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terça-feira, 20 de março de 2012

A fé que cega

Faz um tempo, li um texto da jornalista Eliane Brum em que ela falava sobre o receio de as pessoas se declararem publicamente ateias e do aumento de igrejas evangélicas e, lendo Corações Sujos, lembrei disso. [Encontrei o texto, quem quiser ler, clique aqui. Eu recomendo, é ótimo, como muitas coisas que a Eliane escreve.]

Vivo fazendo ligações entre coisas que não têm muito a ver e que só para mim fazem sentido, mas, dessa vez, acho que o livro e o texto da Eliane, juntos, nos fazem entender (ou, pelo menos, me fez entender) alguns pontos sobre fanatismo, sobretudo o religioso. Sempre me perguntei por que pessoas que frequentam determinadas igrejas se tornam fanáticas. Que linha elas atravessam que as tornam totalmente diferente das pessoas que professam a fé de um jeito saudável (quando a fé é um dos elementos importantes na vida da pessoa e não a única coisa importante)? Por que, para algumas pessoas, não basta acreditar em deus/Deus, precisam convencer o maior número de pessoas a acreditar também? O que elas ganham com isso? Por que algumas (muitas) pessoas acham que têm como missão de vida salvar (???) os pecadores? [Que prepotência essa coisa de salvar. "Você está no caminho errado, eu estou no caminho certo, eu sei qual é o caminho certo, você precisa vir comigo. Eu tenho O Caminho. Deus é O Caminho e A Vida." Então que as pessoas não podem viver a própria vida, elas precisam ser salvas.] Que caminho as pessoas percorrem até chegarem à conclusão de que deus é bom, deus ajuda, deus é tudo e que por ele vale a pena matar e morrer (*pensando nos homens-bomba que se matam e matam inocentes em nome de Alá*)?

Sério, eu nunca entendi isso. De onde vem esse fanatismo religioso?

Talvez até existam ateus fanáticos, mas, na maioria das vezes, são só chatos querendo convencer os crentes através da "razão". (Alguém que não lembro quem disse: "Tem uns ateus que são tão chatos quanto os crentes". Achei engraçado, porque às vezes é isso mesmo.)

Depois de ler Corações Sujos, concluí que o fanatismo deve ser um tipo de doença mental. Os fanáticos da seita Shindo Renmei, aparentemente, eram pessoas decentes, não eram pessoas que cresceram na favela, vendo e desenvolvendo a criminalidade, com sede de matar. Nada disso. Mas tinham uma "fé", uma lealdade cega ao imperador, que era considerado uma divindade, e, por isso, acreditavam que, ao matar "traidores", estavam cumprindo um dever sagrado/defendendo a honra do imperador divino, portanto, não era errado. Isso acontece quando a fé (doença mental?) é mais forte que o senso moral - se o senso moral estivesse acima da fé, os tokkotai saberiam que fé nenhuma autoriza as pessoas a matar em nome dela.

Imagina a tragédia se 10% ou 20% dos evangélicos se tornarem cegamente fanáticos e começarem uma "guerra santa" contra os ateus, agnósticos, espiritualistas, umbandistas, budistas etc., "só" porque essas pessoas não querem acreditar no mesmo que elas e frequentar as mesmas igrejas e compartilhar dos mesmos pensamentos?

O fanatismo não é racional. O que talvez seja óbvio para todos, para mim não era. Nem passa pela cabeça da pessoa que "matar é errado", que as pessoas têm o direito de acreditar (ou não) no que quiserem, que, apesar de "deus" ser muito importante para ela, talvez, para outras pessoas, isso não signifique nada e não há nada e errado com isso. Ela simplesmente mata porque acha que a causa na qual ela acredita vale a pena. E a causa sempre está acima de qualquer ato (justo ou injusto) que ela venha a cometer, incluindo matar - a causa é deus e deus perdoa, porque deus é bom. Pensar nessas coisas me dá um certo medo. Tenho medo de pessoas que defendem verdades absolutas (como se elas realmente existissem).

A minha conclusão é que a chave para o desenvolvimento moral e espiritual (e também financeiro) das pessoas está na educação. Sendo educadas para pensar no que é melhor para elas por si próprias e PENSAR em geral, imagino que todas, ou quase todas, as pessoas que quisessem, teriam equilíbrio para ter fé de um jeito saudável, sem tropeçar e cair no fanatismo. Mas com o nível de educação que temos hoje no Brasil, por enquanto, imagino que o número de igrejas evangélicas só tende a subir mesmo.

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