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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cartas a um jovem tradutor - parte 1

Bom, eu pretendia escrever esse post depois-sei-lá-quando, porque ia (e vai) ficar uma coisa gigantesca, mas resolvi dividir em partes, porque é muita coisa, muitas impressões, que eu gostaria de compartilhar.

A Cris vai escrever um post sobre isso (né, Cris?), quando ela voltar de férias =). Eu pedi o post, caso ela não escreva um livro sobre o assunto, porque ela é muito melhor e mais experiente para desenvolver esse tema que eu. Pronto, agora acabou a sessão confete (na verdade, é só uma estratégia para mexer com o lado leonino da Cris e ela escrever sobre o assunto, porque eu quero ler! =P).

"Cartas a um jovem tradutor" é uma brincadeira despretensiosa com o livro "Cartas a um jovem poeta", do Rilke - esse livro a Ana que me indicou há alguns anos, quando eu estava mais perdida que o normal. O livro é composto por cartas entre o poeta Rainer Maria Rilke e um admirador-jovem-poeta, que escreve para ele, para pedir conselhos e também opinião sobre os poemas que ele escrevia.

Agora faz uns oito meses que estou trabalhando na editora, sendo que há sete comecei a "coordenar" tradutores e revisores freelance. Não é exatamente a parte mais legal do todo que eu preciso fazer lá (depois de trabalhar com o texto em si - traduzir, revisar -, eu gosto mais de avaliar (ler, pesquisar) livros estrangeiros, trocar e-mails com o pessoal das editoras internacionais e negociar os direitos de publicação dos livros no Brasil), mas quando os tradutores/revisores são bons, respeitam os prazos, etc., a coisa flui e é bom, porque eles fazem o trabalho deles com qualidade e eu não preciso me descabelar para refazer o que eles foram pagos para fazer - isso me irrita muito. Então, a minha responsabilidade maior, como "coordenadora de tradução", é avaliar muito bem os tradutores/revisores novos, que nunca prestaram trabalho para a editora. E "como faS" (como diria a Babu) para avaliar alguém?

Eu nunca tinha tido que avaliar ninguém e muito menos me responsabilizar pelo trabalho que as pessoas fazem, mas estou tentando fazer o melhor que eu posso, dentro dos meus próprios parâmetros.

Ganha pontos:
- uma boa formação (se tiver formação em letras ou tradução, ganha pontos; se tiver estudado em uma universidade pública, me sinto menos insegura para passar trabalho, porque eu sei que não é exatamente fácil entrar e nem sair formado de uma... e passar de ano não tem a ver com a mensalidade estar paga em dia);
- se a pessoa escreve algo no corpo do e-mail, sem erros de português, e não simplesmente anexa o CV e manda o e-mail vazio (como quem diz: "abre aí e se vira, se interessar, beijomeliga" - acho muito não profissional);
- se a pessoa sempre trabalhou ou fez estágio, desde o começo da faculdade, mesmo que não seja exatamente na área (porque eu sei que é preciso muita força de vontade e esforço para conseguir trabalhar e estudar ao mesmo tempo - a pessoa abriu mão/está abrindo mão de vida pessoal em prol de aprimoramento profissional e isso deve ser levado em conta);
- se tiver experiência como tradutor/revisor em outras editoras, melhor, mas, para mim, não é o mais importante;
- quando as pessoas são sinceras (e muito profissionais) e falam: "tenho familiaridade com os temas x, y e z... acho que não conseguiria trabalhar bem com livros que abordam os temas a, b e c";
- for profissional em todos os sentidos (fizer um bom trabalho, não ficar me enchendo, me ligando toda hora, cumprir prazos, me avisar se for atrasar a entrega, não ficar tentando me agradar só para eu passar trabalho).

