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sábado, 10 de março de 2012

Filha, mãe, avó e puta - Gabriela Leite


Essa semana fui com a Flávia e a Yuri ver "Filha, mãe, avó e puta", peça homônima baseada no livro da Gabriela Leite, e hoje terminei de ler o livro, emprestado pela Flávia. Gostei de conhecer um pouco mais sobre a Gabriela, que eu nem sabia que existia, e também estou contente porque a peça, em cartaz no CCBB de São Paulo, dará mais visibilidade às causas que ela defende.

Me interesso por putas, garotas de programas e afins. Na verdade, me interesso por vidas que provavelmente nunca viverei. Gosto de saber o que vai dentro de pessoas aparentemente tão diferentes de mim, para depois constatar que o comum entre todos nós nunca desaparece: a nossa humanidade. Todo mundo pensa, todo mundo sente, ainda que de forma diferente uns dos outros.

A Gabriela tem uma história incomum. Ela não precisava ter virado puta, ela tinha outras possibilidades, chegou a estudar alguns anos de filosofia na USP e trabalhava como secretária, até que uma gravidez indesejada mudou o rumo da vida dela. O que eu mais admiro é que ela decidiu ser prostituta para ter liberdade, além de poder se sustentar. Ela podia ter continuado na casa da mãe dela, seguindo as regras de comportamento e horário estipulados pela mãe, trabalhando, cuidando da filha, mas ela deve ter sentido que aquela vida não era para ela, então foi tentar se encontrar.

Depois de muito tempo na profissão, achou que poderia fazer algo para melhorar a vida das putas e acabou sendo porta-voz delas. E talvez tenha ficado mais conhecida depois da criação da grife "Daspu", idealizada por uma integrante da ONG que ela ajudou a fundar, a Davida.

É um livro autobiográfico, com um toque do bom humor da autora. Também gosto muito da posição dela sobre a sociedade achar que as prostitutas são vítimas; ela não aceita isso, porque se você parte do pressuposto de que alguém é vítima, então você estabelece uma relação de dominação/superioridade sobre ela - aliás, aquela garota austríaca, Natascha Kampusch, que ficou sequestrada por oito anos, também escreveu a mesma coisa no livro dela -, e eu concordo. "Coitadinhas das putas, coitadinha da Natascha, vamos fazer doações para elas se sentirem menos desafortunadas." Quando as pessoas pensam assim, parece que não acreditam que as pessoas "vitimizadas" serão capazes de se virar sozinhas, ter suas próprias vidas e terão sempre de aceitar ajuda de alguém para viver. (Obviamente não entram aqui as vítimas de desastres naturais, por exemplo, que precisam de ajuda urgente e depois de suporte para reconstruir tudo, para que elas possam seguir a jornada interrompida.)

Tenho simpatia pelas prostitutas, garotas de programa, profissionais do sexo ou como quer que sejam denominadas essas mulheres de vida não tão fácil assim. Elas poderiam ter se casado com caras com dinheiro, que poderiam pagar suas contas (um amigo chamava isso de "prostituição velada"), por exemplo, mas, não, partem pra luta e vão lá fazer seu próprio dinheiro. Por isso, me causa espanto "prostitutas veladas" apontarem o dedo e falarem mal das putas, afinal, quem são elas para falar qualquer coisa sobre os outros?

Destaquei alguns trechos:

"Adoro os homens. [...] Outra coisa que adoro é falar o que penso. [...] Existe uma terceira coisa que eu prezo muito. Talvez seja a que mais prezo, aliás. É a liberdade. Liberdade de pensar diferente, de vestir diferente, de se comportar diferente... Não sei direito de onde veio essa minha paixão pela liberdade (minha vida é feita de muitas certezas, mas também de infinitas dúvidas e contradições), mas ela veio para ficar."

"Quando saí de noite da zona, eu tinha atingido a marca de 78 homens. Fui tomar uma cerveja no bar com as pernas doendo, como uma atleta."

"Tem uns caras na zona que passam a ser conhecidos das mulheres por serem frequentadores assíduos. Especialmente quando têm uma fantasia.
[...]
Eu tinha um cliente que chegava à zona sempre com uma bolsa a tiracolo. Ele entrava no quarto, abria a bolsa e tirava dela nada menos que uma camisola amarela. Ele a vestia e desfilava como uma ninfa, com o máximo que conseguia de languidez, embora tivesse uma barriga avantajada definindo sua silhueta. Então ele perguntava docemente: 'Você me acha linda?' Profissionalismo em primeiro lugar, eu respondia: 'Linda! Lindíssima', fazendo uma força incrível para não cair na gargalhada. [...] ele transava dizendo em meu ouvido: 'Você é muito sem-vergonha mesmo! Você adora transar com outra mulher!' E eu tinha que concordar: 'Ai, eu adoro', senão meu cliente não gozava."

O livro foi publicado pela Editora Objetiva e tem mais informações sobre ele aqui.

Para quem está em São Paulo, recomendo também a peça:

O quê? Filha, mãe, avó e puta
Onde? CCBB - Rua Álvares Penteado, 112 - Centro - São Paulo-SP - tel: (11) 3113-3651 / 3113-3652
Quando? De 28/2 a 19/4/2012 (terça a quinta, às 20h)
Quanto? R$ 6 e R$ 3 (meia: estudantes, idosos e clientes do BB)
Site: clique aqui

2 comentários:

flavia disse...

Oi Aline, foi sensacional essa peça, principalmente por termos um exemplar de puta sentada ao nosso lado!hahahaha!

aline naomi disse...

HAHAHAHAHAHA! Só você, Flá!

Preciso te devolver o livro. Gostei muito. A Gabriela é uma grande pessoa.