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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Todos os fogos o fogo - Julio Cortázar


Na sexta-feira antes do feriado de Carnaval, demorei quase quatro horas para chegar em casa. O trajeto de ônibus que normalmente faço em uma hora, uma hora e meia, demorou três horas e meia. E, na madrugada de sexta para sábado, mais cinco horas de São José até Ubatuba (viagem que fizemos em duas horas e meia ontem, quando não tinha trânsito). Essa é uma das doenças típicas que acomete todos que viajam em feriados prolongados (o Carnaval é hoje): transitofilia. Mas nada superou uma viagem que fiz com meus pais (Ubatuba-São José), em que passamos umas dez horas na estrada (lembrando: a viagem demora duas horas e meia, três horas em dias normais). Vimos o dia morrer sem poder fazer nada.

Agora, sempre que fico presa no trânsito e vejo uma fila de carros sem fim atrás e adiante, lembro de Cortázar. Recentemente, li Todos os fogos o fogo, escrito por esse que é um dos meus contistas preferidos.

No primeiro conto, "Autoestrada para o sul", as personagens vivem a experiência de ficar três dias e três noites paradas no trânsito entre uma cidadezinha de veraneio e Paris. Ninguém explica o porquê de o trânsito não fluir, há sempre boatos de incidentes, mas nada confirmado, então as pessoas começam a se organizar em grupos: alguns ficam responsáveis por guardar a comida e a bebida e por distribui-los conforme a necessidade, outros se revezam para fazer a segurança, o carro de alguém vira uma espécie de hospital temporário. Depois de um tempo, alguns desertam: abandonam seus carros e seguem, quem sabe, a pé. A maioria, no entanto, resiste até que... bom, vocês terão de ler para saber o que acontece.

Desse livro, destaco mais dois contos: "A saúde dos doentes" e "Senhorita Cora". No primeiro, a história de uma família que gira em torno da mãe idosa e doente. Quando o filho mais novo morre em um acidente, pela saúde da mãe, os irmãos acham melhor esconder o fato e inventar mil situações, entre elas, que o filho precisou viajar ao Brasil a trabalho e logo voltaria a Buenos Aires e pedir a um amigo da família para remeter cartas mentirosamente escritas pelo falecido, do Brasil. Quando a irmã da mãe, tia dos que encenavam o tempo todo, morre, outra vez precisam esconder o fato. Não sei se a sociedade argentina é matriarcal e tudo deve girar em torno do bem-estar da "chefe" da família, mas tive essa impressão.

"Senhorita Cora" achei genial porque alterna os fluxos de pensamento de um menino internado em um hospital, o da mãe dele e o da enfermeira (a Senhorita Cora que dá nome ao título do conto). E essa mudança de fluxo de pensamento muda de uma personagem para outra na mesma linha! Nunca tinha lido nada assim do ponto de vista estrutural da narrativa e isso dá um quê a mais para o conto.

Outros contos do livro: "Reunião", "A ilha ao meio-dia", "Instruções a John Howell", "Todos os fogos o fogo" e "O outro céu".

Paguei R$ 12,90 por uma versão de bolso da Bestbolso. No começo, há um certo incômodo para ler (fonte pequena, entrelinhas mínimas, papel fino - dá para ver a impressão do verso da página), mas depois as histórias nos absorvem e esquecemos que a qualidade do suporte em que estão inseridas não é tão bom.

Seja nessa edição ou em outra, recomendo muito a leitura deste livro!

3 comentários:

Lúcia H. disse...

Assistimos o filme Blow-up, na oficina da Rosa Kapila, lembra?
Baseado na obra dele. Vi umas imagens dele e sabe que em algumas achei parecido com Antonio Banderas? Voltando ao Blow-up e comentando algo fora do assunto: no elenco fazia parte a Jane Birkin que na época que eu fazia ginásio tinha gravado com o marido "Je t'aime...moi non plus" música erótica. Os alunos faziam como trabalho: teatro, desfile de moda, jograis, tudo em francês e na maioria das vezes usavam essa música como fundo. A professora era super aberta e às vezes acontecia de chamar o diretor, super sisudo, para assistir. Rs.
Engraçado como para pessoas "um pouco mais maduras", uma lembrança leva à outra. Você vai chegar lá. Rssss.

Gustavo disse...

Oi, Aline.
Legal o seu post. :)

Se você gosta de Cortázar, lhe convido a conhecer o meu blog, todo dedicado a ele: blogmorellianas.blogspot.com

Bjs

aline naomi disse...

Oi, tia!
Lembro que vimos "Blow-up" na oficina da Rosa, sim! Foi baseado no conto "Las babas del diablo", né?
Depois comprei o DVD e assisti várias vezes. Adoro o filme.
Faz um tempo vi "Gainsbourg, o homem que amava as mulheres" (algo assim), justamente sobre o criador de "Je t'aime... moi non plus"! Mas vou precisar ver de novo porque dormi no meio da sessão (cansaço!).
Hahaha... sim, às vezes também acontece de eu vivenciar algo e me lembrar de coisas de um passado remoto. Com o tempo, as lembranças serão mais vastas, né? :)
Beijo!

***
Gustavo,
obrigada pela visita, vou vistar seu blog, sim! :)