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sábado, 15 de agosto de 2009

De onde nasce o desejo?

De um olhar, de um gesto, de um sorriso, do pescoço nu, de uma ideia, de várias ideias, de uma inteligência afiada, de sutilezas?

Da presilha no cabelo, do aparelho nos dentes, de uma tatuagem estratégica, duas ou três, talvez? De um sotaque já meio diluído, da pele exposta, dos mistérios escondidos, da sintonia de vontades, do implícito?

Da despretensão (nem sei se essa palavra existe), da admiração, da leveza, da raridade, das diferenças, do jeito de ser, da amizade? Da expectativa, de promessas nunca feitas, da efemeridade, de um quê de saudade, do segredo, do secreto, do escondido, do instinto animal que ainda habita em mim, da palma das mãos ou da ponta dos dedos?

Um segundo sem pensar, um arrepio e, quando percebi, ele já tinha nascido. Não sei nem de onde, nem quando exatamente, nem como isso foi acontecer comigo. Desejo carregado de um pouco de indecisão e confusão mental e medo. Medo de quê? Não sei. Talvez de estar sentindo isso e não saber o que fazer. Porque para mim é raro. É, eu também não sei o que tenho de errado. Mas acho que ainda estou em tempo de me consertar - se é que preciso de conserto?

Poucas, muito poucas, pessoas despertam o meu interesse "amorosamente" falando, desejo, então, raríssimas. Mas a maioria das pessoas me interessa como amigos, porque, dessa forma, me ajudam a crescer e a montar as peças do quebra-cabeças de que sou feita, além de me apresentarem o mundo de acordo com as cores de suas paletas - se puder, quero ter um milhão de amigos e um milhão de possibilidades de ver o mundo!

E quando sou eu o alvo do desejo (é, tem gosto pra tudo nesse mundo!), os sentimentos variam. Quero dizer, das vezes em que me falam, implicita ou explicitamente: "eu te desejo", o que sinto depende de quem fala - se não falassem, eu provavelmente nunca notaria (lerda é a mãe! =D). Em geral, quando esse tipo de comentário parte de homens, finjo que não ouvi/não li e mudo de assunto (haha!) - ou porque é constrangedor demais e/ou não me interessa e também porque é como se estivessem falando qualquer coisa sem importância, porque sei que falariam a mesma coisa para todas as mulheres do mundo. Sinceramente, SE eu tivesse vontade, faria sexo por compaixão (aliás, isso é nome de um filme!) - se o cara ficasse feliz com isso, por que não? Para mim, daria igual. Fazer ou não sexo com pessoas "comuns" para que elas se sentissem felizes e com a autoestima elevada, etc. Mas não é o caso. Nesse sentido, não tenho apetite por quase ninguém, o meu desejo é regido por leis desconhecidas, invisíveis e muito específicas (embora eu não entenda essa especificidade ainda). Até hoje, conscientemente, só senti desejo por dois homens-meninos, que eram especiais/interessantes, não sei explicar, mas eram muito diferentes de todos os outros que eu já tinha conhecido e provavelmente conhecerei.

Quando o desejo declarado parte das meninas-mulheres, muitas vezes me sinto constrangida e lisonjeada ao mesmo tempo. ("No meio de tantas outras meninas interessantes, por que Fulana vem falar isso pra mim?") Não tenho baixa autoestima, nem nada, mas como me acho uma garota bem comum, para mim é surpreendente saber que desperto sensações nas pessoas e o desejo delas soa como elogio. Em geral, as meninas são muito sutis (adoro sutilezas!) e não me sinto "ameaçada", nem transformada em objeto meramente sexual (ainda que me vejam dessa forma) e nem como se estivessem falando qualquer coisa só por dizer (ainda que estejam). Uma vez, há vários anos, uma amiga "virtual", que depois virou "real", comentou por MSN algo do tipo: "Espero que não se chateie, mas eu quis te beijar no dia em que nos encontramos". Quê? =) Se ela não falasse, eu não desconfiaria never jamais (como costumava dizer a 'Amanda' Amália) - lerda é a mãe (2)! Eu gostei da forma como ela se expôs, do cuidado, achei corajoso, não sei se eu conseguiria me expor dessa forma (sem ter a mínima noção de qual seria a reação da pessoa).

