução, o João, numa aula de prática de tradução de italiano. Acho que o assunto não tinha muito a ver com o que estávamos discutindo, mas gostei do que ele colocou em sala; disse algo do tipo: "O gosto pela leitura é individual. Tenho (não lembro quantos?) irmãos, e só eu eu tal irmã gostamos de ler, sendo que tivemos a mesma educação e as mesmas condições de termos desenvolvido o gosto pela leitura". Aliás, o Pennac fala sobre isso também, quando ele desenvolve o direito número 1 do leitor: "O direito de não ler".

Eu mesma não sei dizer como é que fui dar em uma leitora curiosa, sendo que meus pais não ligam muito para isso. Eles lêem coisas (supostamente) úteis, como jornais e revistas, mas nunca os vi com um livro de literatura nas mãos e, mesmo assim, sem estímulo, me apaixonei pelo mundo ficcional.

O primeiro livro que lembro ter lido sozinha foi um indicado pela escola, na primeira série: "O medo da sementinha", do Rubem Alves. Apesar de ter sido cobrada por isso (imaginem o absurdo - Pennac ficaria horrorizado -, crianças de 6/7 anos tendo que responder a uma prova dissertativa com várias questões de compreensão de texto), gostei muito da sensação de conseguir ler as letras sozinha. E não parei mais.

Depois, na pré-adolescência, eu lia muito os livros da série "Vaga-Lume", da editora Ática (eu queria ler todos, mas acho que não cheguei a ler nem metade) e similares... tinha uma coleção de livros da editora Veredas e outra da editora Melhoramentos que se assemelhavam ao estilo da série "Vaga-Lume" também. O primeiro livro da série "Vaga-Lume" que li foi indicado por uma prima que também era alucinada por livros, a Mayumi: "O escaravelho do diabo", da Lúcia Machado de Almeida, quando eu tinha 10 anos. Pelo que lembro, foi o primeiro livro "sem figuras" que li. De primeiro, achei difícil e minha mãe teve que ler para depois me explicar. Ela fez o sacrifício e, quando reli, a leitura já foi bem mais digerível e pude escrever o raio da "ficha de leitura" que a professora pediu (na quarta série, a professora deixava a gente ler o que quisesse, contanto que apresentássemos a ficha de leitura depois). E tomei gosto pelos livros "sem figuras". Muitos livros que eu lia nessa fase eram livros de "aventura", mas nem por isso eram "banais", no sentido de ser só entretenimento. Não, traziam reflexões como a diferença entre classes sociais, amor e respeito pela natureza/animais, entre outros temas que agora não lembro, além de suscitar a curiosidade em saber mais, em querer ir além. Se "Harry Potter" tivesse sido lançado quando eu tinha entre 10 e 12 anos, eu teria curtido! ;-) Hoje em dia, "Harry Potter" para mim é sinônimo de "mercantilização da literatura infanto-juvenil" e não me acrescenta nada. Hoje tenho sede de outras coisas.

Com uns 14 anos, li "A paixão segundo G.H.", da Clarice Lispector e isso foi um marco na minha vida. A literatura era mais que livros de aventura (!), afinal. Me identifiquei na hora com a escrita da Clarice. Aliás, estou para reler esse livro; quero ver minha reação diante do livro que "mudou a minha vida". Sou fã de Clarice. Para mim, é a melhor escritora em língua portuguesa que existe.

Atualmente, tenho lido menos do que gostaria. Mas minhas leituras estão se concentrando em indicações de amigos (tão queridos!!) e em motivações próprias. Por motivação própria, tenho procurado ler livros de literatura japonesa, com que me identifiquei. Não sei se por eu ser descendente ou porque eu ia gostar de qualquer jeito.

***

Hoje não fiz nada além de ler e dormir. Não trabalhei (e tenho muito a fazer!) e também não estudei (uma prova de microbiologia me aguarda na segunda). Um dia dedicado ao ócio. Eu precisava me mimar um pouco. Depois vem o desespero, mas, por enquanto, não quero pensar nisso.

8 comentários:

Andressa disse...

Adorei seu relato sobre o que achou sobre esse livro. É engraçado pois li Como um romance por uma obrigação escolar.xD Agora no ensino médio estou em uma escola completamente diferente, aonde presa-se o diálogo, as críticas construtivas, e foi lá que minha professora de língua portuguesa "pediu" para que lêssemos Como um romance.
Fiz um esforço enorme para ler o livro, afinal era uma obrigação e tudo que nos é imposto se torna chato (estudar, trabalhar, etc). Mas gostei do livro além de tudo isso. Já começa com a frase de que "O verbo ler não suporta o imperativo". Esse livro vale muito a pena ler(para quem gosta e também para quem não gosta de ler).

Não sei com que idade exata comecei a ter o gosto pela leitura. Se leio um livro fico tão intrigada que não quero parar de ler (e as vezes realmente não paro). Quando era pequena adorava ouvir livros por meus pais mas meu pai sempre estava cansado e dificilmente lia para mim. Minha mãe dizia que não era para eu me chatear porque um dia saberia e poderia ler sozinha o que eu quisesse.

Ultimamente acho que tenho lido pouco, não sei se por ter que estudar muito e ter que ler não por o que me interesso e sim por o que tenho que ler.
Enfim, agora tenho que ir pois uma redação para amanhã de 30 até 40 linhas me espera...Não que não goste de fazer redações mas da trabalho. Bem, é isso. Beijos, Tchau...=)

aline naomi disse...

Oi, Andressa!
Obrigada pelo longo comentário (adoro!)! :) E bom saber que gosta de ler...
Eu adorei esse livro do Pennac!

PHaustUS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PHaustUS disse...

Parabéns pelo relato!!!
Ainda não li Como um Romance. Fiquei curioso em lê-lo depois que a minha professora de redação (por falar em redação... Parabéns[2]!!!rs) comentou-o na sala de aula. Sou um apaixonado por livros e esse será mais um da minha lista de futuras leituras.
Um gde abraço!!!!

Larissa O. disse...

Experimente tb o gosto de guimarães rosa, caso ainda não tenha lido nada dele....eu acho, se não um dos, o melhor escritor brasileiro.
Bjo

aline naomi disse...

Ei, Lari!
Já li os contos de "Primeiras Estórias" do Guimarães, mas sou doida pra ler "Grande Sertão: Veredas" também. Ai, tanta coisa boa no mundo pra ler... quero viver muito pra ler tudo que quero! :)
Beeijo

tensrazao disse...

Puxa, a série vaga-lume era o pipoco mesmo! Se não fosse este post, jamais me lembraria que estes foram uns dos primórdios da minha leitura!

Gostei bastante do seu post, achei graças ao "Como um romance", já que eu não conheço ninguém que leu, pesquisava por uma segunda opinião não essencialmente crítica (literária).

E concordo plenamente contigo, quase sempre que alguém indica algo para nós, atribuímos aquilo àquela pessoa. Acho que isso ocorre nos blogs também... Meio que por um lance de empatia, vai lendo, entende a pessoa, se identifica (ou não) com essa ou aquela opinião e acaba sentido-se mais próximo a ela.

Bacana mesmo, ganhou um leitor.
Cuide-se, inté.

aline naomi disse...

tensarazao,

obrigada pelo comentário!