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domingo, 15 de abril de 2012

Os Anjos de Badaró - Mario Prata


Ganhei esse livro da minha tia há alguns anos, de Natal ou aniversário, e só fui ler há algumas semanas, pois quero escrever algo nessa linha - uma "comédia policial" - mas meu ou minha serial killer vai matar autores de autoajuda.

Do Mario Prata, só tinha lido, há muito tempo, o hilário Diário de um Magro [lembra Diário de um Mago, do Paulo Coelho, né? Mas não tem nada a ver!], de quando ele passou uns dias num spa, e 100 Crônicas, seleção de crônicas que ele escreveu para o jornal O Estado de S.Paulo. Acabei dando o Diário de um Magro para uma amiga que adora essas comédias, a Crisinha, e faz pouco tempo ela disse que se lembrou de mim quando viu alguém no metrô, rindo sozinho, adivinhem, lendo o livro Diário de um Magro 2 (esse ainda não li).

Os Anjos de Badaró também é bem-humorado, tem uns personagens muito fora do comum e acontecimentos inesperados. O mais interessante é que ele foi escrito on-line em 2000, quando a internet estava começando a se popularizar no Brasil. Uma amiga da faculdade, a Marina, na época, comentou que entrava no site (hospedado pelo Portal Terra - encontrei essa informação aqui, em italiano, e também aqui, em francês) e via o Mario Prata digitando o romance em tempo real - dava para ver cada letra sendo digitada na tela e eventualmente sendo excluída, alterada. Ela e mais milhares de internautas acompanhavam o desenrolar da trama, depois davam sugestões e faziam comentários no site ou por e-mail, talvez seja um dos primeiros livros "colaborativos" do Brasil, escrito pelo autor, mas com a colaboração de leitores. No começo do livro impresso, Prata o dedica aos seus "anjos da guarda", uma lista razoável de leitores que provavelmente mais colaboraram com ele. E na página de créditos também consta essa informação: "Este livro foi escrito pela Internet graças a uma ferramenta criada pela TV1.com". Fiz uma rápida pesquisa, mas não encontrei nenhum site que ofereça esse tipo de recurso atualmente.

A trama do livro é a seguinte: Ozanan Badaró, um médico ginecologista que vende seguros de saúde em São Paulo, um dia conhece Diana, uma ex-prostituta e agenciadora de meninas que lhe faz uma proposta irrecusável: examinar, cadastrar e "testar" as meninas novas, vindas principalmente de Santa Catarina, para ver se elas tinham potencial como putas de luxo. E foi assim que ele entrou nesse ramo. Tempos depois, Badaró se suicida e seu amigo jornalista policial Alcides Capella entra na história. No velório de Badaró, um de seus "anjos" (como ele costumava chamar as meninas que ele agenciava) entrega ao jornalista uma caixa com vários disquetes. Capella e outros personagens inusitados tentam desvendar o suicídio (ou homicídio?) de Badaró, entre outros crimes. O livro é escrito em terceira pessoa, em duas linhas temporais: passado, remontando a história de Badaró, e presente, com foco em Capella tentando desvendar o mistério.

Alguns personagens inusitados: a certa altura do romance, a esposa do jornalista Capella revela ser também a detetive Lurdes de Fátima (ela fez um curso de detetive por correspondência); a sogra de Capella, uma velhinha, vai para a casa do casal para tentar ajudar: ela entendia horrores de computadores, deixando boquiabertos a filha e o genro, que não entendiam nada do assunto; uma senhora, vizinha de Badaró, fazia perucas e tinha um irmão/irmã que era travesti; Elyza, grande amor de Badaró, o primeiro anjo que passara pelas mãos dele, que não sabia nem formar os plurais quando chegou, escreve um romance; Miriam, um "anjo", sabia latim e muitas vezes conversava com Capella em latim.

Enquanto lia, fiquei imaginando como tradutores traduziriam determinadas passagens para outros idiomas. O Mario Prata tem um jeito bastante peculiar de escrever, o humor, na maioria das vezes, tem a ver com a cultura brasileira e jogos de palavras - então, como transportar isso para um outro idioma, uma outra cultura e ainda ficar engraçado como fica para gente? Por curiosidade, procurei por livros dele em outros idiomas no site Amazon.com, mas não encontrei. Será que não foram traduzidos?

E como o romance foi escrito em 2000, há muitas tiradas referentes ao uso do computador.

