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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Oficinas literárias djá!

A revisão do livro está caminhando muito lentamente, por motivos que colegas já devem adivinhar, e me ocorreram duas ideias - uma racional e outra mais passional. Vamos à racional primeiro. [Eu deveria estar dormindo a essa hora (são quase duas da manhã), mas como estou inquieta, vim escrever.]

A questão que não se cala:

Por que autores nacionais escrevem mal?

Vira e mexe isso era discutido nas editoras e por colegas do meio. Depois de algumas piadas, eu tentava descobrir se haveria uma solução para isso, porque, eliminando a raiz do problema, tudo seria menos estressante depois.

A Sandra, com quem trabalhei, comentou que devia ser porque não temos programas que incentivam a escrita no país, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, por exemplo (fui pesquisar, joguei "writing program" no Google e, aparentemente, há mesmo muitas "oficinas literárias" - como eu denominaria aqui no Brasil - por lá; essa aqui da NYU parece ser muito boa). Aí também tem a problemática de pessoas formadas em diversas áreas se acharem escritoras. Ok, não sou purista, quem quiser ser escritor e publicar um livro, vai fundo, só que, como as pessoas não têm muita noção de ortografia, gramática, sintaxe, semântica, não passam nem o corretor ortográfico no arquivo em Word, etc, imagina só como vem o texto. Não sou A ESCRITORA para criticar obras alheias, mas vírgula entre sujeito e predicado é uó.

Nesse momento, o problema parece se bifurcar:

- editoras não selecionam direito o que vão publicar?
ou
- escritores/aspirantes a escritores não têm subsídios para escrever de um modo, no mínimo, razoável?

Achei isso, escrito pelo João Silvério Trevisan:

- Literatura é antes de tudo texto. A prosa brasileira em geral não se preocupa com o texto: o escritor tem uma historinha, organiza uma estruturazinha, compõe alguns personagens. Na poesia acontece algo correspondente: preocupação exclusiva com o tema e o confessionalismo, como eu já disse. [...]

Seria bom se as editoras dessem umas oficinas básicas de leitura e escrita, e melhor ainda se as prefeituras oferecessem isso sem custos adicionais além dos impostos. Sem incentivo e direcionamento fica difícil melhorar o nível cultural desse país.

No site Ofício Literário há informações sobre várias oficinas literárias Brasil afora. Encontrei também um projeto chamado Oficina de Texto, coordenado pelo escritor João Silvério Trevisan, oferecido pelo SESC (o link é esse, de onde copiei a citação acima); se entendi bem, a última turma aconteceu em 2005. Uma pena, pois parecia ser muito bom.

Já participei de uma oficina literária quando tinha uns 16 anos, na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, lá em São José (minha tia me levou), que foi ministrada durante um ano por uma escritora convidada. Procurei aqui e parece que o projeto foi extinto. A Semana Literária lembra um pouco o projeto, mas não era bem isso. Na oficina literária, líamos vários autores bem light, "de entretenimento", como Borges, Cortázar, Maiakóvski, Dostoiévski, Lorca, Neruda, etc (haha!), discutíamos as pessoas discutiam (eu mais ouvia, porque era só uma menina e a maioria dos participantes tinha, sei lá, no mínimo, o dobro da minha idade...), escrevíamos textos que passavam pelo olhar da escritora. Bom, por ter passado por essa experiência, penso que seria ótimo se as pessoas que pretendem escrever um livro na vida e não têm muita noção de nada pudessem participar de uma oficina dessas. É bom. Muito bom. Aguça a autocrítica, expande horizontes literários (mesmo se a pessoa for escrever literatura de banca de jornal, acho importante ela ter referências para depois buscar por si mesma outras referências e aprimorar a escrita), aprende-se muito.

Ai, pronto, falei.

Curiosidades que encontrei, enquanto pesquisava para escrever o post:

Em 2009
- foram publicados 52.509 títulos de livros no Brasil;
- 22.027 foram lançamentos (1ª edição) e 30.483, reedições;
- 5.807 títulos foram traduzidos - 3.699 do inglês, 674 do francês, 616 do espanhol, 204 do alemão, 399 do italiano e 51 de outros idiomas, além de 164 "adaptações" do português de Portugal;
- foram publicados 46.703 títulos de autores nacionais (lançamentos e reedições) e, segundo a minha conta (22.027 menos 5.807), houve 16.220 lançamentos nacionais.

Essas e outras informações podem ser encontradas no site da ABDL (Associação Brasileira de Difusão do Livro). É preciso fazer o download do arquivo "Pesquisa FIPE 2009". O mais estranho é que eu tinha lido, não sei onde, que as publicações traduzidas são muito mais numerosas que as nacionais, por isso é muito mais comum as pessoas lerem autores estrangeiros. Ou talvez as pessoas prefiram muito mais os livros de ficção estrangeiros que os nacionais, independentemente do número de publicações? Não sei. Não consegui encontrar essa informação.

3 comentários:

Karen disse...

Isso não ocorre no Brasil, mas nos EUA parece ser muito comum os aspirantes a escritor frequentarem oficinas e cursos para aprimorar a escrita. Há até aquele curso (bacharelado mesmo) de Creative writing...

Lúcia Harumi disse...

Banzai Rosa Kapila, Josie Mello, Itamara Moura, Rita Elisa Seda, a Oficina e o "Catar feijão". Engraçado que alguém me ligou da Fundação para ir buscar meu "diploma" de escritora. Ele queria dizer certificado de conclusão de curso, mas disse assim mesmo: "diploma". Conclusão: vc e eu somos "escritoras diplomadas". Continuo uma leitora comum, mas vc é uma leitora especializada. De qualquer modo, aquela oficina foi um ganho em nossas vidas, não é mesmo? Faria novamente. Bjs

aline naomi disse...

Karen,
torço para que um dia a onda de oficinas literárias chegue por aqui, porque, olha, tá difícil o nível das pessoas que escrevem livros (me recuso a chamar a maioria de "escritores")...

***

Ah, tia, aquele curso foi maravilhoso!! Me fez conhecer vários escritores "novos" e essenciais para minha formação cultural. Também faria de novo!

Beijo!