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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Como me tornei estúpido - Martin Page


Terminei de ler esse livro que a Lu me deu em dezembro de 2007 ontem; não, não era indisposição, mas fiquei vários anos sem ler o que eu queria e gostava, agora estou retomando. Ler livros no ou para o trabalho não conta, porque quase nunca significa ler por prazer, é só trabalho mesmo - seria trabalho-prazer se eu trabalhasse na Cia. das Letras ou na Cosac ou outra que publicasse ficção estrangeira de boa qualidade...

Bom, o livro é a história de Antoine (se lê "Antoane"), um jovem de 25 anos, que um dia não suporta mais viver na sociedade atual e, para sobreviver, decide se tornar estúpido, porque, para ele, a inteligência é uma doença. Reúne seus amigos em um restaurante islandês e lê um "manifesto" em que explica por que tomou essa decisão e também conta que antes disso tentou ser alcoólatra (mas, depois de meio copo de cerveja, entrou em coma alcoólico - haha!) e suicida (participou de uma reunião de suicidas, mas chegou à conclusão de que aquilo não valia a pena).

Seus amigos ficam meio desapontados e, posteriormente, se afastam, pois não conseguem mais conviver com ele. Mas, prosseguindo à decisão de se tornar estúpido, Antoine se desfaz de todos os livros que ele tinha em casa, das reproduções de pinturas famosas, instala uma televisão na sala, coloca pôsteres de filmes nas paredes, um amigo lhe arranja um emprego em uma corretora de ações e ele passa a desejar (ou fingir desejar) bens de consumo como carro caro, produtos high tech, roupas de grife, além de conviver com pessoas que compartilham desse mesmo pensamento - um dia ele derrama café no teclado do computador e, de modo acidental, ganha muito dinheiro com comissões, dessa forma, pode comprar o que quer.

É um livro inteligente e bem humorado com toques surrealistas, que me faz pensar que quando nos perguntamos: "Por que estou fazendo isso?" e não sabemos muito bem a razão ou "porque todo mundo faz", é porque já nos tornamos meio estúpidos.

Quando li a passagem em que Antoine tenta se tornar alcoólatra para fugir da realidade, lembrei de quando tomei meu primeiro e único porre, aos 18 anos, em uma festinha em uma república de um pessoal da faculdade. Todo mundo estava bebendo e eu, pra variar, me sentindo a mais deslocada. Ok, vamos beber, pensei, quem sabe a realidade pareça mais divertida, porque todo mundo está bebendo. Nunca tinha bebido e naquela noite bebi horrores, aí ninguém podia falar um "a" comigo que eu começava a dar risada (!), mas eu estava me sentindo menos pior drogada, supostamente parte de tudo aquilo. Depois de um tempo, dormi no tapete da sala e já era de madrugada quando eu, Fernanda (?), João e Carpete voltamos pra casa (eu morava em uma pensão na época). Lembro que andava pelas ruas desertas, o Carpete me segurando pelo braço, e pensava: "Se ele me largar agora, vou dormir na calçada, porque não tenho forças para fazer nada". E tive uns "apagões" também - de uns trechos do caminho não lembro e nem de como consegui trancar a porta da casa. Vomitei tudo na privada do banheiro e depois fui dormir. Acordei bem no dia seguinte, mas me prometi que nunca mais iria a lugares em que precisasse beber para me sentir bem e confortável. E, nessa conversa comigo mesma, também me disse que não tinha problema eu não gostar do que todo mundo gostava ou fingia gostar, eu não precisava ser igual a todo mundo e fazer tudo igual para ser aceita ou para gostarem de mim. E, apesar de ter evitado todas as outras festas "superlegais" do gênero, surpreendentemente, colegas de classe não me achavam antissocial e fiz grandes amigos ao longo do curso.

A minha saída de sobrevivência é conviver com pessoas que me agreguem, não me obriguem a fazer coisas que não quero, incluindo ser e pensar como elas, que sejam leves. Não sinto remorsos de cortar relações com pessoas possessivas, doentias, grosseiras, que só reclamam, criticam, que são dependentes, deprimentes, que fazem chantagem emocional, que se acham donas da verdade, pessoas que me dão vontade de morrer. Tenho fome de pessoas que me dão vontade de viver, isso, sim.

3 comentários:

Karen disse...

Assino embaixo.

Luciana disse...

Que bom que gostou!
J'ai aimé le billet.

.:*Mandy*:. disse...

Também assino embaixo.
Embora nunca tenha ficado de porre, hehe