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sábado, 18 de dezembro de 2010

Vegana

Deu tempo de chegar no Belas Artes e ver Vegana. A Yuri tinha chegado antes e pegou ingressos pra mim e pra ela (obrigada, Yuri, você é legal ;).

Não sei que expectativas criei em relação ao filme (na verdade, são 12 curtas de animação), mas não gostei tanto, talvez por ter um ar meio dogmático e doutrinário, embora eu também não saiba se tem como falar de veganismo sem ser chato. Em geral, acredito que a melhor forma de influenciar as pessoas positivamente é 1. por atos (não ficar falando, mas simplesmente fazer como achamos melhor/mais certo e, porque agimos de uma determinada forma, as pessoas se questionam e, se concordarem, passarão a agir da mesma forma) 2. mostrar evidências e a pessoa concluir o que é certo ou melhor ou mais justo por ela mesma. Só que admiro demais pessoas que levantam a bandeira pelo que acreditam (mesmo tendo de "incomodar" e ser chatas) e vão até o fim por isso - imagino que as pessoas perdem muitos amigos e, dependendo do grau de engajamento pela causa, até ganhem inimigos, quando se tornam veganas porque o lado social muitas vezes gira em torno da comida e, por enquanto, a maioria das pessoas é carnívora. Considerando que 99% dos lugares serve comida com carne ou algum ingrediente de origem animal, veganos ficam meio sem opção e imagino que comecem a evitar sair para comer em grupo misto.

Tudo que é mostrado nas animações é verdade, mas a forma com que é mostrada é chatilda. São vídeos mais para sala de aula.

Me questiono se uma dieta vegana (sem carnes e nem produtos derivados de animais - ovos, leite, queijo...) é realmente saudável. Tem que haver um equilíbrio entre ética e saúde. Não faria sentido adoecer acreditando em uma filosofia que faz bem à mente, mas que é prejudicial ao corpo (ou vice-versa). Preciso ler, preciso me informar.

O filme é dirigido pelo Airon Barreto, e foi lançado pelo Instituto Nina Rosa - a Nina Rosa estava lá, agradeceu a presença de todos (a sala lotou) e fez um pequeno discurso antes da projeção do filme. O filme, dividido por "capítulos", está todo no Youtube - clique aqui - e a Nina disse que pode ser copiado e usado livremente.

Vendo Vegana, entendi por que me incomodam os zoos e circos com animais, entendi racionalmente por que sinto uma angústia sempre que as pessoas se animam com esses passeios. E também por que me espanto quando minha mãe fala, chocada: "os chineses comem cachorros!" e eu respondo: "e a gente que come vaca e porco?". É porque, para mim, dá tudo na mesma: cachorro, gato, coelho, vaca, porco. Os animais têm o direito de viver, assim como a gente; eles supostamente não têm uma "inteligência humana", não falam, mas têm esse direito. É por isso que me sinto mal e tenho crises de consciência. Viajando mais um pouco, fiquei pensando nas pessoas que "dominam" outras, que não as deixam viver em paz, que as torturam. Não é normal. Me dei conta de que o quanto mais livres deixamos as pessoas e os animais, mais conquistamos a nossa própria liberdade - é uma das minhas formas de amar, é uma das minhas formas de entender o amor (embora um amigo tenha dito que o amor não é para ser entendido, só sentido: a lição mais valiosa que ele me deixou). Amo pessoas e animais e não quero que eles sofram, simples assim.

O filme me fez lembrar do conto O Búfalo, da Clarice Lispector. É a história de uma mulher que vai para um zoológico, aí ela vai falando sobre a experiência e as sensações provocadas pelos animais e pelo ambiente ao redor. Esse conto me dá angústia. Pode ser lido na íntegra no blog Clarice Lispector.

"A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico."

"A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava."

"E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos."

Trailer do Vegana:



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