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domingo, 11 de julho de 2010

Cartas a um jovem tradutor - parte 5 (final)

Depois de me formar, como a maioria dos colegas, fui dar aula de idiomas (inglês e italiano). Fiquei por uns dois anos nessa vida e vi que não era isso que eu queria e, quando pude trabalhar só com tradução (agências de tradução), deixei as aulas. Meu negócio era texto mesmo.

A maioria das agências de tradução trabalha com textos técnicos e com prazos apertados. Dá para ganhar um certo dinheiro, mas também é preciso abrir mão de algumas coisas, como, por exemplo, tempo de lazer e sono - não para sempre, mas, no começo, será preciso aceitar determinadas condições, porque se começar a "reclamar" demais, a agência provavelmente vai deixar de passar trabalho (por exemplo: "não trabalho no fim de semana, não trabalho depois das 18h, só trabalho depois das 10h, não trabalho às terças e quintas, etc.").

Das agências, eu gostava de traduzir os textos da área da saúde e, por isso, fui estudar odonto - para "afunilar" e apurar meus conhecimentos sobre uma área específica e depois poder cobrar o quanto quisesse por lauda... mas aí comecei a trabalhar em um convênio odontológico e não tinha mais tempo para traduzir. Comecei a me perder. No ano em que entrei em odonto (curso noturno da Unesp), o curso passou de cinco para seis anos. Era uma vida. Eu já não sabia se valia a pena. Depois de morrer três vezes, pedi as contas no convênio, tranquei o curso e mandei currículo para agências de tradução e editoras em São Paulo. Eu queria ir para São Paulo (já que o plano de trabalhar em navio de cruzeiro não deu certo - para o alívio dos meus pais... haha).

Comecei a trabalhar na Madras como revisora e, um mês depois, a Lana saiu, e me ofereceram o cargo dela (tradutora, coordenadora de tradução/revisão, assistente editorial, foreign rights, etc.). Fiz um pouco de tudo, ralei bastante, aprendi bastante, e gostei da área.

E hoje gosto de trabalhar com livros; traduzir e revisar livros (além de cuidar da produção) faz mais sentido que trabalhar com textos soltos sobre assuntos técnicos - eu tinha um certo pavor dos textos de engenharia e informática, porque exigiam muita pesquisa e, por não dominar os assuntos, acabava sendo muito cansativo.

Que eu saiba, só eu e a Carol, com quem me formei, trabalhamos diretamente com tradução. Outros amigos/colegas estão trabalhando com várias outras coisas e talvez façam tradução de vez em quando. Alguns continuaram estudando, foram fazer mestrado, doutorado e dão aula em universidades particulares; outros foram fazer pós em outras áreas (comércio exterior, secretariado, relações internacionais); outros fizeram outra graduação (eu também tentei! :), a Sábris, gastronomia, a Gabriela, direito, o Cássio estava fazendo ciências sociais na USP. Um ou dois devem ter passado em concursos públicos e não sei se estão aplicando o que aprendemos no dia a dia de trabalho. Não sei o quanto os outros 30 colegas com quem me formei e que não trabalham na área realmente queriam ter feito o curso, gostaram do curso e se tinham a intenção de trabalhar como tradutores mesmo e/ou se até queriam trabalhar na área mas não conseguiram. Aliás, mandei um projeto de mestrado para a Unicamp no fim do meu último ano de graduação porque queria pesquisar mais ou menos isso: "o quanto a faculdade de tradução é válida? [já que a maioria do pessoal vai fazer qualquer outra coisa depois de se formar...]". Eu queria saber o que acontece com as pessoas depois de formadas, qual a porcentagem de "evasão", quantos persistem e entram/continuam atuando na área, a qualidade dos cursos oferecidos, o que poderia ser melhorado. Feliz ou infelizmente, meu projeto não foi aprovado, aí segui outros rumos. E, sim, eu fazia questão de fazer o mestrado na Unicamp. Nem tentei pós na Unesp porque eu não queria/aguentava mais ficar lá - provavelmente acabaria cortando os pulsos antes de apresentar a dissertação, caso o projeto fosse aprovado.

