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quarta-feira, 18 de maio de 2011

A revolução dos bichos - George Orwell

Esse livro foi o Sergio do curso de tcheco que me emprestou, porque comentei que tinha visto o filme e que queria ler o livro para poder comparar as versões (por pior que seja o livro ou o filme, eu sempre quero ver como é a outra versão - e, sim, ainda quero ver como ficou o filme "Bruna Surfistinha", porque li O veneno do escorpião, embora todos tenham dito que o filme é ruim).

A edição da Cia. das Letras está muito boa e vem com um posfácio do crítico literário britânico Christopher Hitchens, além de dois apêndices: uma apresentação que o Orwell (na verdade, o nome dele real é Eric Arthur Blair) escreveu para a primeira edição do livro e que só foi publicada anos depois - é que ele critica a liberdade de imprensa britânica na época, por isso os editores devem ter excluído essa parte - e um prefácio para a edição ucraniana.

No prefácio, tem esse trecho que destaco por ainda ser muito atual, apesar de ter sido escrito em 1945, e valer para vários outros países:

"...
Obviamente, não desejamos que nenhum departamento do governo tenha poder de censura (exceto a censura de segurança nacional, a que ninguém se opõe em tempo de guerra) sobre livros que nem contam com patrocínio oficial. Mas aqui o principal atentado contra a liberdade de pensamento e de expressão não é a interferência direta do ministério ou de qualquer outro organismo oficial. Se os donos e diretores das editoras se empenham em manter certos tópicos longe da página impressa, não é porque tenham medo de processos judiciais, mas porque temem a opinião pública. Neste país, a covardia intelectual é o pior inimigo que um escritor ou jornalista precisa enfrentar, e esse fato não me parece estar sendo tão discutido quanto mereceria.
..." (p. 126-7)

Voltando ao livro em si: não tenho domínio total sobre o contexto histórico em que o livro foi escrito, mas consegui entender a crítica que o autor queria fazer à política da época. Li mais com despreendimento histórico (ou seja, não fui atrás de informações históricas) para ver se conseguia ter outra leitura e cheguei à conclusão (óbvia?) de que nunca vai existir uma política sem interesses próprios, sem ganâncias, sem sujeira. O poder causa deslumbre e provavelmente a sensação de invencibilidade ("posso fazer o que eu quiser, nunca serei punido porque quem faz as regras sou eu"). Que triste.

A cena em que os animais são distraídos com programas televisivos pelo despótico porco Napoleão (e que é uma das minhas cenas preferidas no filme) não existe no livro. Essa cena da TV lembra MUITO o que acontece na vida real: a atenção dos animais é desviada para um monte de coisa que não interessa na TV, para que eles possam esquecer que estão sendo enganados e manipulados por um sistema político desonesto e sugador. Me deu uma sensação estranha ao ver os animais fascinados, olhando para a tela da TV, mesmo sem entender, enquanto os porcos decidiam que desculpa dar sobre o porquê de o leite e o mel ficarem só para eles e não serem divididos igualmente entre os outros animais.

No livro, entendi um pouco melhor algumas passagens do filme. Por exemplo, que alguns animais não conseguiam aprender o alfabeto e, consequentemente, não conseguiam ler nem pensar direito (considerando que a linguagem é o suporte para que possamos pensar), então, a maioria não sabia que as leis escritas numa parede logo após a rebelião dos animais contra os humanos, em que estes foram expulsos da fazenda, estavam sendo modificadas de acordo com os interesses da classe dominante (os porcos).

Gostei bastante. É um clássico que vale a pena. E a adaptação para o cinema ficou muito boa também.

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