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terça-feira, 20 de março de 2012

Corações Sujos - Fernando Morais


Hoje terminei de ler Corações Sujos, do Fernando Morais, publicado pela Cia. das Letras, e estou perplexa.

Em pouco mais de trezentas páginas, o autor relata a história da Shindo Renmei - Liga do Caminho dos Súditos -, uma “seita” fundada por imigrantes japoneses nacionalistas que não acreditavam na rendição do Japão no fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, e – pasmem! – planejavam e executavam assassinatos de outros imigrantes japoneses que aceitavam a realidade (que o Japão havia perdido a guerra, juntamente com a Itália e Alemanha, países com os quais formava o “Eixo”) e ousavam dizer isso publicamente. Para os tokkotai, como eram chamados os seguidores fanáticos da Shindo Renmei, a rendição do Japão não passava de “propaganda americana”. Uma episódio louco e sórdido na história da imigração japonesa no Brasil. Tudo é passado, mas, lendo, deu uma vergonha! O mesmo tipo de vergonha que sinto quando leio notícias do tipo “Brasileira finge estar grávida de islandês para ganhar cidadania islandesa” ou “Brasileiro entrava em lojas para roubar pequenos aparelhos eletrônicos na Austrália” ou “Brasileiros fingem ser mendigos e pedem esmolas sei-lá-onde”, porque são coisas que depõem contra mim e contra todos os brasileiros. Eu sei, você sabe, nós sabemos que nem todo brasileiro é assim, mas os estrangeiros vão saber?

Eu não sabia, mas asiáticos não eram bem-vindos no Brasil no fim do século XIX e início do século XX. Havia um forte preconceito, pois queriam que o país fosse povoado basicamente por brancos cristãos, considerados “superiores”, mas, com a abolição da escravatura em 1888, precisavam de mão-de-obra para o trabalho braçal nas fazendas de café e, ao mesmo tempo, nessa época, o Japão passava por sérios problemas socioeconômicos; o país estava superpovoado e empobrecido, e era interessante que japoneses emigrassem. Brasil e Japão fizeram acordos e os primeiros japoneses chegaram no navio Kasato Maru em 1908.

A ideia dos imigrantes era conseguir o máximo de dinheiro possível para, depois de alguns anos, retornar ao Japão, o que para a maioria não foi possível (pelo que sei, meus quatro avós também pretendiam retornar – fico pensando que, se isso tivesse acontecido, eu não existiria, porque talvez meus pais nasceriam no Japão e nem se conheceriam). Não cheguei a pesquisar e Corações Sujos não se aprofunda na questão, mas tenho a impressão de que a convivência entre brasileiros, japoneses e outros imigrantes foi relativamente pacífica até o início da 2ª Guerra. Quando Getúlio Vargas, presidente na época, se posicionou a favor dos Aliados (Reino Unido, Estados Unidos e França), as leis endureceram mais ainda para os imigrantes do Eixo no Brasil: japoneses, alemães e italianos. As escolas de e para imigrantes não podiam mais funcionar, jornais publicados em japonês foram fechados, contas bancárias foram congeladas, japoneses não podiam ter rádio em casa, também não podiam se reunir uns na casa dos outros e nem falar japonês em público.

No fim de 1945, depois do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, o imperador Hiroito assinou a rendição do Japão. Mas vários imigrantes japoneses no Brasil não aceitavam, não queriam acreditar, que o Japão havia perdido. Movidos por um ultranacionalismo e uma lealdade cega ao imperador, considerado uma divindade, os seguidores da Shindo Renmei, que já existia desde 1942, começaram a se organizar para eliminar os “traidores da pátria”, ou seja, imigrantes japoneses que acreditavam na rendição do Japão, também chamados kachigumi. A grande maioria dos tokkutai era formada por pessoas simples, desprovidas de posses, ao contrário dos kachigumi, que tinham mais estudos, propriedades e prestígio e estavam, de certa forma, mais integrados à cultura brasileira. Em nenhum momento o autor escreve isso abertamente, mas fiquei com a impressão de que os tokkotai eram movidos, talvez inconscientemente, também pela inveja. Inveja por verem compatriotas prosperando... a inveja às vezes é um efeito colateral da prosperidade e pode despertar o desejo de destruição.

Havia uma lista de “traidores” a ser eliminados e os tokkotai encarregados de assassiná-los sempre recebiam instruções e uma trouxa com um tanto - adaga para harakiri -, revólver e balas, além de uma carta - que explicava que a vítima deveria cometer harakiri por haver traído a pátria, mas a carta geralmente nem era entregue, pois os tokkotai já chegavam atirando.

A Shindo Renmei tinha sede em São Paulo (rua Paracatu, 96, no bairro da Saúde) e arrecadava dinheiro de simpatizantes também no interior de São Paulo e do Paraná, onde havia concentrações de imigrantes japoneses. Esse dinheiro financiava as operações da seita (compra de armas, soltura de integrantes da seita da prisão, despesas com integrantes que se deslocavam para cumprirem sua missão).

