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domingo, 25 de novembro de 2007

Se eu pudesse falar qualquer coisa...

Às vezes fico imaginando o que eu falaria para Freud, se ele me deixasse falar qualquer coisa.

Hoje eu falaria mais ou menos assim:

Ontem eu vi um filme chamado "Estamira", que é sobre uma mulher que vive há uns 20 anos num lixão no Rio de Janeiro. Dizem que ela é louca, mas fala de um jeito que parece verdade. Às vezes ela até parece lúcida demais. Ela também é poeta... Esse filme me fez pensar que existe um fio tênue que divide a lucidez e a loucura. E que se a gente desliza uma vez, talvez não consiga voltar nunca mais para o que é considerado lúcido.

Estou angustiada por não ter estudado neste fim de semana. Por falta de tempo, por falta de vontade. Duas provas, uma apresentação e tarefas acumuladas do Kumon para esta semana. Amanhã, queria entrar no primeiro disco voador que passasse e que me levasse para longe dos compromissos. Não queria olhar pela janela da sala onde trabalho, ver o céu azul ou cinza ou da cor que fosse, e pensar: "estou no lugar certo? estou fazendo a coisa certa? estou investindo meu tempo em algo útil?". Lembro que a Clarice Lispector escreveu uma carta para o filho dela, quando ele estava nos Estados Unidos, trabalhando com não lembro o quê, e comentou que ter um "empreguinho" era bom para ter uns trocados... inclusive, ela, também tinha tido uns empreguinhos. Se até Clarice Lispector já teve empreguinhos...

Há coisas pelas quais a gente tem que passar. Coisas que devem ser encaradas. Ou será que não? Não sou de fugir (será?)... Muitas coisas na minha cabeça... às vezes tenho medo de cair no abismo da loucura e nunca mais voltar. Não sei se este caminho tem volta. Aline no País das Maravilhas com lagartas que fumam naguilé, gatos sorridentes, chapeleiros malucos e o diabo a quatro. Quero ser pequena o suficiente para passar pelo buraco da fechadura e grande o suficiente para ver além do horizonte.

Amanhã eu queria o mesmo que hoje: tomar sorvete de chocolate com amêndoa na sorveteria preferida. E esquecer. Esquecer. Esquecer. O engraçado é que me imponho coisas que nem sempre sou capaz de cumprir e depois me sinto mal. Me encho de coisas para fazer e me angustio.

Estou só um pouco cansada. Amanhã será uma nova história. Amanhã eu me reinvento e finjo que está tudo bem.

Por falar em esquecer... nunca pensei que eu fosse querer passar pelo mesmo que os protagonistas do filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Eu só queria esquecer. Não porque foi ruim, mas é triste saber que a pessoa por quem me apaixonei não existe mais e nunca mais vai existir... e eu não consigo conviver com isso de uma forma saudável. Esse alguém está morrendo em mim a cada conversa que temos e eu queria lembrar só do que vivemos e de como as coisas eram antes. Conversamos sobre o banal, sobre o que qualquer um poderia me dizer e sobre o que eu poderia dizer para qualquer pessoa. Me sinto uma idiota falando para o vácuo quando falo algo mais pessoal. A indiferença me mata. Não faço questão dessas coisas sem sentido. Não faço questão de falar sobre o vazio. "Oi, tudo bem?", "Tudo, e vc?", "Bem", "Que bom", "É". É. É. É. Tudo que é pode não ser. E eu nunca sei se o que vejo e sinto é "real" ou é só o ângulo pelo qual estou olhando que está torto. No fundo, estou sendo injusta e mesquinha. Coração congelado em terra tropical. Reajo conforme as falas e ações. Também quero ficar indiferente. De repente, "foda-se" mesmo. Agora que aprendi a ser mesquinha. Eu não sei o que fazer com isso que sinto. Jogar tudo na fogueira seria uma boa. Não quero mais nada. Não quero mais saber disso. Quero esvaziar meu coração. Sentir me cansa. Tudo me cansa. Mas amanhã tem mais do mesmo.

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