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quinta-feira, 17 de maio de 2007

A escola com que sempre sonhei... - Rubem Alves

Terminei de ler ontem de madrugada (hoje) "A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir", do Rubem Alves, que o amigo Gustavo indicou.

Me apaixonei pela Escola da Ponte, que fica em Vila Nova de Famalicão, uma cidade no distrito de Braga, no norte de Portugal.

Bom, o livro contém, entre outros escritos, cinco crônicas que o Rubem Alves (ele é ótimo!! adoro seu estilo) escreveu e que foram publicadas no jornal Correio Popular de Campinas, em meados de 2000, quando ele estava em Portugal para conhecer a Escola da Ponte e mais outros projetos de ensino.

O incrível é que as idéias desse livro se casam com as idéias do livro do Pennac, "Como um romance", que li há algum tempo. O ponto comum entre eles é a "liberdade do aprendizado". O foco do Pennac é a leitura, enquanto o livro do Rubem Alves (na verdade, há textos de outras pessoas também) fala sobre a liberdade de aprendizado em geral, o direito de aprender sobre o que se quer, cada um no seu ritmo.

O Rubem Alves faz uma analogia entre a linha de montagem das fábricas/indústrias e o modelo de escolas que conhecemos: tanto uma quanto outra limitam as pessoas; tanto os alunos quanto os operários não entendem bem a finalidade do que estão fazendo (não conseguem ver o objetivo) e são treinados para fazer (e ser) sempre o mesmo, a não questionar, a seguir sempre um determinado roteiro, o mesmo roteiro ensinado. Então, a escola seria um tipo de "adestramento" para que todos se comportem mais ou menos da mesma forma e busquem sempre o modelo de "sucesso" imposto pela sociedade, independente das necessidades individuais, que, muitas vezes acabam sendo anuladas.

Tem uma parte em que o Rubem Alves escreve: "Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as crianças têm dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas o ensinado não vai colado à vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. Alguns me contestarão dizendo: 'Mas o meu filho adora a escola!' Pergunto: Ele adora a escola por aquilo que está aprendendo ou por outras razões? Confesso não saber de um aluno que tenha prazer em conversar com os pais sobre aquilo que está aprendendo na escola. Explica também a indisciplina. Por que haveria uma criança de disciplinar-se, se aquilo que ela tem de aprender não é aquilo que o seu corpo deseja saber?" (páginas 48 e 49). E eu pergunto: por que às vezes uma criança entende tudo de anime, desenhos, futebol, cantores preferidos ou de algum assunto específico e às vezes não consegue entender as matérias da escola? Porque o conhecimento/aprendizado também envolve prazer. As crianças/as pessoas têm de sentir prazer com o que estão aprendendo e saber para que aquilo vai ser útil na vida delas, de outra forma, o aprendizado não se concretiza como deveria e, então, todo o esforço é meio inútil, porque todos vamos esquecer das coisas que "aprendemos", mas que não nos desperta um real interesse.

A Escola da Ponte existe há cerca de 25 anos e é uma escola inclusiva, com crianças de várias idades e algumas são portadoras de necessidades especiais (têm Síndrome de Down). As crianças não são divididas em classe e os professores não são "os donos da verdade", apenas colaboram com o processo de aprendizagem. As crianças devem pesquisar por si mesmas assuntos de seu interesse e o prazo para pesquisa é de 15 dias, quando (acho) apresentam a pesquisa para o professor e, depois disso, novos grupos são formados voluntariamente (por afetividade e não por idade ou "nível de conhecimento") para pesquisarem um assunto de interesse comum. A escola só oferece o ciclo básico (não sei se isso equivale exatamente ao nosso "Ensino Básico" de quatro anos - em geral, dos 7 aos 10 anos) e tem cerca de 160 alunos. É uma escola-modelo em Portugal.

Ah, antes que eu me esqueça, o Rubem Alves escreve que ficou muito feliz e orgulhoso quando se tornou "professor universitário", mas viu que não era tudo aquilo que ele pensava, porque os alunos já vinham "formatados", diferente do trabalho com crianças, porque, para elas, tudo é novidade. É por isso que eu tenho vontade de conviver com as crianças... elas conseguem ver coisas que eu já não consigo!

A seguir, trechos de uma entrevista concedida pelo professor José Pacheco, em nome da Escola da Ponte, ao portal brasileiro Educacional, conduzida por Vitor Casimiro. Gostei desses trechos porque falam um pouco da essência do trabalho da Escola da Ponte.

