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domingo, 11 de julho de 2010

Cartas a um jovem tradutor - parte 4

Mais sobre o curso de tradução da Unesp.

Muita gente me pergunta: "Além das línguas, o que você estudou? O que mais o curso oferece?". Bom, literatura da língua principal (literatura inglesa e norte-americana, para quem é de inglês, e francesa, para quem é de francês - infelizmente, pelo menos na minha época, não se estudava literatura franco-canadense, então, para tentar suprir essa deficiência, no último ano, como estágio, traduzi uma parte de um livro de literatura franco-canadense), cultura inglesa/norte-americana ou francesa, prática de tradução das línguas escolhidas a partir do segundo ano (achei bizarro começar a traduzir do francês e do italiano no segundo ano, sendo que ainda não tínhamos conhecimento solidificado das línguas - inglês e espanhol muita gente entra sabendo, mas francês e italiano, não! -, mas foi muito bom porque nos forçou a começar a pensar em várias questões tradutórias, discutir essas questões com colegas e com as professoras em sala de aula e misturar nossas dúvidas e questionamentos com outras matérias que estávamos estudando), latim no primeiro ano (para mim, uma perda de tempo...), introdução à linguística (peguei DP e fiz dois anos essa matéria e até hoje não sei explicar para que serve, sorry!), sociolinguística (eu adorava essa matéria!, em que a professora falava sobre sotaques, adaptação cultural na tradução, regionalismos linguísticos (como traduzir e deixar um texto "neutro", que possa ser lido e entendido de norte a sul do Brasil?), etc.), estágio obrigatório na língua principal nos dois últimos anos (tem que traduzir x laudas no terceiro ano e x+y laudas no quarto ano - não lembro quantas...), na área que o aluno escolher, sendo que a maioria do pessoal escolhe algo da área técnica (medicina, engenharia, informática, arquitetura...), eu escolhi traduzir literatura francesa no terceiro e literatura franco-canadense no quarto. É, eu gosto de literatura, mesmo não sabendo para que serve :). Tem também "introdução às normas de tradução", em que aprendemos a parte "técnica" do trabalho: o que é lauda, diferença entre lauda de tradução técnica e literária, espaçamento, margens, marcações de revisão (isso foi superútil quando fui para o meio editorial, porque pelo menos já tinha noção do que era), teoria da tradução, teoria da literatura, cultura brasileira, prática de redação em língua portuguesa, prática de redação em inglês ou francês. Vendo a grade curricular, também tive "semântica e pragmática" (???) e "estilística da língua portuguesa" (??), que eu não lembro o que são, não lembro das aulas, lembro vagamente dos professores.

Como não temos literatura da língua secundária (espanhol e italiano), se os professores permitirem, tem como estudar literatura espanhola/latino-americana ou literatura italiana com o pessoal de letras do curso noturno. Eu e a Andreza pedimos para a Celeste (a melhor professora de italiano do mundo!) deixar a gente estudar literatura com ela quando estávamos no terceiro ano. Aí, quando tinha aula com o pessoal do noturno, eu ficava literalmente o dia inteiro na faculdade.

Abaixo vou listar os pontos positivos e os pontos negativos do curso. Isso é MUITO pessoal. Se perguntarem para os meus amigos/colegas de sala e colegas de curso, eles provavelmente dirão coisas diferentes. É a MINHA opinião e visão sobre o curso.

Primeiro, os

PONTOS POSITIVOS:

