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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Médicos e Cabeleireiros - Dr. Alexandre Hamam

- Como está agora?
- Bem melhor.
- Precisa cuidar direitinho. Tome cuidado, ok?
- Pode deixar.
- Te vejo no mês que vem?
- Com certeza.
- Quer deixar marcado?
- Melhor não. Não quero prender seu horário. Depois eu ligo e marco com mais certeza.
- OK. Até lá!
- Até…

Este foi meu último diálogo com um profissional que vejo quase todos os meses. Felizmente, não sofro de nenhuma doença crônica que precise de acompanhamento periódico. Nem tampouco sou hipocondríaco ou faço exames regulares com receio de algum mal maior. Este foi apenas um fragmento de conversa com o profissional com quem corto o cabelo há mais de 10 anos. Saindo do salão, deixei um cheque no valor de R$ 40,00 referentes ao corte e mais 10% de gorjeta, como meu pai me ensinou: “Filho, estes profissionais ficam bem mais motivados a trabalhar, se você demonstrar satisfação”.

Chegando ao consultório me deparo com uma situação constrangedora onde uma paciente recusava-se fornecer seu cartão do plano de saúde para ser feita a cobrança junto à seguradora, pois alegava que era retorno de consulta, onde ela apenas teria vindo para mostrar os exames que eu pedira 2 meses atrás. Para contornar a situação, acabei orientando minha secretária que não fosse feita a cobrança e que atenderia a paciente assim mesmo. Afinal, poderia dar a impressão que eu estaria sendo mercenário ou que minha atitude não era digna de um médico especialista com mais de 20 anos de formado. Ao deitar para dormir à noite, algo me inquietava e afugentava o sono.

Eu pagara R$ 44,00 ao cabeleireiro e, no mesmo dia, tivera recusado pela paciente uma cobrança de R$ 34,00 referentes a uma consulta médica para avaliar alguns exames que me orientariam na conduta frente ao diagnóstico de câncer da paciente e sua possibilidade de cura. No mês seguinte, voltei ao salão para cortar o cabelo com um pouco menos de entusiasmo.

Considerando o investimento em formação técnica e profissional, proporcionalmente, se eu recebo R$ 34,00 do convênio médico por uma consulta, deveria pagar não mais do que R$ 5,00 para cortar o cabelo. Conversando com o Lúcio, o meu barbeiro, ele me disse que fizera um curso de 1 ano em escola de cabeleireiros, que vai anualmente a congressos para conhecer novas técnicas, novos produtos e se atualizar nos cortes da moda. Disse que tem que trabalhar até as 20 horas e também aos sábados. Realmente fiquei orgulhoso em saber que meu profissional é um sujeito atualizado.

Novamente a inquietude me tomou de assalto e não pude deixar de me comparar ao Lúcio. Certamente ele não tem curso superior. Nem tampouco pós-graduação. No entanto, isto não o faz uma pessoa menor. Maneja muito bem a tesoura e a máquina e dá o que o cliente quer: satisfação. Valoriza seu trabalho e investe na profissão. Voltei a pensar em mim. Ele está certo. O que motiva então esta comparação entre um médico e um cabeleireiro? Vejamos: ambos temos clientes. Os dele são mais fiéis do que os meus, pois os meus vieram até mim por intermédio do livrinho do convênio. Os dele são 100% particulares. Nós dois temos família, mulher e filhos para cuidar. Nós dois cuidamos da saúde das pessoas, claro que ele cuida dos cabelos e eu do resto. Vestimo-nos de branco impecavelmente. Manejamos a tesoura com habilidade. Está certo que as estruturas que eu corto, normalmente, sangram e doem, mas temos que ter certa habilidade para tanto. Em alguns momentos usamos luvas e máscaras, para nos proteger e até proteger o cliente. Trabalhamos bastante. Às vezes temos que atender em 15 minutos, mas normalmente damos conta do recado, neste período. Precisamos de infra-estrutura como pias, cadeiras, telefone, secretária, agenda, café, revistas, sala de espera, etc. Pagamos impostos sobre o serviço realizado. E quantos…

E nossas diferenças? Bem, fiz a faculdade em 6 anos, após muito estudo para enfrentar um dificílimo vestibular. Diploma em mãos, foi pra gaveta, pois nova prova era necessária para fazer uma especialidade, desta vez com funil ainda mais apertado. Mais 3 anos se foram. Aos meus 27 anos de idade, eu havia passado 1/3 deles na Santa Casa de São Paulo.

