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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um dia muito especial - Mohsen Makhmalbaf

Eu já tinha comentado levemente sobre esse filme em algum post anterior. Descobri por acaso, pesquisando outra coisa, há algum tempo, no trabalho. O título original é "Sex and Philosophy" (título muito mais instigante que "Um dia muito especial").

Uma curiosidade: o filme é falado em tadjique e, às vezes, o personagem principal também fala em russo. (Eu nunca tinha ouvido tadjique na vida!)

O filme abre com o personagem principal, Jân, dirigindo com velas acesas na parte frontal do carro. Ele faz 40 anos naquele dia e liga para as quatro amantes, pedindo para que elas o encontrem na escola de dança onde ele é o professor (elas são alunas dele). As mulheres vão e então ele conta que dividia o tempo dele com as quatro. Ficamos sabendo como a história com cada uma começou (menos com a mulher mais velha) e ele diz quanto tempo de felicidade ele teve com cada uma delas - ele marca o tempo em que o coração dele batia mais forte com um cronômetro. Mais tarde, a amante mais velha o convida para ir à casa dela e, chegando lá, surpresa: ela tinha mais três amantes além dele e, como ele, ela diz: "Hoje estou começando uma revolução contra mim mesma".

É uma reflexão sobre sexo, relacionamentos, pessoas, e a fotografia é linda! Tem uma hora em que uma das personagens fala: "Meu corpo pertence a quem conquista a minha alma", meio clichê, mas eu gostei ;) E Jân repete sua opinião sobre o amor várias vezes: "O amor é o resultado de várias trivialidades"... para uma das amantes, ele diz que, se no dia em que se conheceram, ele não tivesse ouvido um poeta, se ela não tivesse brigado com o namorado e se ele não tivesse se apaixonado pelo jeito dela de caminhar, nada daquilo que viveram teria acontecido.

Eu recomendo!

Pesquisando, encontrei a biografia do diretor, Mohsen Makhmalbaf, aqui na Wikipedia. Só tem em inglês. Se um dia eu tiver tempo, eu vou traduzir e disponibilizar em português, porque fiquei admirada. Ele também dirigiu o filme "A caminho de Kandahar", no Afeganistão - eu assisti a esse filme faz tempo, só lembro de uma cena em que próteses para pernas caíam do céu, jogadas de um helicóptero (ou talvez eu tenha imaginado)... acho que no Afeganistão há muitas minas terrestres e as pessoas perdem pés e pernas direto. Não lembro se tenho o filme na casa dos meus pais, mas, se tiver, quero rever. Mohsen é iraniano, sua esposa e seus filhos também são cineastas. Quando tinha 8 anos, começou a trabalhar para sustentar sua mãe. Quando tinha 17 anos, tentou desarmar um policial (estava envolvido com questões políticas), foi baleado e preso. Ficou quatro anos e meio na prisão e, nesse período, leu e aprendeu muito e, quando saiu, preferiu se envolver com arte, especialmente o cinema, e deixar a política um pouco de lado. Antes de filmar "Kandahar", viajou para o Afeganistão, onde tomou conhecimento do horror que as pessoas viviam lá e começou campanhas para melhorar/amenizar a situação. Conseguiu que as crianças afegãs estudassem no Irã, por exemplo.

Incrível como algumas pessoas conseguem transformar uma experiência ruim (ou várias delas) em coisas maravilhosamente boas. Mohsen podia ter saído da prisão revoltado, ter virado homem-bomba ou sei lá o quê. Mas ele optou por uma revolução intelectual, por retratar beleza/dor em imagens, por não se conformar com situações indignas impostas por regimes políticos e também por ajudar as pessoas.

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