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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Uma de carioca

Para começo de conversa, nada contra cariocas (conheço vários maravilhosos, aliás). Mas acontece que a tradutora sem noção de ontem era carioca...

Estava concentrada, lendo/avaliando um livro, quando o ramal tocou.

"Oi, eu sou a Fulana, estou ligando do Rio para me apresentar. Gostaria de enviar currículo [blablablá... a mulher falava tanto que eu não conseguia nem processar]... já traduzi mais de cem livros nessa linha para a editora X e também para a editora Y [blablablá]..." Como aprendi com o Vitor, dentista/gerente do convênio, "se as pessoas querem falar, deixa elas falarem... só escuta...".

Quando ela me deixou falar, expliquei que, infelizmente, a editora só trabalhava com freelancers de São Paulo porque o material de trabalho deveria ser retirado pessoalmente. É uma política da editora para evitar extravios e, também, ou principalmente, para cortar gastos com correio/motoboy, ainda mais em tempos de crise. Aí o tom da conversa mudou.

"Você está brincando!!"

"Não, estou falando sério. É uma política da empresa."

"Mas eu morei na Austrália e mesmo assim a editora X me mandava o material por correio... [blablablá]... mas que coisa mais tupiniquim... [blablablá]... vocês acham que São Paulo é o centro do Brasil, né? [QUÊ??? fiquei com vontade de dar uma gargalhada nessa hora]... porque na revolução de 82, de que minha mãe participou - minha mãe é paulista -, os paulistas não foram bem sucedidos, por sinal [blablablá... não sei bem por que ela colocou a revolução e a mãe no meio da conversa, porque nesse ponto eu já não estava mais prestando atenção, só queria que ela desligasse logo e me deixasse trabalhar em paz]... eu lamento muito a postura da editora, porque acho uma coisa muito 'discriminativa' [blablablá]."

Às vezes juro que fico pensando se eu é que sou anormal ou se esse tipo de atitude é considerada "normal" pela maioria das pessoas.

A mulher liga lá para pedir trabalho. Explico que não trabalhamos com pessoas fora de São Paulo e aí ela começa a falar um monte de bobagens não-relacionadas ao assunto em questão. Para mim, no meu raciocínio mais ou menos lógico, uma resposta "normal" seria algo do tipo: "Que pena!, mas, de qualquer forma, agradeço pela atenção. Tchau." (seria uma resposta que eu daria) e não ficar questionando o porquê de a editora fazer as coisas como faz e deduzir que paulistas "se acham" (?!?!). Fico imaginando o contrário: eu ligando para uma editora carioca e, ao saber que eles só trabalham com tradutores do Rio, eu começo a falar que são bairristas, preguiçosos e que deveriam aceitar profissionais paulistas, que são muito melhores, "vocês acham que o Rio é a cidade maravilhosa, né?" (HAHAHA! eu me sentiria, no mínimo, ridícula) blablablá... não tem o que falar? Então fica quietinho(a), vai? Por favor.

Mas eu aceitaria muito bem a mesma crítica falada de outra forma, com argumentos. Claro que eu sei que há profissionais ótimos em todo canto do Brasil e do mundo e que dariam muito menos dor de cabeça do que alguns tradutores lá da editora, mas, por enquanto (e sempre?), a editora não tem condições de trabalhar enviando material do Oiapoque ao Chuí. E também entendo a postura da editora. Imagina enviar material para o Amazonas, por exemplo, para um excelente tradutor, e, de repente, o livro original extravia... eu teria que pedir outro exemplar para a editora internacional (ou contar com a sorte de ela ter uma versão em ebook para me enviar por e-mail), explicar o porquê de eu estar pedindo outro, contar com a compreensão deles, esperar chegar, enviar de novo para o tradutor, esperar que dessa vez o livro chegue, depois, esperar ele enviar tradução e livro de novo para nós, para a equipe de produção editorial poder dar andamento ao processo. E nisso o tempo correndo e a gente tendo cada vez menos prazo para publicação (há um prazo, em geral, de um ano e meio, para publicação - se não for publicado nesse prazo, perdemos os direitos e temos de pagar de novo o mesmo valor para podermos publicar). Se o tradutor está em São Paulo, não tem problema, tudo é combinado por e-mail ou telefone (se eu tiver de ligar, é ligação local, muito mais barato do que ter de ligar para Roraima ou para Austrália, por exemplo), se precisar/houver problemas de tradução ou de outra natureza, tem como chamá-lo para conversar pessoalmente e a questão se resolve de modo mais prático e fácil.

E ela disse que trabalhou/trabalha para editoras grandes e muito boas do Rio (se é que é verdade?), não sei por que ela faria tanta questão de trabalhar para uma editora de pequeno porte como onde trabalho. Definitivamente, não tenho muita paciência para lidar com pessoas que, para os meus padrões, são sem noção. Admiro muito quem consegue levar tudo isso numa boa e, ainda, sem ser grosseiro nem mal educado, fazer com que o interlocutor perceba que está sendo ridículo. Por enquanto, eu deixo falar. Quer falar, fale. Mas não que eu vá prestar atenção ao que essas pessoas estão falando... ou, como diria o Rafael (dentista-auditor do convênio): "Você ganha bem pra isso!!". Pois é, ganho maravilhosamente bem pra isso. Palhaço!! =P

4 comentários:

Crisão disse...

AAAH!
Vou defender os cariocas. Cariocas (já dizia a música da Adriana Calcanhotto) moram uma cidade litorânea. Acabei de descobrir que por isso eles são mais bem-humorados que os chatos dos paulistas.
O problema dessa sem-noção aí é que ela deve estar DESESPERADA por trabalho e apelou. E apelar é igual em videogame, boxe: jogo baixo desclassifica, ganha menos pontos.
Por outro lado: vc simplesmente deveria ter dito "Por gentileza, mande seu CV aos meus cuidados que uma equipe avaliará e entrará em contato com vc para futuras oportunidades". O que vc foi perda de tempo e paciência.
Se tivesse de ser grossa, cortá-la que fosse. Considerando seu trabalho e suas atribulações, seu tempo é PRECIOSÍSSIMO!
certo, maluquinha!
besos

aline naomi disse...

HAHAHAHA. Claro que você vai defender os cariocas! =)

É, da próxima vez vou falar isso: "Por gentileza, mande o seu CV...". Admiro pessoas práticas como você. Eu ainda não sei lidar muito bem com determinados tipos de pessoas, por mais que eu tente...

L. D. disse...

hahahahahaha, gente como tem gente sem noção nesse mundo!!!

Acho que o mínimo do mínimo que uma pessoa pode fazer quando vai pedir um emprego é ser humilde... neh??

Vai entender essas pessoas...

Beijos!

=***

aline naomi disse...

Hahaha! Lah, às vezes juro que penso se sou eu é que sou sem noção (sem-noção?)... mas vamo que vamo!! Amanhã começa tudo outra vez! Beeijo!