Então, comecei a trabalhar como plantonista, diarista, médico contratado e professor, para finalmente montar meu próprio consultório. Clientes particulares não existem para médicos pobres mortais da minha geração. Devem estar sendo cuidados pelo IBAMA, para ver se reproduzem em cativeiro. O jeito é fazer alguns convênios, pois hoje ninguém que tenha algum recurso financeiro quer ser atendido pelo SUS. E, a julgar pelas moças bonitas e pelos homens de meia idade esbanjando saúde que aparecem nas propagandas, o plano de saúde deve ser uma maravilha. Parece que descobriram a fonte da juventude!

Na outra ponta estamos nós, médicos de meia idade, recebendo valores que variam de R$ 18,00 a R$ 42,00 por consulta para decidir sobre a sua saúde, caro leitor. E não para por aí: se formos falar em cirurgias então, a coisa fica pior. Você pode não saber, mas se o seu plano de saúde te dá direito a quarto coletivo (enfermaria) o médico que faz a sua cirurgia recebe metade do valor combinado. Você deve estar se perguntando porquê? E nós também…

Alguns exemplos: uma cirurgia comum tal como a amigdalectomia paga entre R$ 60 e R$ 85,00 se for plano enfermaria e, pasme, o dobro disto, se for plano apartamento. Isto você não sabia quando fez o plano, não é? E por aí vai: apendicectomias, partos, hérnias, histerectomias, tireoidectomias pagam em torno de R$ 300 a R$ 450,00 no melhor plano. E você achava que seu médico ganhava bem, né? E os Pediatras, Clínicos, Reumatologistas, Pneumologistas, Cardiologistas que não fazem cirurgias? Ganham o quê? Consultas e apenas consultas… Detalhe importante: cada vez que eu vou ao Lucio, eu pago. Se o paciente voltar em menos de 30 dias, o convênio não paga. Se vier uma ou dez vezes em um mês, o médico recebe apenas uma consulta. E aquela paciente não quis me deixar cobrar uma nova consulta após dois meses, para ver seus exames. Duas consultas por R$ 34,00 saem, em média, R$ 17,00 cada uma, fora os impostos.

No salão do Lucio também tem manicure e pedicure. Mão e pé custa a bagatela de R$ 30,00. Ainda bem que eu mesmo corto minhas unhas. As mulheres gastam bem mais em seus cabelos com tinturas, escovas, banhos de óleo, chapinhas, etc, e nada disso sai por menos do que… uma consulta médica. Não que não devam fazer. Acho que devem se cuidar, se enfeitarem e serem vaidosas, com moderação. Apenas quero alertar para o conflito de valores. Nem vou comentar sobre preço de depilação sob pena de entrar em profunda depressão.

Outros serviços, como “quick massage”, têm se popularizado nos shoppings. Meia hora por R$ 30,00. Sem impostos, recibos, notas fiscais, títulos de especialista, vigilância sanitária, conselho regional, associações de classe, sindicatos e convênios. E se voltar no dia seguinte, paga de novo. Enfim, existe o problema e muitos médicos têm vergonha de falar sobre isto. Alguns querem manter a pose de ricos e bem sucedidos, quando na verdade estão mesmo é falidos.

Eu deixei de atender convênios e parei de ter insônia por este motivo. Isto precisa mudar ! Os planos de saúde estão acabando com a Medicina.

Dr. Alexandre Hamam
consultorio@alexandre.med.br

***

Triste, muito triste. Foi escrito pelo médico Alexandre Hamam aqui. Para os dentistas, vale a mesma coisa, só que bem pior, porque há muito mais faculdades de odonto que de medicina no Brasil e, consequentemente, muito mais dentistas (então imaginem quanto o convênio paga para os dentistas!). Arrisco a dizer que o texto vale para a maioria dos profissionais da saúde nesse momento.

Eu sinto um mal-estar. Quando comecei a trabalhar no convênio, tive uma leve crise depressiva em relação à odonto quando vi a tabela de honorários, e me questionei se realmente valia a pena (financeiramente, psicologicamente, como realização profissional/pessoal?). Superei isso, porque uma voz interna disse que, querendo, tudo é possível, tudo vale a pena. Hoje, já não sei.

Nunca usei o plano odontológico a que tinha direito, sem descontos da folha de pagamento, porque tinha uma certa "vergonha" ou não sei bem explicar o que era. Mas me dava uma dor na consciência saber que os dentistas que eu consultaria receberiam "x" para me atender, e eu, aspirante a dentista, não poderia/deveria me submeter a esse tipo de coisa. Pensei em tirar os sisos pelo convênio, mas, moralmente falando, eu me sentia mal porque o valor de repasse era muito inferior ao que considero "justo" (para alguém que estudou vários anos, abdicou de vida pessoal, abdicou de muitas coisas, além de ser responsável por um tipo de cirurgia que não é exatamente "fácil" - meus sisos estão inclusos -, só quem passa pelo curso é que sabe). Assim que eu ficar rica como tradutora (hahaha!), vou a um dentista particular e resolvo esse assunto.


