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sexta-feira, 2 de abril de 2010

O aborto dos outros - Carla Gallo

Comprei o DVD desse documentário há algum tempo e vi hoje de manhã, depois de "Sex and Philosophy".

O DVD veio com um encarte falando sobre o filme e também um pouco sobre o aborto no Brasil e no mundo. Quis ver esse filme para ter uma ideia do que mulheres que passam por essa situação pensam e sentem, porque é uma experiência pela qual eu provavelmente nunca passarei.

Gostei bastante do documentário, foi muito bem produzido.

Entre as várias histórias, duas me marcaram mais: uma, de uma menina de 13 anos que foi estuprada quando estava indo para a escola, não contou nada para a mãe, porque o agressor ameaçou matá-la se ela contasse, e só descobriu que estava grávida quando a mãe a levou para o médico, porque fazia 4 meses que ela não menstruava. Ela optou por abortar, com autorização judicial e depois de passar por uma avaliação multidisciplinar de vários profissionais de saúde de um dos hospitais no Brasil que realiza o aborto legalizado. Outra história é de uma mulher que optou por interromper a gravidez, porque era violentada pelo marido. Ela contou que se casou com 18 anos, teve um filho, só que, depois de um tempo, o casamento foi esfriando e, quando ela falou em divórcio, o marido não aceitava e fez a seguinte proposta: ele daria o divórcio para ela se ela transasse com ele toda vez que ele quisesse e, no desespero para conseguir o divórcio, ela aceitou, só que, segundo ela, foi um pesadelo, ela chorava e, mesmo assim, ele continuava a fazer sexo com ela. Numa dessas vezes, eles transaram sem camisinha, ela não percebeu e acabou engravidando; contou para o marido, porque não queria aquela criança e esperava que ele a ajudasse de alguma forma - além de não ajudar, ele a ameaçou de denunciá-la se ela fizesse o aborto. Como se não bastassem os agressores diretos, também existem os agressores indiretos: profissionais da saúde e das leis que simplesmente não se importam, não acreditam nas histórias de violência, não se movem para fazer o trabalho que deveriam fazer.

Acho que nem é preciso dizer que o documentário me deu mal-estar. Ainda me admiro com a capacidade que as pessoas têm de provocar dor umas nas outras. Às vezes a dor é involuntária e não-intencional, mas, às vezes, é totalmente consciente e eu não entendo o prazer que vem disso.

Lembrei de uma entrevista com o Saramago que li ano passado, em que ele falava um pouco sobre "Ensaio sobre a cegueira"; no livro, só uma personagem, uma mulher, consegue enxergar, quando todos os outros personagens perdem a visão. Ele diz que escolheu uma mulher para enxergar, porque é como se ela representasse todo o peso que a mulher vem carregando ao longo da história. Por enxergar, ela presencia todo o horror e todo o caos de que o ser humano é capaz - o livro dá muito desespero, porque os personagens parecem regredir a um estado de selvageria total - que é o que somos em essência, quando não somos educados/não nos educamos para nos tornarmos outra coisa?

Uma parte do que veio no encarte:

"O Aborto dos Outros" é um filme sobre a mulher que vive a experiência do aborto.
Não é um filme sobre a bíblia, a filosofia, a metafísica.
É um filme sobre maternidade, afetividade, intolerância e solidão.
E sobre nossa realidade matemática: no Brasil, 1 a cada 4 gestações é interrompida voluntariamente. São mais de 1 milhão de abortos por ano.
Apenas recentemente os hospitais públicos do país começaram a cumprir uma lei que é de 1940: no Brasil o aborto é legalizado para casos de gestações resultantes de estupro ou em casos em que a mulher corre risco de vida.
Há uma terceira opção, eventualmente autorizada judicialmente, que são as gestações em que o feto possui uma má-formação grave e não sobrevive fora do útero da mãe.
As filmagens ocorreram em 4 hospitais públicos que possuem atendimento para casos previstos em lei, o "Programa de Aborto Legal": Hospital Pérola Byington, Unifesp, Unicamp e Hospital do Jabaquara. Além dessas instituições, foram colhidos depoimentos de mulheres e profissionais de saúde em diferentes locais do Rio de Janeiro e São Paulo.

O site oficial do filme é este.

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