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domingo, 12 de julho de 2009

Hermafrodita - Albert Xavier

Amei esse filme! Um dos melhores, talvez o melhor, que já vi esse ano. Valeu a pena caminhar sob a chuva para ver!

Nunca pensei que um tema desses, com potencial para ser realizado de modo muito apelativo, só para atrair público, pudesse ser tratado com tanta delicadeza e verossimilhança. Não é como uns filmes sobre homossexuais, por exemplo, em que a "anormalidade" é eliminada de modo obscuro, com o suicídio ou a morte por diversas causas das personagens. Sei lá se interpreto tudo errado (o que é provável), mas entendo essas mortes como a prevalência da (suposta) "normalidade" que a sociedade quer. Se você é muito diferente, você é "anormal" e, portanto, deve ser eliminado, porque não se encaixa. Não há lugar para desajustados nesse mundo. Estou falando isso, mas também tenho problemas com determinados tipos de "anormalidade" - atualmente preciso conviver com uma pessoa que é deveras estranha e que me incomoda muito, aliás, meu nível de incômodo com alguém nunca tinha atingido o nível que atingiu com ela. Não tem nada a ver com sexualidade, mas com o jeito de ela ser e de se comportar - ela parece um androide psicopata e às vezes tenho vontade de falar: "olha, não fala mais comigo. Para de me falar ou perguntar essas coisas sem pé nem cabeça, que nem você entende. Eu não gosto de você, por favor, me deixe em paz, assim como eu te deixo em paz". Talvez eu esteja sendo cruel, porque, no fim das contas, ela deve ter sérios problemas mentais e também não escolheu ser assim, mas se a convivência não fosse obrigatória, eu nunca ficaria perto de uma pessoa dessas, porque me faz sentir mal. Pronto. Foi só um momento-desabafo para ilustrar que também tenho minhas irritações, não sou 100% bondade e compreensão.

Voltando ao filme: o diretor, Albert Xavier, estava presente na sessão e foi aplaudido antes e depois da exibição. Espero que ganhe muitos prêmios mundo afora! \o/

A história acontece na República Dominicana - que eu me lembre, foi o primeiro filme dominicano que vi - e gira em torno de Maria, a protagonista hermafrodita. Ela conhece La Melaza numa perua, quando estão indo para Ocoa: ela está voltando para casa, onde mora com a avó, e ele, fugindo da capital, Santo Domingo, por ter assassinado o assassino de seu irmão, "para que o irmão descansasse em paz", vingança feita. Eles se apaixonam e, aos poucos, vamos conhecendo a trajetória de Maria, desde seu nascimento, através das digressões - achei que a trama foi bem construída, a personagem principal e também as outras foram muito bem desenvolvidas (os atores são ótimos!) e, com essas digressões, podemos ter mais noção da complexidade da personagem e do quanto sua condição física a afetou e ainda afeta. Em uma das digressões, de quando ela era adolescente, ela e Wanda, sua melhor amiga, tomam chuva e, quando chegam à casa onde Maria mora com a avó, Wanda sugere que tirem a roupa encharcada, para que não fiquem doente. Maria fica receosa, diz que não vai tirar, porque a avó é brava (realmente é muito brava e muito má) e poderia brigar com ela, mas como a amiga tira a roupa, ela acaba falando: "só tiro se você me mostrar..." (e olha para a pélvis da amiga), e Wanda completa: "ah, você quer ver a minha xoxota?". É quando Maria constata, talvez tardiamente, pois está com uns 15 anos, de que é mesmo diferente. Depois Wanda insiste em ver o sexo dela também; um tanto relutante, ela acaba mostrando, mas a amiga não se abala. Elas fazem um juramento e Wanda promete nunca contar o segredo para ninguém. Nesse momento também descobrimos que Wanda tem uma queda por Maria ou talvez seja completamente apaixonada por ela (tem uma cena em que Wanda tenta beijá-la), o que ajuda a explicar uma atitude que ela tem depois, para separar Maria e La Melaza.

Várias vezes Maria se pergunta por que Deus a fez diferente. A resposta não vem. Ela comenta com um "pai de santo" com quem vai se consultar que nunca fez nada de mau para ninguém e não entende por que tem de ser castigada dessa forma. Em uma das digressões de quando ela ainda era criança, comenta com Wanda que não quer crescer, porque sente uma dor por dentro [e talvez essa dor só aumente à medida que ela for crescendo]. Me identifiquei um pouco com essas passagens, porque ninguém escolhe ser "diferente", simplesmente somos assim - se eu pudesse escolher, claro que escolheria o que causa menos dor. Eu estava participando de uns fóruns de meninas no Orkut e os comentários de algumas delas começaram a me deixar mal - foi meio chocante ver que até pessoas com uma sexualidade "fora do padrão" têm preconceitos, ainda que velados, contra outros tipos de sexualidades que também fogem do padrão; desde então, estou com uma certa fobia de entrar naquela comunidade (e fobia de Orkut em geral). Por mais que eu seja segura de que a minha sexualidade é só uma parte de mim e que as outras pessoas não têm nada a ver com isso, algumas ideias ainda me afetam e às vezes me contesto: "por que não consigo ser como as outras pessoas? Por que as pessoas acham que sou assim porque quero? Por que fazem comentários às vezes agressivos sem nem ter ideia de como assimilo e processo a minha orientação?". Eu me sinto "psicologicamente intersexual", parece que fico vagando entre os vários tipos de orientação sexual, eu não consigo me definir - e talvez nem queira (?), porque me definir significaria cortar uma série de possibilidades; a partir do momento em que me defino como "x", minhas atitudes devem ser coerentes com essa definição, certo? Então acho que prefiro não me definir e ir sendo ou deixando de ser ou voltando a ser o que me faz sentir melhor em cada momento. Mas tenho evitado pensar nessas questões para não sentir um mal-estar inevitável.

Tem uma hora no filme em que o "pai de santo" diz que, na antiguidade, hermafroditas eram tratados como deuses, que ela era uma deusa e que iria muito mais longe do que imaginavam. De certa forma, se tornou mesmo uma deusa no fim. A ela foi concedido o dom da vida.

Abaixo, o trailer do filme:

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