7 comentários:

Marcelo Bello disse...

Cheguei ao seu texto "Medicos e cabeleireiros" apos uma pergunta ao Google se "valeria a pena montar um consultorio medico...?". Seu texto traduz muito bem uma cena cotidiana de consultorio (nao querer passar o cartao) com o rotina do corte de cabelo mensal (tb corto meu cabelo a 18 anos com o mesmo profissional). Por um lado, me fornece um certo alento ao ver que nao estou sozinho em meu sentimento de "profissional desvalorizado", que apos 20 anos de formado, com varios anos de pos-graduacao (residencia, mestrado,etc.) e uns 13 de consultorio(aceitando muitos convenios), tem a sensacao de ter apenas sobrevivido. Agora, por outro lado, fica a inquietacao de saber que, se nao estamos sós, porque nada fazemos ? Sera que este modelo de remuneracao da saude suplementar é imutavel ? Vale a pena brigar apenas por reajuste de tabela ? Sera que é tarde demais ? Meu desejo hoje é largar tudo... Os dentistas que se cuidem pois a historia tem tudo para se repetir com eles.

Poesias da Tânia Suely disse...

Com certeza o cabeleireiro estudou menos que o médico, no entanto o médico esqueceu de falar que ele trabalha em um belo consultório, geralmente sentado numa confortável poltrona, e que determina o tempo que irá perder com o paciente, que na maioria das vezes, tem que trabalhar muito para pagar um plano de saúde, já que não é culpa desse paciente que o País não lhe dar uma condição digna de tratamento de saúde, por fim, se o referido médico sentiu-se tão humilhado pelo cabeleireiro, porque então não muda de profissão? Pois , se o que mais importa para ele é o lado financeiro, dou uma sugestão, torne-se um político, e fale que irá cuidar do povo, pois me desculpe senhor médico, mas o seu dom não é a medicina, antes tudo temos que ser humanos e generosos com todos, senti que o senhor é arrogante e não tem respeito e nem valoriza os outros profissionais, qualquer profissão por mais humilde que pareça, se for executada por um bom ser humano, será tão digna e bela quanto a medicina, mas uma vez, peço desculpas, porém um lembrete: Cuidado médicos com a arrogância!

Poesias da Tânia Suely disse...

Com certeza o cabeleireiro estudou menos que o médico, no entanto o médico esqueceu de falar que ele trabalha em um belo consultório, geralmente sentado numa confortável poltrona, e que determina o tempo que irá perder com o paciente, que na maioria das vezes, tem que trabalhar muito para pagar um plano de saúde, já que não é culpa desse paciente que o País não lhe dar uma condição digna de tratamento de saúde, por fim, se o referido médico sentiu-se tão humilhado pelo cabeleireiro, porque então não muda de profissão? Pois , se o que mais importa para ele é o lado financeiro, dou uma sugestão, torne-se um político, e fale que irá cuidar do povo, pois me desculpe senhor médico, mas o seu dom não é a medicina, antes tudo temos que ser humanos e generosos com todos, senti que o senhor é arrogante e não tem respeito e nem valoriza os outros profissionais, qualquer profissão por mais humilde que pareça, se for executada por um bom ser humano, será tão digna e bela quanto a medicina, mas uma vez, peço desculpas, porém um lembrete: Cuidado médicos com a arrogância!

aline naomi disse...

Marcello,
acho que essa situação com planos de saúde e também odontológicos é irreversível. Acho muito triste, pois só quem estuda para passar em um Vestibular concorrido e, depois, sair da faculdade e continuar estudando, juntando dinheiro para montar consultório e se atualizando sabe o que é isso.
Larguei a odonto porque me desencantei, de repente, para mim, não valia mais a pena e optei por outro caminho.

***
Tânia,
o foco do post não é a arrogância dos médicos, mas sim discutir por que determinadas profissões que exigem muito das pessoas estão cada vez mais desvalorizadas. De qualquer forma, agradeço pela visita e pelo comentário.

Rodrigo Edelmuth disse...

Tânia,

Em momento algum o Dr. Alexandre foi arrogante ou superior. Ele respeitou a profissão do cabeleireiro em todas as suas palavras. Releia o texto e preste atenção dessa vez.

E como médico eu digo novamente: sim, medicina é nosso "dom", mas também é nossa profissão. Não vivemos de boa vontade, de compaixão e de caridade. Temos contas a pagar todo final de mês, assim como você. Medicina é sim nossa profissão, não é favor.

