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domingo, 7 de agosto de 2011

Então você quer ser escritor?

Um dia o amigo Cristiano (@sehn100) tuitou esse vídeo:



Eu dei muita risada porque muitas das piadas têm fundamento. E quem trabalha ou já trabalhou em editora sabe disso.

Eu só conhecia este outro, com o mesmo assunto, que é um vídeo promocional de um livro de contos do Miguel Sanches Neto - que eu não conheço, não li ainda:


Resolvi escrever um pouco sobre isso, também, porque andei revisando uns livros nacionais muito ruins (pleonasmo) e isso me deixou meia deprimida, meia revoltada. Parece prepotência (eu sei que é), porque não sou perfeita, mas não acho normal "escritores" usarem vírgula entre sujeito e predicado, terem milhares de erros ortográficos ou começarem um capítulo escrevendo na terceira pessoa e, alguns parágrafos depois, mudarem para a primeira pessoa (sem que isso signifique subversão ou algum outro tipo criativo de lidar com a estrutura textual), situar a história em uma cidade no sul do Brasil e os personagens nativos usarem "você" em diálogos, quando, na realidade, usam "tu", etc, etc. Fico com a impressão de que a literatura nacional não vai progredir nunca porque tem muita gente escrevendo esse tipo de coisa e pouquíssima gente escrevendo algo que preste.

Para mim, alguns pontos nisso tudo são um mistério:

1. Se as pessoas gostam de escrever, então por que não procuram melhorar a escrita? É falta de direcionamento? É preguiça?
2. Por que editores aprovam originais totalmente trash, tanto em relação a conteúdo quanto à estrutura (problemas em todos os níveis, um livro que já começa todo errado)?
3. O que motiva as pessoas a escreverem da forma que escrevem (em geral, mal, muito mal) e achar que merecem ter seus originais publicados? Ingenuidade? Falta de senso crítico? Ego?
4. Será que não é hora de o Ministério da Educação começar a investir em oficinas literárias grátis a futuros jovens escritores, ministradas por bons escritores que já estão no mercado, assim como está investindo em feiras literárias?
5. Por que as próprias editoras não investem em potenciais escritores? Poderiam chamar escritores experientes para ministrar oficinas literárias, cobrando uma taxa dos alunos, e, depois, quem tivesse melhor desempenho teria o livro publicado. Seria uma forma mais racional de pré-selecionar originais.

Fica uma dica preciosíssima que descobri há pouco tempo, o site da editora Laura Bacellar: http://www.escrevaseulivro.com.br. No site ela já escreveu quase tudo que pensei em escrever neste post e muito melhor do que eu escreveria, tanto por ter bemm mais experiência no meio editorial quanto pelo estilo de escrever, então não me estenderei tanto. Mas gostaria de compartilhar algumas dicas:

1. Escreva o original e depois entre em contato com a editora - não adianta entrar em contato e dizer: "Estou pensando em escrever um livro" (sem material, não tem como o pessoal responsável - editor/equipe editorial - avaliar nada);

2. Envie o original para editoras que tenham uma linha editorial condizente com o original que você escreveu; não adianta enviar um romance para uma editora que só publica livros técnicos e vice-versa (obs: editoras, em geral, não devolvem originais impressos, então, reserve um dinheiro para gastar com cópias; algumas editoras aceitam receber originais em arquivo, por e-mail; alguns originais, como os de poesia, são mais difíceis de ser aceitos, mesmo quando bem escritos, por uma questão comercial - quem compra poesia hoje em dia?);

3. Digite o texto em Word, com uma fonte legível e preta (cause uma boa impressão e não digite em Comic Sans verde e rosa - uma vez recebi uma tradução com trechos digitados dessa forma e achei que era uma "pegadinha" da tradutora, porque nenhum profissional em sã consciência faria isso... mas vi que faz);

4. Procure escrever conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico, use o corretor ortográfico do Word e também consulte dicionários e manuais - alguns dos que recomendo:
* VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), da ABL (Academia Brasileira de Letras) - a versão on-line não abrange todas as palavras e a versão impressa tem erros, então consulte a lista de correção aqui
* Houaiss
* Aurélio
* Dicionário Prático de Regência Verbal (Pedro Celso Luft, editora Ática)
* Dicionário Prático de Regência Nominal (Pedro Celso Luft, editora Ática)
* Manual de redação e estilo (publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo)
* Manual da Redação (publicado pelo jornal Folha de S.Paulo)
Gramáticas:
* Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lindley Cintra e Celso Cunha, editora Lexikon)
* Moderna Gramática Portuguesa (Evanildo Bechara, editora Nova Fronteira)