Até há poucos anos, eu não sabia que as pessoas se envaideciam por ser desejadas. Eu, ao contrário, me sentia mal com isso (desculpem, sou de Júpiter), como se eu estivesse provocando isso de propósito nas pessoas e eu me sentia "vulgar", mas, aos poucos, essa percepção foi se alterando e hoje encaro com naturalidade, mas, dependendo de como o desejo é declarado para mim, me sinto um pouco agredida. Talvez porque o desejo em si tenha uma agressividade implícita? O desejo implícito de morrer em alguns segundos de gozo.

Também queria saber de onde nasce o desejo das outras pessoas. O desejo que sentem por quem desejam. O desejo que sentem/sentiam por mim. De onde ele nasce e para onde escoa quando não se realiza?

Este post é um delírio.

O desejo que sinto é um sonho de uma noite de inverno.

Amanhã já terei despertado dele. Ou não?

8 comentários:

Sharlene disse...

Oi!!!
Meu, adorei seu post, principalmente pq este é um assunto que sempre me interessou e está aflorado depois que assisti Lust, Caution (traduzido levianamente como Desejo e Perigo).
Qto aos pensamentos sobre o tema, well, fica para uma próxima vez! Beijos!!!

aline naomi disse...

Oi, Shar!!
Ahhhh, eu preciso ver esse filme!
Eu adoro o assunto - embora eu não consiga falar tanto por não ter a vivência... me sinto tão "alienada" às vezes. Não sei onde estive quando as pessoas normais estavam experimentando sensações diferentes. Ainda bem que pelo menos estou sentindo e isso quer dizer que estou viva =)

Sharlene disse...

Sim, é um ótimo filme! E complementando, eu sou leitora assídua de Sandman, uma série de quadrinhos para adultos muito interessante. Nessa série, você tem os Pérpetuos, definidos (a grosso modo) como entidades funcionais, maiores e mais antigas que os deuses, que serão sempre os ultimos a morrer. São compostos de: Morte, Destino, Sonho, Desejo, Desespero, Destruição e Delírio. Cada um tem uma particularidade, mas o que considero ser mais interessante é o fato de Desejo e Desespero serem irmãs gêmeas...
Bjs!

aline naomi disse...

Shar,

vou procurar saber mais sobre Sandman (fiquei interessada nas gêmeas!)... e quem sabe até rola publicar algo dele lá na editora - vou pesquisar!! O nome "Sandman" não me é estranho... acho que já vi em algum lugar e achei bonito, mas não cheguei a ir além.

Beeijos!!

Obs: se rolar algo do Sandman, eu te conto!

Everson Teles de Cairos disse...

Ola! Como está? Não sou muito fã de blogs e coisa e tal, mas o que você escreveu acerca de onde nasce o desejo mexeu comigo (por favor, não me interprete mal)... talvez porque traduza muito do que estou vivendo nesse momento. Também - e foi o que me chamou mais a atenção - porque você escreve muito bem e me identifiquei com o seu jeito de escrever. Parabéns. Não prometo ler todo o blog mas esse texto vou lembrar-me sempre dele.

Everson Teles de Cairos disse...

Ola, novamente. Não sei se irá ler os meus comentários. Bem, tomara que sim... Em todo caso, gostaria de sua permissão para cita-la e citar o seu blog na minha página do face.
Gostaria de ter a resposta para onde o desejo escoa se não realizado. O meu nesse momento de revolta dentro do meu peito e acho que seria menos doloroso de eu fosse um protagonista dos filmes do Ridley Scott da legenda ALIEN.

aline naomi disse...

Everson,
obrigada pelo comentários!
Pode citar o blog no seu Facebook, sim.
Eu ainda não descobri o que acontece com o desejo quando ele não é realizado... em mim acho que ele acaba se diluindo com o tempo e/ou se transforma em outro tipo de sentimento...
Abraços!

aline naomi disse...

Trecho de uma música da Marisa Monte:

"Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?"