- o curso é muito bom - não é perfeito, mas é muito bom (pelo nível dos professores e porque esses professores atuam em diversas linhas de pesquisa - então, quem se interessa tem condições de começar a pesquisar desde a graduação, pedir bolsas, etc.);
- oferece duas línguas na grade;
- o curso é integral - das 8h às 18, com intervalo para almoço, em geral, das 12h às 14 e às vezes tem algumas "janelas" no horário -, ou seja, a carga horária de aulas é absurda, e é impossível se formar sem ter um mínimo de noção do que foi ensinado;
- engloba muita cultura e exige que o aluno adquira um mínimo de conhecimento de mundo;
- para quem gosta de literatura e já entra pensando em trabalhar nessa área, é um prato cheio;
- possibilidade de intercâmbio para alguma universidade estrangeira com que a Unesp mantém convênio ou possibilidade de estágio no consulado da França (não sei se isso continua e/ou se estendeu para os outros idiomas, mas o pessoal da minha sala que conseguiu estágio no consulado gostou muito da experiência);
- como tem gente de todo canto do país estudando lá, dá para ter uma certa troca cultural/regional - é claro que eu gostava! :);
- não sei se ainda tem, mas, no último ano, já quase no fim do ano, era feita uma avaliação com o coordenador do curso e alunos e falávamos tudo que queríamos (do que gostamos, do que não gostamos, dávamos sugestões, fazíamos críticas, etc. - lembro que uma sugestão polêmica que alguém da minha sala deu foi: "Por que não aumentar um ano do curso para termos aula de interpretação?", ainda bem que a maioria não concordou; para mim já foi um inferno passar 4 anos integral lá, imagina ter um quinto ano de interpretação, que eu nem queria fazer?!?!);
- NÃO TEM MENSALIDADE, além dos impostos que a sociedade paga para que a instituição seja mantida, para que nós fôssemos mantidos lá.

PONTOS NEGATIVOS:
- fica a 5 horas da capital do estado e não tem como fazer estágio na área (enviei vários currículos para editoras em São Paulo quando estava na graduação e ninguém me respondia - se eu estivesse na USP, tenho certeza absoluta de que me chamariam para pelo menos fazer testes para trabalhos freela ou estágio);
- o curso parece estar meio parado no tempo e não condiz com a realidade do mercado, de quem vai trabalhar com agências de tradução e precisa usar softwares de tradução ("TRADOS? Che cazzo será isso?" - não é uma crítica, é um apontamento, porque foi o que pensei quando saí da faculdade, agora, pelo menos, as pessoas vão ter noção do que são CAT tools, porque acrescentaram uma matéria sobre isso na grade - ou pelo menos espera-se que a matéria dê essa visão panorâmica sobre as necessidades do mercado);
- o fato de o curso ser integral pode ser negativo para quem precisa trabalhar para se manter em Rio Preto (eu tinha colegas que faziam tripla jornada: estudavam de manhã e à tarde e davam aula à noite - não me perguntem como davam conta de escrever trabalhos e monografias);
- não sei como é agora, mas espero que tenha melhorado: não tive livro didático como apoio para estudar francês, porque a professora achava que não era necessário (???), então eu e colegas tivemos uma certa dificuldade para "pegar no tranco" e aprender; chegamos a conversar sobre a necessidade de um livro com a professora, mas ela bateu o pé e disse que não era necessário (estudei/estudo inglês, espanhol, italiano, japonês, alemão e tcheco e todos os professores adotaram/adotam livros!) e algumas coisas nas aulas de francês para mim foram traumáticas;
- vários professores não admitem críticas (mesmo que construtivas) ao curso nem à instituição;
- o curso é inespecífico - sinto que para quem vai trabalhar com tradução literária, beleza, mas para quem vai trabalhar com tradução técnica, bom, o curso não oferece muita estrutura para nenhuma área técnica específica (por isso fui fazer odonto depois, para tentar me especializar em algo).

Pontos positivos da universidade em geral:

- tem vários cursos, então tem como interagir com pessoas diferentes, que falam sobre assuntos diferentes;
- tem (tinha?) coral, com uma regente especialmente contratada para dar as aulas;
- tem (tinha?) sessão de filmes cult toda semana, na hora do almoço, chamada "Cine Boitatá";
- ônibus grátis para congressos e viagens com finalidades específicas (por exemplo, encontro de corais em outros campi);
- tem (tinha?) RU (restaurante universitário);
- bibliotecas da USP, Unesp e Unicamp interligadas (na época estava em implementação, mas poderíamos emprestar livros de qualquer campi das três unis públicas do estado);
- ou seja, quem quer consegue sair de lá com um conhecimento para ser tradutor e também com uma cultura geral muito boa por causa dessas atividades extra-curriculares.

[Continua...]

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