Detalhes inacreditáveis: a Shindo Renmei divulgou que navios enviados pelo imperador aportariam em Santos para buscar os súditos (o Japão estava destruído, como enviariam navios?), então milhares de imigrantes venderam tudo que tinham e se deslocaram para lá, para depois constatarem que não havia e nem haveria navio nenhum, depois divulgaram que os navios iriam buscá-los no Rio de Janeiro (!!), e lá foram os japoneses esperar os navios... e ficaram a ver navios. A “seita” também falsificava e divulgava documentos e fotos, fazendo com que muitos imigrantes acreditassem que o Japão havia, de fato, ganhado a guerra. Malandros convenciam compatriotas a comprarem passagens de navio e terrenos em terras distantes (territórios que teriam sido conquistados pelo Japão) para que pudessem se mudar para lá assim que os navios do imperador viessem buscá-los – muitos vendiam tudo para comprar essas coisas que, óbvio, não existiam. Antes de cometer os assassinatos, as vítimas dos tokkotai eram avisadas: pichavam seu muro com ideogramas (“traidor da pátria!”), mandavam bilhetes ameaçadores, deixavam placas de madeira com ameaças próximas de onde a vítima morava.

A situação dos imigrantes japoneses, que já não era boa, passou a ficar insuportável, pois, aos olhos da maioria dos brasileiros, todos deviam ser loucos e perigosos (a Shindo Renmei era notícia em vários jornais).

De janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, os tokkotai mataram outros 23 imigrantes e deixaram cerca de 150 feridos. A seita foi desmantelada pela polícia, alguns dos integrantes foram presos (enviados para o presídio de Ilha Anchieta, próximo a Ubatuba, litoral norte de São Paulo – fui lá com uma excursão do colégio em 97 ou 98, o presídio não existe mais, só tem ruínas, mas a ilha pode ser visitada; o Colégio Objetivo de São José, onde estudei, tinha uma base lá, o professor de biologia e estagiários mergulhavam e faziam umas pesquisas, algo assim) e outros nunca foram encontrados para prestar contas.

Os seguidores da Shindo Renmei falavam em “não envergonhar a pátria”, mas, ironicamente, foi isso que fizeram quando induziram boa parte da colônia a acreditar na própria cegueira e expuseram todos os imigrantes ao ridículo com essa história. E os imigrantes que tentavam tirar a mácula da colônia, automaticamente entravam na lista negra.

Os “traidores da pátria”, kachigumi, eram considerados “corações sujos” pelos fanáticos da Shindo Renmei, mas os que aparecem na capa do livro são alguns dos membros da seita. Não sei se foi uma sacada do capista ou foi algo ao acaso, mas gostei da ideia da inversão. “Corações sujos” e “traidores da pátria”, na verdade, são os seguidores da seita.

Existe um filme baseado no livro e eu quero ver:





Obs: Obrigada, Yuri, pelo empréstimo do livro!

Obs 2: Encontrei informações resumidas sobre a imigração japonesa neste site: http://www.imigracaojaponesa.com.br/nossahistoria.html

4 comentários:

Andrea Azevedo disse...

Cara Aline,

Li Corações Sujos há bastante tempo, mas lembro-me como a história também me impressionou. Acho que a reação da segunda guerra mundial da Shindo Renmei está bastante relacionada com o fanatismo que você tratou no post mais recente.
Tive a oportunidade de fazer pesquisa sobre a imigração no Brasil e sugiro uma coisa interessante para saber mais isso, disponível aí em São Paulo. O Museu da Imigração (na Barra Funda) foi a hospedaria dos imigrantes sendo o ponto que eles se diriam após desembarcar em Santos e ficavam por lá até irem para as cidades que pretendiam no interior do estado. A hospedaria começou juntamente com o Departamento do Estado do Trabalho (DET) guardar informações sobre esses imigrantes, fazendo estatística mesmo: quem eram, de onde vinham, qual era a classe social a que pertenciam, e para que cidade do estado iam. Essas estatísticas eram realizadas continuamente e publicadas no Boletim do DET. O Museu hoje tem um grande acervo desses boletins (não todos porque parte está no Arquivo do Estado e parte - sim - se perdeu). Além dessas estatísticas interessantes, há certos estudos e discursos do DET e da Assembleia Legislativa sobre como suprir a falta da mão-de-obra no Brasil. Esses documentos são interessantíssimos. Por exemplo, eu me lembro de um que faz justamente a discussão favorável a imigração japonesa para o país que apesar de não ser branca e cristã como a europeia, era melhor que sobrassem vagas de trabalho na lavoura o que poderia incentivar que os nordestinos (!) viessem para São Paulo ocupar essas vagas. Parece loucura, mas os textos e debates estão lá. Eu tinha em algum lugar anotado em que Boletim do DET estava esse discurso, mas a tecnologia muda e mudamos de computadores e algumas informações ou se perdem ou se escondem para não mais encontrarmos. Bom, de qualquer forma é interessante (!) pensar que enquanto os japoneses emigrados perseguiam uns aos outros por um fanatismo ao império, sua vinda para cá foi estimulada não ao menos por uma perseguição real (em tese), mas cultural e ideológica de rejeição dos brasileiros de são paulo aos brasileiros do nordeste.
Enfim, falei de mais.. um monte de blablablá...
De qualquer modo, gostei muito do texto e deu-me vontade de ler de novo o livro e ver o filme...

aline naomi disse...