Perde pontos se... (alguns itens são coisas pessoais minhas, não que todo coordenador de projetos / coordenador de tradução / gerente de tradução pense da mesma forma):
- ficar ligando no meu ramal toda semana, me pressionando, para passar trabalho e/ou, depois que terminar um trabalho, ficar ligando ou mandando vários e-mails para perguntar se o livro já foi publicado ou quando será publicado;
- cometer erros de português no corpo do e-mail e/ou no próprio currículo (afinal de contas, a pessoa está pedindo uma oportunidade para fazer o que mesmo?! pois é...);
- for incoerente no currículo, como, por exemplo: "idiomas: espanhol avançado e inglês básico para tradução" (como assim, "inglês básico para tradução", minha filha?, como é que você pretende traduzir, que é uma coisa, no mínimo, complexa, tendo conhecimentos básicos de uma língua estrangeira?);
- colocar informações nonsense do tipo: "ando de bicicleta em São Paulo" ou "toco pandeiro" (é sério, já recebi currículos assim e pensei: "e o meu sonho é andar de patins no Carrefour, e daí?");
- colocar fotos meio "poser" no currículo (é, né? de repente eu poderia ser do tipo que chama para um "teste do sofá", vai saber...);
- quiser conversar comigo pessoalmente e ficar falando um monte de coisas que não tem a ver com o trabalho (de repente, no meio da conversa profissional, falar: "você percebeu que emagreci 4 quilos?" - sem brincadeira, isso aconteceu de verdade e eu não sabia se era sério ou se era uma piada) ou tentando explicar como ele/ela é um(a) bom/boa profissional;
- me responder: "não, mas eu fiz um intercâmbio", quando eu perguntar "você tem formação em letras ou tradução?" (não consigo evitar, me dá uma certa aflição de gente que usa "fiz um intercâmbio" como sinônimo para "traduzo superbem"... bom, eu também posso ir pra Alemanha por seis meses ou um ano e, óbvio, não vou conseguir traduzir do alemão com uma qualidade mínima... às vezes traduzir bem não tem nada a ver com intercâmbio...);
- falar: "as pessoas dizem que faço um excelente trabalho" (ahã) - os tradutores mais top que conheço NUNCA me falaram/falam isso, pelo contrário, alguns às vezes comentam algo do tipo: "acho que se eu tivesse revisado pela segunda vez, ia ficar um pouco melhor" (sendo que o trabalho já estava muito bom);
- ligar se apresentando, perguntando se pode mandar currículo e se despedir mandando beijo (eu nem conheço você, querid@, de onde vem essa intimidade?);
- sempre ficar discutindo valor de lauda e/ou falando que tal editora paga XXX (mais que o dobro pela lauda), discutindo prazo e fazendo mil exigências para pegar o trabalho (da próxima vez, provavelmente, passarei o trabalho para outra pessoa e farei uma observação sobre esse comportamento na minha planilha, para que quem entrar no meu lugar quando eu sair saber que vai ter de ter paciência ao trabalhar com Fulano e Sicrana, se é que a pessoa vai querer trabalhar com esses tradutores);
- não seguir as instruções que coloco no e-mail (sempre aviso que é para deixar o controle de alterações do Word ativado, no caso do teste de revisão, para eu saber o que foi alterado, mas, mesmo assim, tem gente que ignora totalmente o meu pedido... bom, se não sabe ativar o controle, não me pergunta e faz do jeito que quer e bem entende, não serve para trabalhar comigo);
- apelar e escrever coisas do tipo: "pelamordedeus, preciso do dinheiro, preciso do trabalho, por favor, por favor" (eu leio esse tipo de coisa assim: "nunca trabalhei com tradução, não tenho formação na área, na verdade, nem sou lá muito competente, mas, pelamordedeus, preciso do dinheiro para pagar as contas"; tá, e adivinha quem é a palhaça que vai ter que refazer o seu trabalho depois? never jamais!);
- for formado em um curso qualquer, em uma faculdade qualquer, há vários anos, nunca trabalhou e de repente quer ser tradutor (a minha grande dúvida é: como pode alguém entre 25 e 30 anos nunca ter trabalhado?).

Para os currículos que acho válidos, passo um teste de tradução e outro de revisão. O teste de revisão de tradução é para avaliar o posicionamento crítico do candidato em relação à tradução (que apresenta vários problemas, de todos os níveis) e o de tradução é para ver a desenvoltura da pessoa com o texto e como ela resolveria algumas questões culturais entre o texto original e a tradução para o português. Depois de ver alguns testes, me dá vontade de promover uma campanha para trazer o curso de tradução da Unesp para São Paulo e/ou para a USP abrir um curso de bacharelado em tradução, porque às vezes me dá muito desânimo (aliás, acho um desperdício a USP oferecer todos aqueles idiomas e não ter graduação focada em tradução, sendo que aqui é o lugar, é a cidade em que há mais demanda de bons profissionais da área... fora que, entre outras coisas, os formados poderiam traduzir livros direto do russo, do chinês, do hebraico e de todas as línguas estranhas que ela oferece - olha o quanto a gente ganharia em conhecimento, vários mundos se abrindo e a gente podendo ler!). Bom, essa é a minha visão (muito pessoal), porque é fato: nem todo mundo pode pagar uma faculdade e muito menos uma boa faculdade de tradução por aqui... e trabalho tem, viu? De monte. Só que faltam bons profissionais.

Não me lembro de mais nada. Mas sei que muito mais está por vir e eu vou aprendendo a lidar com esses estranhos, os tradutores.

[Esse post vai ter continuação.]

2 comentários:

Crisão disse...

Ah minha cara... ah...
o seu olhar é muito parecido com o meu no início do processo de seleção. A diferença: com o tempo, vc percebe que NÃO PODE dar corda para essas pessoas. Por que? REGRA NÚMERO 1 (gente, de graça, nem vou cobrar): não pode ter dó. NUNCA!!!
Qunado vc aprender a não ter dó, 80% da sua dor de cabeça vai diminuir.
O restante será das surpresas -- quem têm! -- dos candidatos que passam por essa triagem inicial e, na hora H, mostram quem realmente são. Porque não adiantar mentir: eu descubro.
E vamos ver se eu escrevo... tô pensando. Tenho uma série de ideias germinando no meu cérebro.
Beijos!!!

aline naomi disse...

HAHAHAHA!

Tá bom, Cris! Vou lembrar sempre dessa regra número 1 (pela qual você nem cobrou).

Beeijos!