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quarta-feira, 27 de maio de 2009

O que você quer AGORA?

Se alguém perguntasse: "O que você quer AGORA?", qual seria a resposta?

A minha seria: "Meia hora de shiatsu, banho de ofurô com essências relaxantes para amortecer os sentidos e desacelerar a minha mentinsana e 8 horas de sono". Eu quero. E aqui tem. Mas, adivinhem o que vou fazer assim que terminar de escrever uns posts? Ééé... tentar terminar a revisão interminável. Estou um pouco cansada. Semana passada fui dormir à 1h, às 2h da manhã, essa semana, não estou conseguindo revisar quase nada em casa... e fico com a sensação de que as coisas estão se arrastando. Mas sinto que assim que entregar isso, minha vida editorial será melhor. É uma das grandes provas que tenho de superar para crescer. É quase um carma (?). Aliás, vira e mexe acontecem outras coisas menores no trabalho que preciso resolver sozinha. Às vezes imagino que os deuses estão jogando video game comigo... imagino falas de um reino superior do tipo:
"Olha lá, vamos fazer com que isso, isso e aquilo aconteça e vamos ver como ela se vira para resolver..."
"Que outros obstáculos podemos colocar no caminho dela? Acho que a vidinha dela está fácil demais e estou me entediando..."
"Vamos ver se ela é boa mesmo..."
"Se vira, nega!"

Quando eu terminar de traduzir/revisar esse livro, vou me dar o presente de ir ao cinema. Aliás, eu ia chamar a Vi para ver "Desejo e Perigo", do Kar Wai (Kar-Wai? não sei se tem hífen), para aproveitar a última semana de férias dela, mas como essa revisão está amarrando a minha vida, enquanto eu não terminar, parece que não conseguirei fazer mais nada.

Com essa revisão, pude experimentar vários sentimentos. Já deu vontade de que isso fosse a minha "obra-prima", já fiquei irritada, já senti que minha persistência estava valendo a pena, já deu vontade de simplesmente dar uma olhada para ver se não havia partes faltando e entregar do jeito que a tradutora deixou, já deu vontade de pagar alguém para terminar isso para mim. Hoje estou ciente de que devo fazer o melhor que eu puder para ficar com a consciência tranquila. No meio desse caos e desse cansaço, também tive umas ideias até que boas (?):

- Começar um movimento para trazer o curso de tradução da Unesp para o campus de São Paulo: música, artes cênicas, artes plásticas E tradução literária, que também é uma arte =) - por que não?; sei que a minha visão do mercado ainda é muito limitada, mas por mais que haja tradutores "profissionais" por aqui, ainda sinto que falta bagagem para prestarem um bom trabalho; não que eu seja ótima-maravilhosa (talvez, quem sabe, daqui a uns 10 anos eu possa dizer que estou me tornando uma boa tradutora (?)), mas muita coisa do que vi na faculdade é, sim, bastante útil na "vida real", principalmente a parte de pesquisa e de a gente ser responsável pelas coisas que está traduzindo, como qualquer outro profissional se responsabiliza pelas coisas que faz, projeta, organiza, medica. Para mim, é inconcebível alguém que se considera "tradutor profissional" inventar palavras no meio da tradução ou, "porque em espanhol é assim, em português deve ser igual" e deixar as coisas de qualquer jeito. E, para mim, o valor supostamente baixo da lauda não justifica esse tipo de comportamento.
E, nos meus devaneios, achei que seria interessante fazer um "convênio" entre cursos de graduação ou pós em tradução e editoras. Os estudantes passariam por um teste, se fossem aprovados, as editoras pagariam metade do valor da lauda para eles, e, no caso da graduação, o livro traduzido publicado valeria como "estágio obrigatório" (tive esse tal "estágio obrigatório" nos dois últimos anos da facu - no terceiro, escolhi traduzir literatura francesa e, no quarto, literatura franco-canadense - DE GRAÇA, ou melhor, para conseguir o diploma). Acho que todo mundo sairia ganhando. E fora que ia ser ótimo para o currículo dos quase-tradutores já ter passado pela experiência (e responsabilidade) de traduzir um livro para publicação.

- Da próxima vez que um livro de saúde for aprovado para publicação, tentarei convencer o editor da importância (e praticidade) de se contratar um tradutor que seja da área da saúde e tenha ótimos conhecimentos linguísticos e que, portanto, valeria muito a pena pagar um valor diferenciado pela lauda dele; sinceramente, se eu não tivesse passado, ainda que brevemente, pela facu de odonto, provavelmente não teria noção de que alguns termos de anatomia, histologia e bioquímica estão completamente "fora da casinha"... e acho que exatamente por ter noção do que a tradução "errada" desses termos pode acarretar é que estou tentando ser bastante cuidadosa na revisão (e tradução, já que traduzi e estou traduzindo várias partes que a edição em espanhol não traz; para não enlouquecer mais ainda, já não estou fazendo o cotejo entre a edição em espanhol e em inglês, e já nem quero mais saber o que foi vacilo da tradutora ou que merda os mexicanos fizeram com esse livro, só quero que fique o melhor possível de acordo com o inglês e mandar isso logo para a produção). Cheguei à conclusão de que quanto mais a gente tem consciência das coisas, mais dá desespero. Viver na ignorância às vezes deve ser bom, pelo menos deve haver menos preocupações e, se der merda, é só dizer: "mas é que eu não sabia" - a ignorância salva (que heresia! Haha!). Será que os tradutores têm noção de que se traduzirem o nome de um medicamento por um outro parecido, mas com princípios ativos completamente diferentes, e se algum leitor resolver seguir o que está no livro (considerando que brasileiros adoram se automedicar) e sofrer danos, eles podem ser responsabilizados por isso? Ou, pior, eles e também a editora... não sei bem como funciona, mas mesmo tendo um aviso de que "a editora não tem nada a ver com o conteúdo do livro", logo no começo, não sei até que ponto isso vale legalmente. A pessoa fica doente ou morre porque seguiu instruções que estavam no livro, e aí? Quem se responsabiliza? A própria pessoa? O autor? O tradutor? A revisora (rá!)? A editora? Os deuses? O meu vizinho?

- Para evitar a fadiga de de receber e ler e-mails e cartas de leitores reclamando e apontando absurdos nos livros, é prudente que eu me dedique e faça com que as pessoas que forem trabalhar comigo também se dediquem. E tenho dito.

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