Pages

sábado, 22 de outubro de 2011

Marcela - Helena Třeštíková

[foto tirada daqui]

Dobrý den, bom-dia.

Ontem fui ver um documentário chamado "Marcela" no Centro Cultural Banco do Brasil, perto da Praça da Sé, que foi exibido como parte da Mostra de Cinema Tcheco - sim, isso existe, em São Paulo, tudo é possível =). Essa Mostra vai até o dia 30/10/2011 no CCBB.

É um documentário sobre a vida de uma mulher tcheca, filmado de 1980 a 2006, tendo como pano de fundo a situação sociopolítica e econômica do país. Por causa do comunismo, o governo é que controlava as habitações da população - imagino que tudo foi desapropriado pelo governo para ser redistribuído de modo igualitário (vou pesquisar melhor depois). As pessoas que se casavam nos anos 1980 precisavam entrar em uma fila/lista para conseguir um apartamento e isso poderia demorar até 15 (QUINZE!) anos. A Marcela do documentário foi morar na casa dos sogros (era comum muitas pessoas morarem num apartamento pequeno, porque simplesmente não havia como conseguir outros lugares para morar) e daí começaram a surgir os problemas de convivência - a sogra dava palpites na vida do casal, que depois de um tempo teve uma filha... então a Marcela não aguentou, voltou a morar com os pais e levou a menina.

O documentário me deixou mal porque não era nada ficcional, era a vida de uma pessoa - a vida real.

O marido não ligava para a filha, que, tempos depois, parece ter sido abusada pelo próprio pai (e desde então não quis mais vê-lo). Ela teve outro filho com outro homem, e esse filho nasceu com alguns problemas mentais. Havia muita dificuldade de conseguir emprego. Um dia, a filha, voltando do trabalho, some e, um mês depois, a polícia encontra o corpo na beira do trilho do trem. Marcela vai parar em uma clínica psiquiátrica porque não consegue lidar com a morte da filha, tempos depois, tenta se suicidar. Entre uma tragédia e outra, Marcela aparece com amigos ouvindo música country, cavalgando, andando pela cidade (Praga).

Em um determinado ponto do documentário, a diretora comenta para a Ivana (filha da Marcela), na época, com 20 e poucos anos, que com aquela idade a mãe dela já era casada e tinha uma filha pequena (a própria Ivana) e pergunta se ela também pretende se casar. Ivana responde que não, que não quer casar, não quer ter filhos. Às vezes também penso que com 24 anos a minha mãe também já era casada e já me tinha. Eu, com 30 anos, sinceramente, não consigo me ver nessa situação.

Fico pensando até que ponto o mundo ao redor pode definir a nossa vida, as nossas escolhas. Se a situação socioeconômica na Tchecoslováquia (até 1992)/República Tcheca fosse outra, a Marcela teria feito a mesma escolha, teria se casado e tido filhos? Se os pais tivessem mais recursos, ela teria continuado a estudar para depois pensar em se casar? Se ela e o marido pudessem ter tido um apartamento próprio logo após se casarem, mesmo assim teriam se separado mais ou menos um ano depois? Se houvesse mais oportunidades de emprego, a Ivana poderia ter arranjado um trabalho mais perto da casa dela e não teria sido roubada e morta ao voltar à noite do trabalho para casa?

E também penso no contrário. Se a gente nasce em um país que oferece muitas oportunidades de crescimento e mais liberdade de escolha, as chances de ter uma vida melhor, mais saudável, mais equilibrada e mais feliz são maiores?

2 comentários:

Karen disse...

Também me faço essa última pergunta. Às vezes acho que, com tantas possibilidades de escolha, a gente acaba se perdendo...

aline naomi disse...

Concordo, Karen.
Quanto mais possibilidades, maiores as chances de se perder, né?