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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mix de histórias e divagações...

Bom, essa semana tinha um monte de tradução e revisão que eu precisava receber/precisaria ter recebido de volta. Alguns trabalhos eram para ter sido entregues há umas três semanas, mas como eu estava de férias, meio que "liberei geral", joguei todas as entregas para agora. Porque, também, não tinha como cobrar os trabalhos bem antes da data combinada (trato é trato).

Daí comecei a ouvir/ler: "não vou conseguir entregar no prazo". E umas historinhas. Ainda não sei o que funciona. Odeio pressionar. Odeio ter que ficar cobrando. Não sei se o método do terror ajudaria: "Olha, se você não entregar no prazo, desculpe, mas não poderei mais passar trabalho para você. Ordens superiores". Implicitamente, são ordens superiores mesmo. O editor disse que eu tinha liberdade para dispensar quem eu achasse que devia, porque não queria saber de desculpas, queria o trabalho pronto e com qualidade o mais rápido possível e é isso. Se as pessoas começam a atrasar as entregas, o problema é meu, porque não estou selecionando as pessoas certas para os trabalhos (e o editor está certíssimo, ele está me pagando para isso). O meu maior problema é que os bons tradutores às vezes atrasam a entrega, mas mesmo assim acho que vale a pena continuar com eles, porque eles são BONS e como eu confio 100% no trabalho deles, a probabilidade de eu ter dores de cabeça até o fim do projeto é muito baixa. Alguns que são mais ou menos entregam na data, mas aí vem aquele trabalho mais ou menos e, às vezes, dá mais trabalho para os revisores, o que obviamente não é justo (e mais trabalho pra mim, também, porque se há trechos que o tradutor pulou na hora de traduzir ou se o tradutor fez uma tradução ininteligível, eu que me vire para resolver).

Bom, draminhas profissionais à parte, hoje ouvi duas historinhas.

Tradutor 1: "Estou ligando para dizer que houve um problema com o arquivo, acho que tem a ver com a queda de energia por causa das chuvas, por isso terei de refazer uma parte. Entrego, no máximo, na segunda." Salvar o que está fazendo em um pendrive a cada 5 ou 10 minutos e enviar o trabalho atualizado para o próprio e-mail de tempos em tempos vai bem, né, colega? Mas tudo bem, eu finjo que acredito que você perdeu e terá de refazer.

Tradutor 2: "Tive de parar uma semana, por isso talvez eu atrase a entrega, mas aí eu aviso. Vieram uns parentes em casa e não tinha condições de trabalhar."

Essa segunda história é bem plausível. Ainda mais em época de festas. Mas nunca saberei se é verdade. Bom, eu acreditei, porque esse tradutor entregou um outro trabalho com um mês de antecedência, é muito bom e muito rápido, então não mentiria, eu acho.

Aproveito para traçar um paralelo cultural entre brasileiros e japoneses, pegando um gancho nessa história que o tradutor 2 contou:

Ele disse que os parentes apareceram do nada na casa dele e ficaram uma semana acampados lá, não lavavam um prato, não ajudavam em porra nenhuma e exigiam atenção o tempo todo. Para a cultura japonesa, até onde sei, isso é totalmente fora da casinha. Se bem que, pensando bem, para alguns brasileiros esse comportamento também deve parecer totalmente fora da casinha... minha percepção cultural pode estar distorcida, mas os japoneses sempre têm essa preocupação de não incomodar os outros, de respeitar o espaço do outro, de não ser invasivos, em prol de uma convivência social mais harmoniosa.

Aproveitando, gostaria de citar um fato cultural brasileiro que para mim não é "normal": Fulano e Ciclana vão casar. Enviam o convite para um amigo e a família dele. Só que esse amigo e a família dele convidam os namorados dos filhos, os sobrinhos, os tios, os vizinhos e um monte de gente não relacionada aos noivos!! Por isso, agora, os convites de casamento vêm com "convites individuais" para a festa, né? E às vezes esse convitinho é mesmo cobrado na entrada, para evitar penetras. Para mim, é um comportamento "bárbaro", porque se a pessoa não foi convidada e nem sequer conhece os noivos, obviamente não é para ela ir. [Por isso me senti meio mal quando a Vi me convidou para ir pro casamento de umas amigas dela, logo que vim para SP. Fiquei curiosa porque eu nunca tinha visto um casamento de meninas, mas, por outro lado, eu nem conhecia as noivas! Tipo, uma situação chata. Acabei indo, porque ela disse que pediu/avisou para as noivinhas e elas disseram que tudo bem eu ir, mas para mim é estranho, eu não me sinto bem, porque é como eu estivesse invadindo um espaço que não me pertence... Mas, no fim das contas, foi o melhor casamento que já vi: não tinha padre chato falando por uma hora na igreja, as pessoas foram vestidas à vontade - eu e Vi fomos de All Star! -, conversaram, beberam, comeram (comida boa!), dançaram. As noivas eram lindas e falaram coisas lindas antes de cortar o bolo - que era branco e tinha duas noivinhas em cima =); por motivos de privacidade, não vou contar quem são, mas gosto muito delas.

Talvez por isso a comunidade japonesa seja ainda um pouco "fechada" (eu prefiro definir como "reservada") em certo sentido, porque alguns comportamentos brasileiros são "bárbaros" e não fazem sentido ou perturbam demais e ter de conviver com esses comportamentos talvez seja torturante. Tenho a impressão de que os descendentes de japoneses mais antigos acham os brasileiros em geral "folgados" e "acomodados", estão sempre querendo dar um jeito de não se responsabilizarem, sempre querem que algum tipo de ajuda caia do céu, e acho que isso, para os japoneses, é meio humilhante - é humilhante, por exemplo, ter de pedir ajuda financeira (seja para parentes, seja para o governo), porque isso talvez denuncie uma certa incapacidade pessoal (?), o que é problemático para uma sociedade que cultua o sucesso.

Provavelmente sempre terei algumas dificuldades de adaptação cultural. Nunca serei totalmente brasileira. Nunca serei totalmente japonesa. Tenho certeza de que quando eu for pro Japão me sentirei estranha também e os japoneses terão a impressão de que sou uma "bárbara" por ter traços orientais mas não me comportar conforme o esperado. Onde acho meu lugar no mundo?

2 comentários:

Adriana Amaral disse...

não sou japonesa, mas concordo plenamente contigo. é uma invasão isso rs

aline naomi disse...

;D