Pages

domingo, 3 de junho de 2007

Mentiras - Jang Sun Woo

Intercalei a sessão cinema de ontem/hoje com filmes "pesados" e filmes "leves" e acabei terminando com esse, "Mentiras", um "pesado", mas o melhor.

"Mentiras" ("Lies") é um filme coreano, de 1999, meio difícil de encontrar. Achei a fita VHS (é, eu ainda tenho video cassete para o caso de não encontrar DVDs dos filmes que eu quero ver) no Mercado Livre. Aliás, os três filmes que tenho em VHS são filmes meio "polêmicos": "Tókio em decadência", "Uma relação pornográfica" e agora esse.

Na capa tem um recadinho assim (acho que para chamar a atenção dos possíveis espectadores): "contém cenas fortes de sexo - proibido para menores", mas não, não foi por isso que eu quis ver esse filme :).

Antes de assistir, eu havia lido críticas boas e ruins. Lembro de ter lido uma crítica em um site de cinema em que a pessoa escreveu que era bobagem pura, só um monte de cenas de sexo despropositadas. Outros já diziam que haviam gostado por um motivo ou outro. Eu me nego a acreditar que filmes (supostamente de "arte") tenham cenas gratuitas de sexo...

Daí fui conferir por mim mesma. Tem umas cenas que não entendi: no começo, aparece o diretor falando um pouco sobre a filmagem. Depois, tem a protagonista falando sobre o papel dela (isso no meio do filme). Mais adiante, quando Y (a protagonista é identificada só por essa letra) confessa à Woori, sua melhora amiga, que transou com seu namorado escultor, a segunda começa a bater nela, ambas choram, Y cai no chão, Woori lhe dá uns chutes e, então, o diretor diz "Corta!" e vê-se claramente que é um filme. Eu não sei qual o significado disso, de se mostrar ao espectador, que o que ele vê é "apenas" um filme. Eu achei que isso quebrou um pouco a narrativa, porque quando vemos um filme, queremos "entrar" dentro dele. Não sei se

Mas, começando do começo, a jovem Y vai ao encontro de J (o escultor também só é identificado pela letra), que é 20 anos mais velho que ela, para perder a virgindade. Antes, eles haviam conversado coisas picantes por telefone e, então, ela resolve ir ao encontro dele, mesmo sabendo que sua melhor amiga, a Woori, tinha planos com ele. Ela lhe concede os três buracos (xana, boca e ânus) e depois conversam, na cama. Ela lhe conta que a decisão dela tivera a ver com a história das irmãs. Uma havia se suicidado, um ano depois de ter sido estuprada, pois não conseguia conviver com o trauma. A outra também havia sido estuprada por um cara no boliche onde ela trabalhava e, ironicamente, casou-se com ele e vieram para o Brasil. Vendo a história das irmãs, ela diz que não queria ser estuprada antes de fazer 20 anos (ela tem 18), que queria escolher o parceiro. E conta as histórias com uma indiferença impressionante, como se estivesse falando de qualquer pessoa e não das irmãs e de si mesma.

No segundo encontro, J começa com suas "brincadeiras" sádicas (bater em Y com uma vara, sendo que ela lhe permite isso). Nos encontros seguintes, sempra há surras; J considera as varadas como parte das preliminares e se excita muito com isso. Em um determinado encontro, Y chora, é uma das únicas vezes em que ela demonstra emoção. Não sabe por que está chorando e, querendo consolá-la, J diz que podem inverter os papéis e fala para ela lhe dar varadas. As cenas são punk, depois mostram os hematomas, as marcas nas pernas e traseiro.

J é casado com uma artista, que, segundo o narrador, se mudou para Paris, para estudar, depois que J lhe deu uma surra (concedida ou não). Ela está em Paris há dois anos e ele vai visitá-la às vezes.

Há uma cena em que ele não consegue se excitar com a esposa e pede para que ela bata nele com o cinto, ela sai da cama, começa a chorar e pergunta: "por que você é assim?". Nessa época, J e Y já passaram por vários motéis e já não fazem mais sexo sem violência.

Embora possa parecer chocante, tudo é concedido. Várias vezes, em diferentes dias, J pergunta à Y se ela sente muita dor, se ele quer que ele pare. Mas a resposta é sempre "não". Em meio às surras, a pessoa que está apanhando sempre diz "te amo, te amo, te amo...", como se quanto mais apanhassem, mais aceso o "amor" estaria.

Quando o irmão de Y incendeia a casa de J e Y sai de casa, os dois vivem só para si mesmos. Só pensam em sexo, só fazem sexo. J nem faz questão de procurar uma casa, gasta todo o dinheiro com motéis, pede empréstimos a todos os amigos. Quando Y fica sabendo que seu irmão morreu em um acidente de moto, ela diz simplesmente para J que vai voltar para casa. E ele se desespera, acho que pela primeira vez ele percebe que está no fundo do poço: "E eu??", ele pergunta. Ao que Y se cala, indiferente.

Tempos depois, Y telefona para J, que está morando com a esposa, em Paris. Ela está no aeroporto e quer vê-lo antes de viajar para o Brasil, para morar com a irmã. Ele sai correndo e os dois, pra variar, transam, mas, antes disso, ela se veste de colegial e bate nele com o cabo de uma enxada (!!!) (ela juntou duas fantasias dele - a do uniforme e a do cabo de enxada - numa só). A atuação da atriz é ótima, nesse momento, dá pra ver que ela não é mais uma "menina" (como no início do filme), é ela que está no comando da situação, é ela que exerce poder e fascínio sobre J e não o contrário.

E essa é a última vez que eles se vêem.

Eu gostei muito. Há cenas intermináveis de sexo e violência, mas eu entendi o filme como uma tentativa de desvendar o ser humano, as relações humanas, e o que pode acontecer quando as pessoas ficam obcecadas pelo prazer, quando isso passa a ser o centro da vida delas. Ao mesmo tempo, as transas com violência podem ser vistas como a metáfora da vida: uma alternância entre dores e prazeres.

Nenhum comentário: