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terça-feira, 17 de abril de 2012

As Neves do Kilimanjaro - Robert Guédiguian

Faz tempo que não escrevo sobre filmes, mas tenho visto, em média, um filme por dia. E ido ao cinema, pelo menos, duas vezes por semana. Não, não fiquei rica (considerando que o preço médio do cinema em São Paulo é de R$ 20, ir ao cinema no mínimo duas vezes por semana seria um luxo), é que vira e mexe ganho ingressos pelo site Catraca Livre para ver filmes no Espaço Unibanco Augusta/Itaú de Cinema (Rua Augusta, 1475) às segundas ou na Reserva Cultural (Av. Paulista, 900) às quintas - a Yuri nos inscreve, aí, quando ganhamos, pagamos só R$ 2 (dois reais) pela entrada. Eu amo o Catraca Livre! E quando quero ver filme no fim de semana, vou para um desses dois cinemas ou no CineSESC ou para algum Centro Cultural, porque esses lugares têm as melhores programações e filmes fora do circuito comercial.

Um dos últimos filmes que vi na Reserva foi As Neves do Kilimanjaro, do francês Robert Guédiguian. A história se passa em Marselha, cidade do diretor, e apresenta Michel, um líder sindical que perde o emprego e se aposenta antes do previsto, e Marie-Claire, sua esposa, que limpa casas e cuida de idosos. Ao ser despedido, a rotina de Michel é alterada, pois fica com bastante tempo livre e um tanto inquieto e melancólico. Talvez pensando nisso, na festa de comemoração de 30º aniversário de casamento, os filhos e os amigos presenteiam o casal com uma viagem à África, para que eles vejam o monte Kilimanjaro (o título do filme se refere a uma música do francês Pascal Danel, dos anos 60, de que eles gostam e que os netos começam a cantar na festa - é muito bonitinho!).
Pouco tempo depois, alguns dias, talvez, invadem a casa de Michel e Marie-Claire e levam todo o dinheiro e as passagens que eles haviam ganho. E alguns acontecimentos levam Michel a descobrir que um dos bandidos é um ex-colega de trabalho que foi despedido no mesmo dia que ele e estava presente na festa de casamento e, por isso, sabia do dinheiro da viagem. Como proceder nesse caso? [Ser traído(a) por namorado(a), esposo(a), noivo(a) é meio previsível e provável (não sou pessimista, sou realista), mas, pelo menos para mim, a traição de um amigo é uma facada pelas costas difícil de aceitar!]
Há um fundo político na história, mas gostaria de chamar a atenção para os aspectos mágicos do filme: bondade e generosidade.
Depois de um tempo, o casal conhece os irmãos mais novos do "bandido" e descobre detalhes da vida daquela família desestruturada que talvez não justifique mas esclareça o roubo. Quem cuidava dos meninos era o ex-colega de Michel.
A cena em que a mãe lava as mãos do destino das crianças é revoltante. Elas não têm culpa por estarem naquela situação. Michel e Marie-Claire, então, tomam uma decisão inesperada.

Esse filme me lembrou outros dois que vi há algum tempo: O garoto da bicicleta, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, e O Porto, do finlandês Aki Kaurismäki, que também são falados em francês.

Nesses três filmes, crianças à mercê do destino são ajudadas por pessoas desconhecidas. Se eu não conhecesse duas histórias parecidas, certamente pensaria que "essas coisas só acontecem em filmes", mas não. Posso afirmar que pessoas assim existem de verdade, fora das telas.

História 1: eu tinha acabado de me formar e dava aulas de inglês em umas escolas de idiomas em São José. E nas aulas dava para conhecer melhor os alunos porque eu os fazia falar em inglês e eles falavam sobre a vida deles. Numa dessas aulas, um aluno bem jovem, de uns 25 anos, contou que tinha uma filha pequena, e, esticando um pouco o assunto, ele disse que não era biológica, mas de coração - um dia uma moça nordestina apareceu na casa dele, com a bebê, pedindo comida e dinheiro para voltar para o nordeste e acho que propôs que ele ficasse com a recém-nascida. Ele deu dinheiro para ela comprar a passagem e a convenceu a levar a filha. Não lembro bem, mas acho que no dia seguinte alguém tocou a campainha, ele foi ver, não tinha ninguém, só uma cesta com a bebê. Então ele ficou com ela, adotou, e precisou voltar a morar com a mãe para cuidar dela. Fiquei emocionada quando ele me contou essa história.