***

Quando eu estava na faculdade, ouvia falar muito bem dos cursos de tradução da Unibero e da Alumni em São Paulo. A Bianca, revisora lá da Madras, uma das melhores profissionais da área que conheço, se formou pela Unibero, mas disse que a uni foi comprada pelo grupo Anhanguera há alguns anos e não sabe como está a qualidade do curso agora (e eu prefiro não comentar o que ouço falar dessa Anhanguera aqui em São José). Fiquei muito chateada porque é bem provável que a qualidade de ensino não vai ser a mesma. Não conheci ninguém da Alumni por enquanto. Ah, a Bá, que trabalhou na Madras, fez a licenciatura e o bacharelado em letras em 5 anos na PUC e disse que o curso foi bom, embora ela não saiba dizer como o curso vai ficar agora. Fiquei surpresa porque a PUC oferece (oferecia?) francês como opção de língua estrangeira; a Bá fez francês.
A maioria dos tradutores que conheço em São Paulo é formada pela USP. Embora o curso de letras oferecido lá não seja específico para tradução, as pessoas têm muita noção do que fazem.

Cursos de tradução em universidades públicas Brasil afora (porque o que é bom e sem custos adicionais deve ser divulgado!):

Unesp - Universidade Estadual Paulista - São José do Rio Preto, SP - 4 anos, integral. Idiomas: inglês, espanhol, francês e italiano.
UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre, RS - 9 semestres, "manhã e tarde" (não sei se o curso tem aulas de manhã E à tarde ou se as aulas acontecem só de manhã ou só à tarde). Idiomas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e japonês. [Eu quero voltar no tempo e ir estudar tradução de japonês na UFRGS!! =P - bizarro ter opção para tradução de japonês em Porto Alegre (??) e não ter na USP... ou na Unesp que fosse...]
UnB - Universidade de Brasília - Brasília, DF - Número de semestres: 6 (mínimo) / 14 (máximo). Recomendado: 8 e não encontrei os horários do curso. Idiomas: inglês, francês e espanhol. [Também oferece: japonês, chinês, italiano, persa e alemão, mas parece que só para a licenciatura (?) ou não sei se teria como puxar algum outro idioma para cursar paralelamente ao idioma de habilitação (inglês, francês ou espanhol) - o site da UnB é confuso! Depois falo com o giu, que estuda lá, e coloco mais informações sobre o curso aqui...]
UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto - Ouro Preto, MG - [Não estou conseguindo abrir o arquivo em .pdf deles; depois coloco mais informações!]
UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora - Juiz de Fora, MG - Semestres: Mínimo: 06 / Médio: 08 / Máximo: 14. Não encontrei informações sobre o horário do curso, mas vi que há matérias em comum com o curso de bacharelado em letras e, pelo que entendi, a ênfase em tradução é opcional. Idioma: inglês.

Também encontrei essa lista da Abrates (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes).

***
Esse post já está gigantesco, mas queria dizer só mais uma coisa: a profissão de tradutor não é regulamentada, ou seja, qualquer um pode traduzir. Como uma jovem tradutora, e pela experiência que tive até agora, posso dizer que o próprio mercado acaba fazendo a seleção dos bons profissionais (formados ou não). Em São Paulo, percebo que as agências e as editoras buscam por profissionais formados na área, o que já é um avanço.

3 comentários:

Karen disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Min disse...

Adorei as 5 partes! :D
Eu, que estudo tradução, concordo contigo quanto a faculdade acrescentar muito e tal.
Well, não sei se continuarei a trabalhar com tradução, ou não... Afinal, a vida é uma caixinha de surpresas. Heheheh!
Beijo e saudades, linda!

aline naomi disse...

Oi, Karen!
Olha, tem que ter muita força de vontade para estudar em Rio Preto, viu? Não entendo por que deixar um curso desses por lá, em vez de oferecer agronomia, por exemplo, que combina muito mais com o mercado de trabalho da região.
Ah, sim, nem se sinta pressionada por eu ter mandando os contatos :), eu sempre acho que as coisas se acertam quando fazemos o que achamos que devemos fazer na hora certa. Qualquer coisa, se eu puder ajudar, dá um alô!

Beijo!

***

Min,
que desperdício você estudar tradução e não usar nada depois! Haha! =P Estou brincando, mas é que sinto uma alegria inexplicável quando vejo colegas trabalhando na área, sabe? Acho que é uma sensação do tipo "que bom que não estou sozinha" ou "que bom que a pessoa acertou na profissão e faz o que gosta".
Beeijo!