Oi, Andrea!
Eu já cheguei a ir pro Museu da Imigração (da última vez que fui estava em reforma, mas pretendo voltar!), lembro que no começo dos anos 2000 (acho que fui em 2001, um prof. de italiano da faculdade nos levou) tinha até um terminal pra consultar quando o primeiro imigrante da família tinha chegado e em que navio.
Gente, que doidice isso de os governantes (?) serem favoráveis à imigração japonesa temendo a vinda de nordestinos para SP!! Nunca tinha ouvido falar disso. Não sei se é só impressão, mas parece que o preconceito (contra japoneses e nordestinos) diminuiu - ainda existe mas não é como parece ter sido um dia.
Ontem fui ao cinema e passou o trailer do filme. Deve estrear em breve, estou ansiosa! :)

Andrea Azevedo disse...

Oi, Aline..

Quando fiz uma disciplina da faculdade sobre imigração, a que me levou a pesquisar os boletins, fiquei muito impressionada com essa rejeição ao trabalho dos nordestinos em SP porque no Ensino Médio (ó fonte de tantos problemas), nunca ninguém nos diz isso, não está lá nos livros de história. Dizem sim que é para embranquecimento do povo porque não querem mais os escravos-negos, mas que não querem a "raça nordestina" ninguém diz. No entanto, muitos historiadores apontam isso. (Eu fiquei esses dias procurando muitas anotações e encontrei até parte da pesquisa e por isso cito aqui) Márcia Naxara no livro Estrangeiro em sua Própria Terra diz que "A importação de imigrantes europeus tornou-se pauta importante nas discussões a partir da construção mítica de um determinado trabalhador imigrante – o trabalhador ideal- sóbrio e morigerado. Elemento capaz de, por si só, promover a recuperação da decadente raça brasileira nos mais diversos aspectos: sangue novo, raça superior (branca), civilizado, disciplinado, trabalhador, poupador, ambicioso... No extremo oposto desse imaginário, como contrapartida, estava o brasileiro – vadio, indisciplinado, mestiço, racialmente inferior". Assim, quaisquer estrangeiros eram apresentados como solução preferível ao trabalhador nacional, que era indolente, vadio, não sabia trabalhar.
Outra coisa que pouco se sabe é que no maior perído de imigração para o Brasil, os principais países tinham proibido seus cidadãos de virem ao país devido às péssimas condições de vida. No ano que mais desembarcaram italianos aqui, já estava proibida a imigração para o Brasil, o que significa que esses migrantes vieram todos clandestinamente - com passagens e barcos organizados numa espécie de mercado negro que, no entanto, tinha muitas vezes ligação direta com as fazendas cafeeiras. Faz a gente ficar pensando a que tipo de sofrimento estava submetido esse povo em seu país de origem para querer fugir clanddestinamente para um país muito diferente do seu e que possuía condições de trabalho tidas como desumanas?
Eu não achei as referências dos boletins, mas achei que a partir da década de 10 (1910), as migrações europeias diminuem em virtude da primeira guerra mundial. Assim, japoneses (que tem migração mais forte no início do século XX) e nordestinos são pensados como solução para escassez da mão-de-obra europeia. E veja que coisa doida, os migrantes brasileiros que vinham seja de trem seja de navio eram recedidos em São Paulo no mesmo órgão que recebia os estrangeiros. Então, nas estatísticas do DET sobre imigração você encontra listado no ano X, vieram Y italianos, Z japoneses e W brasileiros (!). Tratados como estrangeiros em sua própria terra.
Um dos textos que estavam nos Boletins que consegui encontrar agora justifica os benefícios da "recente" migração nordestina (o português é o da escrita da época): "A persistência de causas por demais conhecidas determinou a repetição dos fastos accusados em nossa resenha no anno anterior, traduzidos na diminuição das correntes emigratorias européas e no refluxo de trabalhadores da Capital para o interior.
Circumstancias supervenientes, favorecendo o exodo da popula-ção do Nordeste do paíz, encaminharam para o Estado de São Paulo, uma boa parte dos retirantes [...].
Licito é, pois, affirmar [...] que o exodo do Nordeste, produziu conseqüências uteis ao Estado, remediando os inconvenientes do decrescimo da emigração européa".

Falei demais de novo. Enfim, não sei se os preconceitos estãos menores que antes. Acho que a internet deu uma nova ênfase as coisas, vide caso dos nordestinos no twitter no ano passado. Fanatismo e etnocentrismo parecem estar banstante "in" hoje. O humor (sic) policamente incorreto também vem levantando novas dimensões, ao meu ver, que pareciam superadas. Enfim, é melhor não pensar muito ou paramos de ver qualquer luz do túnel e aí andamos no limiar de se tornar o caso trágico de seu último post.

aline naomi disse...

Andrea,
obrigada por esse seu último comentário, pelas informações que você encontrou e compartilhou!
Não tinha ideia de que brasileiros (nordestinos, imagino) também eram recebidos no DET. Que coisa maluca!