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domingo, 8 de julho de 2007

Em nome de Deus - Peter Mullan

Esse filme passou na sexta-feira, dia 6 de julho, na TV Cultura, na "Mostra de Cinema Internacional na Cultura" (toda sexta, às 22h30, passa um filme muito bom) e eu revi. O filme já havia começado havia alguns minutos, mas como eu já tinha visto no cinema, consegui entender a história :).

É um filme de 2002, co-produzido pela Irlanda e pela Escócia, que se passa na década de 60, na Irlanda, e retrata a história de meninas que eram mandadas para instituições católicas, administradas por freiras, e conhecidas como "Magadalene Sisters" (por isso o título original do filme é esse).

"Magadalene Sisters" significa "Irmãs Madalena" e provavelmente faz referência à Maria Madalena da Bíblia (a prostituta de quem Jesus "expulsou os sete demônios" e salvou do apedrejamento: "Que atire a primeira pedra quem não tiver pecados!"). O que essas meninas e Maria Madalena têm em comum? São vítimas do preconceito da sociedade da época em que viviam. O filme mostra alguns dos motivos pelos quais a maioria das meninas é enviada por seus familiares para essas instituições: são mães solteiras e/ou têm problemas mentais e/ou são bonitas e sedutoras demais e/ou foram vítimas de estupro e, por isso, merecem pagar por seus pecados por tempo indeterminado. O que choca é que o filme é baseado em fatos reais e, segundo uma afirmação do diretor (que li em um site), os fatos mais chocantes não são mostrados no filme, ele preferiu omitir para não confundir o público quanto ao que ele pretendia mostrar.

Bom, na instituição, as meninas são torturadas física e psicologicamente. São vítimas de chacotas, ironias, humilhações, além de castigos físicos e, algumas, de abuso sexual por parte de padres. Além disso, trabalham pesado, limpando o lugar e também na lavanderia (a madre superiora recebe muito dinheiro pelo trabalho duro das meninas, que lavam roupas, lençóis, etc., para terceiros).

A religião às vezes é um refúgio ou pode se tornar uma perversão coletiva, quando a maioria das pessoas acredita que deve ser "fiscal em nome de deus" e passa a regular a vida dos outros a partir dos seus próprios princípios morais. A sociedade irlandesa da década de 60 parece ser sufocante para as mulheres. A sociedade em geral parece ser tomada por um furor religioso e, provavelmente, hipócrita (os mesmos pais que colocavam as filhas tidas como "prostitutas" nas instituições deviam, eles próprios, dormir com prostitutas e ter casos extra-conjugais e/ou cometer "pecados" muito piores que esses).

O filme foca histórias (supostamente reais) de quatro mulheres e, apesar de no final aparecer legendas do tipo: "Rose se divorciou três vezes e hoje mora sozinha", elas parecem ser personagens fictícias (segundo li num site). O diretor deve ter se baseado em vários relatos para compor as personagens, mas talvez as legendas façam parte da ficção também (aliás, isso é uma novidade para mim, eu nunca tinha parado para pensar que esse tipo de coisa existisse; para mim, esse tipo de legenda no final de filmes SEMPRE significava que as personagens foram baseadas em "pessoas reais" mesmo).

Desde a abertura das instituições das irmãs Madalena, em 1880, até 1996, quando a última foi fechada, estima-se que 30 MIL meninas tenham passado por elas (existiam várias em todo o Reino Unido - ou Europa?).

Li várias críticas de (supostos) críticos de cinema dizendo que o filme foi muito dividido entre "mocinhos" (as meninas) e "bandidos" (as freiras, a Igreja Católica, os familiares das meninas, a sociedade em geral) e, por isso, não tão bom. Realmente, não pode ser possível que TODAS as freiras dessas instituições fossem más (ou será que pode?), mas se há exageros nesse filme-denúncia, só quem passou por isso pode saber.

Eu gostei do filme porque nos dá a oportunidade de refletir sobre o papel da religião na sociedade, o que é moralmente aceito ou não dependendo da época e da sociedade, o perigo de a religião se tornar algo doentio e incontrolável e, ainda, servir como justificativa para se cometer abusos contra os outros ("ela é pecadora, merece sofrer" - se Jesus vivesse, ele provavelmente não concordaria com isso, muito pelo contrário...). Não sou religiosa, mas sou a favor de religiões que ajudem as pessoas a ser moralmente melhores (não matar, não roubar, não fazer nada que possa prejudicar intencionalmente alguém), a ter um senso de compaixão e amor pelo próximo e que ajudem a elevar o espírito (mesmo que tudo isso seja em vão - ao menos teríamos uma sociedade melhor, não?).

Vale a pena ver. A não ser que a pessoa seja católica fervorosa e que esteja sempre na defensiva e, mesmo sem ver, já julgue o filme absurdo. Para essa pessoa, a religião sempre vai ser fator limitante, infelizmente.


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