Gloria Brasil disse...

O texto está muito bem escrito e, à primeira vista, daríamos toda razão ao médico... Mas, façamos algumas considerações:
1⁰. Ele está comparando duas grandezas diferentes. Um médico que recebe de um convênio de saúde com um profissional liberal que realiza seus serviços e cobra diretamente do cliente, ou seja, particular. Para que houvesse equidade na análise, seria necessário que ele comparasse o cabelereiro com os profissionais médicos que cobram as consultas particulares, aí chegaríamos a R$ 150,00, R$ 250,00, R$ 350,00 e muito mais, por consulta.
2⁰. Feita essa equiparação, veríamos que os profissionais que somente atendem particulares, nem sempre têm sua agenda cheia. Muitos “tem que trabalhar até as 20 horas e também aos sábados”, tal qual o cabelereiro citado. Já os que atendem convênios, ocupam quase todo o tempo de atendimento disponível, e ganham no “volume ou no varejo”, como é popularmente conhecido.
3⁰. Ele falou que o valor da consulta está entre R$ 18,00 e R$ 42,00. Tomando por média R$ 30,00, e considerando o que preconizam as portarias ministeriais – que uma consulta dura em média 15 minutos, sendo 4 por hora, ao final de 8 horas diárias trabalhadas o profissional receberia R$ 960,00/dia. Por mês, ao final de 22 dias, o valor de R$ 21.120,00. Seria um salário muito maior do que o de muitos profissionais também formados em Universidades, com especializações etc.
4⁰. Todavia, não seria suficiente para comparar-se aos seus pares, nem tampouco para comprar casa na praia, na serra, iate, hospedar-se em resorts. Neste caso pensemos numa comparação mais adequada à realidade. Existem cabeleireiros que cortam o cabelo por R$ 5,00 e R$ 10,00. Mas, se quisermos alguém reconhecido, de renome, aí teremos de arcar com os custos do especialista – no caso do cabeleireiro citado, R$ 44,00. E, no caso de um médico para o qual existam “clientes particulares”, com os preços da consulta e os prazos para retorno. Se tomarmos como preço médio da consulta R$ 250,00, e refizermos os mesmos cálculos, o rendimento mensal desse profissional seria de R$ 176.000,00. Já seria um bom começo...
5⁰. Outro fator a ser avaliado é que o convênio, como mediador do negócio, retém uma parte do lucro que seria do médico. Por outro lado, ele coloca pacientes na antessala de médicos, muitas vezes desconhecidos da população usuária, atuando como um corretor. Parece-me que ninguém é enganado quando o negócio é fechado, certo? O que ocorre é que quem tem mais força ou poder está levando maior vantagem. Que tal os interessados sentarem-se à mesa e renegociarem melhores condições para as partes envolvidas?
6⁰. Os convênios, entendendo que a saúde e a vida humana não podem ser fonte de enriquecimento. Os profissionais da saúde, buscando ganhos justos, mas priorizando a tarefa de prestar atendimento ao paciente. E o usuário... Alguém se lembrou dele? Seus direitos? Necessidades?
7⁰. Sobre o usuário, sabemos de uma coisa: se a consulta for particular, ele estará sendo atendido porque pagou pela consulta. E se for convênio? Somente entrará no consultório se mostrar a carteira do convênio, documento de identidade e estiver em dia com o pagamento da mensalidade do plano.
8⁰. Então, que pelo menos ele seja bem atendido!

aline naomi disse...

Rodrigo,
concordo com você.
Em geral, as pessoas têm essa ideia de que os profissionais da área de saúde deveriam trabalhar (apenas) por "amor ao próximo". Claro que amor ao próximo é preciso, mas essa ideia de alguns pacientes de que é "errado" cobrar pelos SERVIÇOS prestados me incomoda.

***

Gloria,

os cálculos fazem sentido, mas como existem diversos tipos de médicos e de cabeleireiros, um cálculo homogêneo dos dois profissionais é inviável.
Mas concordo que os pacientes deveriam ser respeitados e bem atendidos.

***
Eu ainda acho que a melhor solução seria os próprios médicos (e profissionais de saúde em geral) se reunirem em associações para prestar um serviço de qualidade para os pacientes. Um troço que não me entra na cabeça é convênios médicos ganharem rios de dinheiro em cima do trabalho dos profissionais de saúde. Uma associação gerenciada pelos próprios profissionais talvez evitaria a desvalorização profissional gerada pelos convênios.
Para a maioria dos pacientes, é inviável não ter convênio médico hoje em dia, e, para os médicos, deve ser muito difícil trabalhar apenas com convênios, então, uma das soluções que vejo seria o que citei acima.