"[...] não passa de um grave equívoco a idéia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo. [...]" (página 98)

"Na Escola da Ponte, como em outros lugares, é indispensável alterar a organização e interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados. Apesar dos progressos verificados no nível da teoria (e até mesmo contra eles), subsiste uma realidade que as exceções não conseguem escamotear: no domínio das práticas, o nosso século corre o risco de se completar sem ter conseguido concretizar sequer as propostas do fim do século que o precedeu." (página 99)

"Sem deixar de 'dar o programa', nós vamos além do aprender a ler, escrever e contar, porque educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, é ajudar as crianças a entenderem o mundo e a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo da escolarização." (página 105)

Esse livro é uma experiência de vida. Todos os educadores e principalmente professores do Ensinio Básico deveriam ler para ter uma visão um pouco mais ampla do que é o processo de aprendizagem. Vou mandar de presente pra Dayse porque talvez o livro faça diferença na vida dela, dentro do que ela está vivendo hoje.

Uma vez, logo que me formei, fui dar aula em uma escola de idiomas "popular" - era um projeto sócio-educativo e eu queria participar. Os alunos pagavam bem pouco pela mensalidade, a escola não tinha muitos recursos, o salário era ridículo, mas, mesmo assim, eu achei que poderia ajudar e, de quebra, aprender muito também, mas acabei desistindo. Tenho uma certa vergonha de dizer isso, mas é a verdade: eu desisti por não acreditar mais no projeto, pelo cansaço, pela falta de recursos, pela falta de paciência, pelo desânimo.

Nessa escola, a turma mais heterogênea (inclusiva?) que tive foi uma que tinha mais ou menos 20 alunos (o que é muita gente para um curso de idiomas), o menino mais novo tinha 8 ou 9 anos e a senhora mais velha, uns 60. Havia também um casal de namorados/noivos, sendo que o namorado tinha problema visual (ele disse que não tinha nascido cego, mas foi perdendo a visão com o tempo - na época, ele tinha só uns 10% de visão); na prova, tive que sentar ao lado dele e ler os exercícios bem baixinho e anotar as respostas para ele (que tirou uma nota muito alta, aliás, entre 9 e 10). Eu tinha muita dificuldade para lidar com essa turma, por vários motivos: havia muitos "turistas", havia crianças e adultos, havia pessoas que não tinham interesse, eu sentia que não conseguia dar a devida atenção para todos e, conseqüentemente, nem todos conseguiam aprender tão bem quanto poderiam (?) (ou seja, eu não estava conseguindo fazer muito bem o que havia me proposto a fazer). Nessa escola havia também problemas como: falta de material - na maioria das vezes, eu tirava xerox do meu próprio bolso e, depois de um tempo, como não havia rádio disponível para todos os professores em determinados horários, passei a levar o meu próprio rádio pra sala de aula; havia falta de pincel para lousa e papel (folha de sulfite) para os alunos. Nessa época, eu estava entusiasmada, porque o ensino para mim era algo novo; o que eu fazia eram experimentalismos: inventava atividades com jogos, massinha, desenho, atividades que os "obrigassem" a se expressar em inglês... enfim, elaborava o tipo de aula que eu gostaria de ter. Depois de um tempo, desanimei. Pedi pra sair de lá e continuei dando aula em outras escolas e fiquei nisso por uns dois anos, até sentir que não dava mais, eu não estava muito bem e resolvi me dedicar só à tradução (eu precisava de um trabalho solitário). Mas eu faço planos de voltar a dar aula em algum trabalho voluntário (de inglês ou português) para crianças e adultos. Quero muito participar de algum projeto de alfabetização de adultos - deve ser uma experiência maravilhosa - porque ninguém está ali por estar, todos têm motivos para querer aprender a ler e a escrever. Deve ser incrível a sensação de fazer com que as pessoas vejam o mundo de forma um pouco mais ampla. Ajudar as pessoas a sair das cavernas para um mundo com mil possibilidades, perceber que elas lêem um livro e entendem o que estão lendo, saber que o conhecimento da leitura e da escrita vai ter um reflexo positivo na vida delas. Mas teria que ser algum projeto diferente das escolas de idiomas, em que todos precisam aprender em um tempo determinado, em que às vezes é preciso correr com a matéria para cumprir o cronograma estabelecid, mesmo quando a maioria dos alunos não consegue absorver tantas informações tão rápido.

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