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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

Terminei de ler "Ensaio sobre a cegueira", presente de aniversário do João, há alguns dias, e gostei muito.

Fomos ver o filme em setembro do ano passado. Fui para São Paulo só para isso, pouco depois da estréia (já fazia bastante tempo que eu não ia para São Paulo especificamente para ver um filme - teve uma época em que eu ia direto ao shopping Frei Caneca, para o melhor cinema que conheço até hoje, para ver filmes que certamente não viriam pra cá e talvez nem saíssem em DVD, mas que valiam a pena). Entramos atrasados na sessão, mas deu para entender porque o João ficou explicando baixinho o que acontecia =) e gostei do que vi. Devorei o livro e quero ver o filme completo de novo.

É o primeiro livro do Saramago que leio. Comecei a ler este livro há muitos anos, quando fui para o Wal-Mart com meus pais fazer compra. Enquanto eles faziam a compra, fiquei na sessão de livros, e desde o dia em que li o começo, ficava imaginando o que acontecia com o homem que cegava de repente, em frente ao semáforo. Hoje eu sei que a cegueira dele originou uma epidemia de cegueira de todo um país e a regressão das pessoas a um estado de selvageria. Os personagens não têm nomes, "o médico", "a mulher do médico", "o primeiro cego", "a mulher do primeiro cego", "a mulher dos óculos escuros", "o rapazinho estrábico", "o cão das lágrimas", como se a identidade deles não tivesse importância ou fosse secundária - eles são o reflexo da cegueira da humanidade? Um amigo também costumava não nomear as personagens de seus contos, quando observei isso, ele passou a nomeá-las e eu passei a escrever alguns contos com personagens sem nome para ver o resultado. Mas é admirável o Saramago conseguir levar o romance inteiro (300 e poucas páginas) dessa forma.

Uma amiga, a Sol, viu o filme e ficou curiosa para saber por que só a mulher do médico conseguia enxergar, questão que não é respondida no filme. Aí ela foi ler o livro para ver se encontrava a resposta e, sinto dizer, não vai encontrar. Cada um interpreta como quer. Mulheres são fortes, a mulher do médico é forte, para aguentar o fardo diário.

O livro está como no original, no português de Portugal ("connosco" grafado dessa forma e outras palavras estranhas para o nosso português). No início do livro, podemos ler: "Por desejo do autor, foi mantida a ortografia vigente em Portugal". Que seja feita a vontade dele. Além disso, da grafia e vocabulário estranhos, o que me causou estranheza foi o fato de os diálogos (discurso direto) estarem em meio ao texto corrido, separados por vírgulas e /ou ponto, sem aspas nem travessão, como aprendi na primeira ou na segunda série do primário. Aproveitando o parágrafo sobre diferenças entre português de Portugal e português do Brasil, ontem descobri que "ficheiro" (PT-PT) = "arquivo" (PT-BR).

Grifei algumas passagens. Uma delas, na página 204: "... a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança".

Gostei muito! E é bom o filme existir, para que as pessoas leiam o livro que deu origem ao filme (o livro é mais rico ainda!) e, talvez, outros livros do Saramago também. Estou com "Intermitências da Morte" para ler faz tempo.

Agora comecei a ler "Delta de Vênus", da Anaïs Nin. Li dois contos; esperava mais desse livro, mas vou ler tudo primeiro, antes de falar.

Quero ver de novo o filme "Time", do diretor coreano Kim Ki-Duk, antes de escrever sobre ele e também um pouco sobre amor. Porque amor é difícil.

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