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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cobranças

De certa forma, eu já esperava o que aconteceu ontem no trabalho. Alguém já tinha comentado algo do tipo: "Fica esperta porque daqui a pouco você começa a ser cobrada de todos os lados". Ok, faz parte, só que eu penso que as coisas poderiam ser diferentes se eu fosse melhor orientada (como comentei num post posterior, ainda me sinto desorientada... às vezes dá vontade de sentar e chorar à beira do rio Pietra (deusmelivre! haha), mas aí fico pensando que várias pessoas já passaram pelo que estou passando, tanto na editora quanto em vários outros lugares e que preciso ser forte, aprender e crescer - afinal, tive a sorte (?) de vir parar onde estou, não era o que eu queria? Morar em São Paulo, sozinha, e trabalhar como tradutora/revisora interna? Meus desejos foram concedidos e agora eu preciso aproveitar a chance para alcançar as estrelas!).

Mas, também, sem dramas, já chorei as pitangas no meu diário (manuscrevi umas 7 folhas, frente e verso =P) e, no fim das contas, eu entendo.

Aconteceu assim: depois de uma reunião de que não participei, a gerente veio falar comigo e saber por que uns livros não voltaram da tradução, eles estão MUITO atrasados. Na verdade, acho que a ideia era que esses livros fossem lançados na Bienal que este ano acontece no Rio - só que ninguém me falou isso claramente até agora. Enfim, os tradutores pediram mais prazo e eu dei, aí o editor ficou puto (com a gerente, com a situação) porque os prazos na planilha eram absurdos. E também porque eu estava "segurando" obras (ele se referiu aos dois livros que estão na minha mesa*). Concordo. Vou ter de selecionar freelancers também por esse quesito: cumpre prazo/não cumpre prazo; para mim, a prioridade era a qualidade, até porque a Lana disse que era normal os tradutores pedirem sempre mais prazo, só que ela esqueceu de me avisar que depois quem responde por isso sou eu. Mas agora chega. Vou (tentar) colocar ordem na Casa da Mãe Joana.

* um dos livros é o de bruxaria, que (graças!) só falta umas dez páginas para terminar de revisar, e amanhã termino, sem falta. Outro é um problemático (mesmo!), que eu não tive coragem de passar para um revisor externo por medo de dar mais merda ainda: o livro foi originalmente escrito em inglês, no contrato, constava que faríamos a tradução do inglês; mas aí a tradução foi feita do espanhol (tinham o livro com a tradução para o espanhol lá, o autor autorizou a tradução a partir do espanhol por e-mail e o livro foi passado para uma tradutora de espanhol)... só que (DETALHE) a tradução do espanhol está muito diferente do inglês - não sei se com ou sem autorização do autor, mutilaram o texto, há vários saltos (partes não traduzidas (e até uma página inteira!), que a palhaça aqui está tendo que traduzir, mudança de sentido, palavras omitidas em uma frase, comentários do tradutor (?) no meio da tradução! Socorro!); se eu fosse o autor e o tradutor fizesse isso com uma obra minha, eu juro que processava bonito, para o tradutor aprender a respeitar o trabalho alheio e se ele quisesse fazer comentários, ele que escrevesse o próprio livro. Mas ok, ficam algumas lições:
- nunca, jamais, passar trabalho de tradução a partir de outra tradução (o que por si só já é ruim, nessa situação, então, é de se descabelar - fora a pressão para passar isso logo para a produção);
- avaliar melhor as obras;
- avaliar muito bem os colaboradores freelancers antes de passar trabalho;
- não ser boazinha, porque depois quem se ferra sou eu/o departamento (no lugar da Lana, eu teria feito a mesma coisa, porque a tradutora precisava de trabalho e não sabia inglês, mas, como disse a gerente, é preciso agir mais com a razão que com o coração; recado entendido, lição aprendida).

Ah, detalhe, quando a gerente me chamou para conversar, achei que ela ia falar para eu parar de passar revisão de tradução para freelancers porque estava saindo muito dinheiro. Na verdade, me dei conta de que isso (tradução de revisão) não era uma prática comum há pouco tempo, quando reparei que, na planilha, constava que a Lana havia revisado vários livros em alguns meses (só se ela fosse a mulher maravilha para conciliar essas revisões com tudo o mais que se tem para fazer lá), então caiu a ficha: os livros não passavam por revisão de tradução. A maioria simplesmente voltava da tradução, era diagramada e passavam para revisores externos (que não faziam o cotejo com o original, porque partiam do princípio de que não eram pagos para isso (?)). Como é de se esperar, os problemas só vinham à tona na revisão de revisores internos, na última prova antes de o livro ir para a gráfica: "Nossa, que frase sem sentido é essa?", "Olha, o tradutor esqueceu de traduzir um parágrafo", "Acho que essas figuras foram inseridas no lugar errado...". É o tipo de coisa que me dá desespero, para mim é uma tortura ver, compactuar com ou participar de coisas mal-feitas, profissionalmente falando... se a gerente me falasse para não mandar as traduções para revisão de tradução, eu teria conflito de valores - porque seria humanamente impossível revisar tudo que chega e eu me sentiria muito mal em enviar as traduções do jeito que chegam para a diagramação. Eu (ainda?) não consigo pensar: "Ah, foda-se, quer fazer mal feito faz, faça do jeito que quiserem, eu não quero ter nada a ver com isso". Eu já estou seduzida demais, envolvida demais, comprometida demais...

***

De legal, consegui avaliar mais umas obras, e talvez role um contrato para publicar um livro de astrologia. Se rolar, eu queria traduzir para aprender um pouco sobre o assunto e boiar menos quando a Ana comenta coisas e quando leio posts da Cris.

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