5. Se achar que o livro está "ruim", além de pedir para familiares, parentes, amigos e conhecidos lerem, busque profissionais que possam fazer leitura e análise críticas do material;

6. Não se pode começar escrevendo um parágrafo em primeira pessoa ("Eu fui caminhar perto da lagoa...") e, do nada, no parágrafo seguinte, mudar para a terceira pessoa ("Então ele sentou na grama e pensou...");

7. Não escreva diálogos intermináveis nem passagens com descrições infinitas se eles não forem imprescindíveis para a obra - é muito cansativo e conheço pessoas que pulam a leitura de trechos assim;

8. Evite redundâncias desnecessárias (pleonasmos), como, por exemplo, "chorou lágrimas" (se chorou, só pode ser lágrimas), "deu um tapa com a mão" (não tem como dar um tapa com o pé), "jogou a peteca e ela caiu para baixo" (não tem como cair para cima);

9. Procure ambientar as histórias em lugares que conheça bem para não cometer deslizes, como, por exemplo, usar gírias/modos de falar que não pertencem àquela determinada cidade ou região (quando li personagens do sul falando "você" num livro, tive o mesmo estranhamento que teria se a história se passasse em São Paulo e todos os paulistanos falassem "tu" - ok que se trata de ficção, mas isso pode virar motivo de piada e descrédito para os leitores depois);

10. Não escreva para tentar convencer as pessoas a pensarem como você (histórias com discursos políticos, ideias nazistas, fundamentalismo religioso), escreva para ampliar a consciência das pessoas e nunca estreitá-la [isso é uma visão pessoal, não tenho fundamento teórico - para mim, um dos papéis da literatura é esse: ampliar];

11. Caso o original seja aprovado, procure não ficar exigindo que a editora faça a diagramação e a capa do jeito que você quer - existem profissionais especializados nisso e que serão pagos para fazer isso (caso ache que tais e tais editoras fazem um trabalho ruim, melhor nem enviar o original para elas);

12. O acerto de direitos autorais ($), em geral, não é feito mensalmente - algumas editoras fazem isso semestralmente, outras, anualmente, e isso precisa estar especificado no contrato (leia atentamente o contrato e esclareça todas as dúvidas ANTES de assinar e peça uma via assinada pela editora);

13. Escreva da forma mais coerente e clara que conseguir - originais, em geral, passam por revisões, mas os revisores não têm obrigação de reescrever o seu texto e deixá-lo inteligível (se cada um fizer a sua parte, o mundo vai ser muito melhor tempo será poupado e desgastes, evitados, e seu livro vai sair mais rápido);

14. Leia (tente ler) sempre e muito todo tipo de livro.

E tendo dito isso, não tenho mais nada a dizer.

Boa sorte e bons livros.

5 comentários:

Old Little Girl disse...

É por isso (e muito mais) que nem escrevo! HÁ! rs

Morgana D'Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Morgana D'Almeida disse...

Juro que fiquei intimidada a escrever algo e te mostrar! Mas instigada também :O... eu vou ver direitinho essas espécies de "dicas" que você apontou... Não quero nada profissional mas seria bom que ao menos ninguém passasse vergonha lendo o que eu escrevo! haha (ok, escrevi tudo de novo pq dei "publicar" e tinha um erro ortográfico!)

Anônimo disse...

"Meia" deprimida, "meia" revoltada?

aline naomi disse...

Gente, existe uma grande diferença entre escrever num blog e no Twitter, informalmente, e escrever pra ser publicado e lido em livro!! Se for catar cada erro meu aqui e no Twitter... rá.

Só queria mais compromisso/comprometimento de quem escreve profissionalmente.

***

Anônimo,
sim, "meia". Metade de mim era depressão, outra metade, revolta. Eu não estava só "um pouco" ("meio") deprimida/revoltada.
Quando se tem um certo domínio da língua dá pra brincar com essas coisas.