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sábado, 16 de janeiro de 2010

Cinco anos de PUC depois...

a escreve esse discurso.
Perdi a colação dela (estava freelando e não consegui terminar antes para poder vê-la e ouvi-la pessoalmente), mas depois ela mandou o discurso por e-mail. Amei. E vou postar, porque ela disse que tem vergonha de postar no blog dela, porque acha que não ficou tão bom (??!).

“Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?”.

Ah, se Carlos Drummond de Andrade soubesse que rotina precisamos levar para encontrar a tal chave...

O ônibus abarrotado. O trânsito na Cardoso de Almeida ou na Sumaré. As buzinas, os carros. A respiração ofegante e o suor. O cansaço da subida, à pé, pela rua Bartira ou do metrô Barra Funda até a Puc. O tic-tac tic-tac do relógio, a pressa. Não vai dar tempo? O oi para os colegas só de passagem. Depois de um dia inteiro de trabalho, a faculdade... e o cotidiano que tantas vezes impediu de notar a beleza do pátio do Benê. Ah, o pátio do Benê e a rampa! Quantas conversas e namoricos eles escondem? O Benê guarda silencioso o cigarro aceso, a música do intervalo. O morcego que rouba os frutos da velha árvore. A fila para tirar a xerox cinco minutos antes da próxima aula. Das discussões literárias às festas e aos debates do Jornalismo.

Na sexta-feira, já com os olhos pesados pela fadiga de toda a semana, sabia-se que os bares de Perdizes estavam cheios... mas jamais tão lotados quanto a aula de latim na sala 4CA. E, no sábado, enquanto alguns ainda estivessem retornando dos bares, aula de IPT, 7h30 da manhã, prédio novo. O corpo vai aguentar? “O pulso ainda pulsa”? Finalmente, o final de semana chegou para romper com o atraso de tantas tarefas. Ah se o Ana Rosa, ou o Butantã Usp, ou o Barra Funda passassem logo... Prova da Jac e do Everaldo. Seminário para as aulas da Lílian Passarelli e da Cida Caltabiano. Leitura para as aulas do Joaquim, da Sellan e da Juliana. “O pulso ainda pulsa”? Relatórios de estágio, atividades culturais. Como ir ao cinema, se é preciso escrever o TCC? Iniciação Científica. Monografia. Expectativa, ansiedade, cansaço. Edilene. Fernando Segolin. Maria Laura. Flamínia. Rosana Paulino. Jarbas. Cadu. Ana Salles. Isa. Quanta lembrança se dedicou a esses nomes e tantos outros? E quantas dessas lembranças roubaram nosso sono?

Todo esse frenesi, essa rotina louca, não foi movida apenas pela espera de um diploma e tão pouco pela sensação de estar com este chapéu quadrado na cabeça. A força motora de nosso dia a dia foi o amor pela palavra: a literatura, a linguística, a língua. Ela foi a certeza de que nenhum saber, ciência, religião, acontece fora da linguagem. Como nos ensina Roland Barthes, mudar uma língua é mudar o mundo, já que tudo no mundo acontece por meio da linguagem e não há cultura, nome ou definição sem a língua. A palavra para nós, formandos de Letras, é o instrumento de trabalho, o bisturi com o qual pretendemos curar parte do mundo que nos envolve.

Caros colegas, formando do curso de Letras noturno, agradeço por terem confiado a mim a responsabilidade de trazer uma mensagem em nome da turma. Certamente, sempre que se conclui uma etapa há muito o que dizer sobre ela. No entanto, há um ponto de vista muito específico, sobre o qual não falariam outros formandos de outros cursos de Letras. Trata-se do que representa termos sido, além de estudantes, puquianos. Ser puquiano é descobrir que a universidade não se restringe às salas de aula: ela é o pátio, o banco, a cantina. Ela é o café com o professor no Benjamin Abrahão, a conversa com o camarada da História, o diálogo com a turma de Filosofia, as horas no Centro Acadêmico ou no CEAL. A Puc é, como diria Cazuza, o clip sem nexo meio Bossa Nova e Rock’n Roll. Ela é o sarau no centro do pátio, a aula magna no Tuca, o telão improvisado no prédio velho, a bateria do Leão. Quanta poesia e história há nas paredes desta universidade? Quantas crônicas não poderiam ser escritas a partir dela?

A Puc é a manifestação em frente à reitoria, a greve que busca direitos, a luta por bolsas (tantas vezes concedidas). Ela é a certeza de que os motivos de cada reivindicação e cada palavra de ordem não se concentrariam em um vestido curto, porque a Puc é a nudez das meninas na Semana de arte Modesta, é a nudez da moça que recita Hilda Hilst, é a nudez dos que se vestem apenas com jornal e papel crepom para fazer campanha em Centros Acadêmicos.

Entre as paredes já desgastadas das salas de aula da Puc, estudamos muito mais do que gramática normativa: descobrimos o poder que há em se questionar as normas. Aprendemos a linha tênue que existe entre a padronização e a exclusão, pois o preconceito se dá, sobretudo, pela linguagem e pelas classificações que estabelecemos por meio de palavras que direcionamos a alunos, professores, amigos e a nós mesmos. Compreendemos que o reino das palavras é vasto, e elas vão nascendo em nosso pensamento sem elaboração, ultrapassando os limites da significação. Conquistam novos espaços e novas possibilidades de se apreender a realidade, a sociedade, o mundo.

Nesta universidade, avistamos que o poder da palavra é, portanto, enorme. O seu uso define o ser humano. Raramente, num momento de reflexão, ficamos livres da palavra em pensamento. Quando não dizemos nada para outros, estamos falando para nós mesmos. A fala é mais que um mero som e uma sequência de pensamentos: ela é uma frequência de vida humana.

A palavra absolve ou condena, elogia ou alvitra, ama ou odeia, decide ou duvida. A palavra, caros colegas, nosso instrumento de trabalho, determina se fomos aprovados ou reprovados, se estamos formados ou não. Tudo se dá por ela, porque até mesmo no silêncio há palavra, e todas essas coisas nós descobrimos aqui, nesta universidade.

Já formados, tendo vencido a louca rotina de uma grande universidade, nossa responsabilidade é grande. Como revisores, tradutores, professores e educadores, será preciso mais que corrigir, representar, ensinar. Será preciso cantar com Teatro Mágico: “quando alguém te disser tá errado ou errada, que não vai S na cebola e não vai S em feliz, que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X, acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”. Que a palavra configure nossas almas, no que ela tem de encantamento e revelação. Parabéns a todos nós, que encontramos a chave indicada por Drummond. Agora nós podemos dizer em voz alta que vamos, mas a PUC É NOSSA!"

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