História 2: Essa é da faxineira lá da editora. Raramente a encontro lá porque ela vai faxinar muito cedo, umas 5h30, porque depois precisa ir para outros trabalhos, e, quando chego, ela já foi embora, mas num dia em que a encontrei, conversa vai, conversa vem, ela contou que tinha uma filha pequena, devo ter feito uma cara de estranhamento, porque ela já é uma "senhora" e ela explicou que a mãe biológica dessa menina, na verdade, era drogada, vivia na rua e a menina ficava largada e, um dia, a mãe sumiu, então ela pegou a menina para criar e ficou sendo a caçula dela. É muito amor, é muita generosidade. Ela e o marido trabalham e muito para pagar contas e mandar dinheiro para uma parte da família que ficou em Pernambuco, mas o coração deve ter falado mais alto e tiveram essa outra filha.

Voltando ao filme, a cena em que a mãe dos meninos e a Marie-Claire conversam sobre quem os educaria, pois ainda eram pequenos, me lembrou o filme japonês Ninguém pode saber, do Hirokazu Kore-eda, em que quatro crianças são abandonadas pela mãe - a história é baseada numa notícia de jornal. É, no Japão também tem gente irresponsável, como em todo lugar do planeta.

O que me pergunto é o que leva mulheres a ter filhos se não pretendem cuidar direito deles. Talvez a minha visão esteja distorcida, mas a mãe é muito mais responsável pelos filhos do que os pais - que muitas vezes abandonam as crianças com a mãe e vão casar com outras mulheres e ter outros filhos, outra vida, para eles parece muito mais fácil, os vínculos parecem muito mais frágeis (talvez por não serem eles a carregar um bebê por nove meses na barriga) -, então elas deveriam pensar MIL VEZES antes de ter filhos, já que, em caso de separação, elas provavelmente terão de arcar com a educação deles, isto é, se elas forem pessoas responsáveis e sensatas. Não tem como casar e ter filhos com um cara e confiar que ele vá exercer o papel de pai e arcar com as responsabilidades e despesas que deve para sempre. Acho que todo mundo conhece pelo menos uma mulher que se separou/foi abandonada pelo marido e precisa ficar pedindo pelamordedeus na Justiça para o cara pagar a pensão para as crianças para elas não passarem fome, enquanto ele já está em outra família, com outros filhos. Homens às vezes são muito deprimentes. Então, eu penso assim: na dúvida, não tenha filhos. Parece radical, mas se a mulher não tem certeza absoluta de que quer MUITO ser mãe e arcar com todas as responsabilidades que isso traz, é melhor não ter filhos.

Acho que nunca vou conseguir encarar o fato de uma mãe abandonar filhos pequenos ou não estar nem aí para o bem-estar deles sem me chocar. Afinal, foi uma escolha gerá-los e tê-los.

2 comentários:

Lúcia H. disse...

Assisti "Nobody knows". Muito triste. Principalmente por ser fato e os atores infantis atuarem tão bem. O ator Yagira Yuya, recebeu o prêmio de melhor ator no Festival deo Cinema de Cannes, 2006, aos 12/13 anos. Tentei saber pela Internet, que fim levaram essas crianças, mas não encontrei nada. A cena que ele leva a irmãzinha para enterrar... triste demais...

aline naomi disse...

Tia, eu também cheguei a procurar notícias das crianças reais na internet, mas também não encontrei. O menino atuava muito bem mesmo! Aliás, todas as crianças. E a mãe deles me dava vontade de dar uns tapas nela!! Eu fico muito revoltada; algumas mulheres nunca deveriam ser mãe.