Alguns trechos esdrúxulos:

"Ozanan! Ele odiava esse nome. Ele só não assinava O. Badaró, porque depois iriam abreviar muito e ia ficar O.B. E ele era muito macho para virar O.B." (p. 32)

"- Gatão, resumindo: estou com uma porção de disquetes e preciso ler. Quero que você me ensine a fazer isso.
- Onde? Aqui?
- Não, na minha casa. Vou comprar um computador. Ou melhor, você é quem vai comprar pra mim. Dois mil reais dá pra comprar uma máquina dessas? O suficiente para ler os disquetes e entrar nos... como é mesmo?, nos sites que eu quero?
- Dá. Mas eu não posso ler? Você quer que só ensine?
- Não, Gatão. É confidencial. Uma matéria aí. Uma investigação. Com essa eu vou ganhar o Prêmio Esso. E não me pergunte por quê. Você vai me ensinar. Só isso. Quando eu puder entrar sozinho, eu entro. Vou te dar um cheque em branco. Vai no Extra que eu tenho ficha lá. Oito da noite, em casa. Dá pra instalar tudo hoje mesmo?" (p. 45-46)
[abre chaves: como traduzir "Com essa eu vou ganhar o Prêmio Esso" ou "Vai no Extra que eu tenho ficha lá", mantendo o tom de humor?? - fecha chaves]

"- Eu espero mesmo. Preciso ajudar tanta gentes...
- Gente. Gente. Sem o esse. Já vi que você escorrega nos plurais. Mas a gente resolve isso." (p. 50)

" - Vamos definir uma coisa. Nada de tio e muito menos de doutor. Sou o Badaró. Ozanan Badaró. Estamos trabalhando juntos e, portanto, a hierarquia dança. Isso aqui não é uma repartição pública. Não estamos vendendo seguros de vida.
- A o quê? Hie... o quê?
E a outra:
- Você ainda não me disse o que é proxeneta.
Badaró foi até a estante, pegou o Aurélio.
- Leiam aqui. Aqui tem hierarquia e proxeneta. E mais algumas palavras.
[...]
Não ia ser tão simples assim como ele imaginava. O nível era baixo, muito baixo." (p. 60)

"- Que história é essa de você entender de computador? A Lurdes de Fátima fez curso disso também?
Ela riu, detetivescamente:
- Só sei que aquele negócio com fio se chama mouse. E em Portugal, se chama camundongo." (p. 63)

"Não foi fácil para o Capella entrar no mundo da Internet.
- Isso aqui se chama mouse. Porque parece um...
Foi a primeira das centenas de vezes que o Capella pensou em matar o Gatão. Cortou a frase dele.
- Isso eu sei, Gatão!!! Porra..." (p. 67)

"O casal Capella estava exausto. A primeira aula, uma pedrada. Eles só não conseguiam entender quando é que devia clicar uma ou duas vezes em cima do ícone. Tinha hora que era uma vez, tinha hora que eram duas. O Gatão não explicou isso muito bem, não." (p. 75)

"Esticou uma fileira de cocaína na mesinha de vidro, olhando para a cara do Badaró. Esperando uma palavra dele. Tirou a carga da Bic e mandou ver. Com um meneio de cabeça ofereceu o tubo." (p. 82)
[Como traduzir esse trecho da caneta Bic, fazendo o leitor entender que é uma caneta barata e que, quando você tira a carga, dá pra usar como "tubo" para cheirar cocaína?]

"Devo te confessar, Cidão, que eu tinha ejaculação precoce. Tinha, eu disse. Braba! Era coisa pra uma bombada, sabe? Sabe como foi que eu me curei? Pra não gozar rápido? Pensava na careca do padre Orlandi. Na hora que eu sentia que não dava mais para segurar, na hora que eu sentia que a coisa ia desandar, eu pensava naquela careca, brilhante, com uns três ou quatro calombos, lembra? Pensava fixo na careca dele e não gozava.
Não fosse a careca do padre Orlandi, eu acho que não teria vencido na minha profissão. É tiro e queda!
Hoje sou outro homem. Te recomendo." (p. 144)

2 comentários:

Lúcia H. disse...

Sempre penso em te dar de presente outra coisa que não seja livro, mas vou ao Vale Sul e acabo entrando na Maxsigma... e comprando livros... para você. Queria te dar um clássico bem bacana. Tipo: Dante. Hoje comprei os livros que estão saindo nas bancas, da Folha de SP.: Literatura ibero-americana. Ainda não sei se vou colecionar. O primeiro é do Borges (O livro de areia) e o segundo que veio gratuito é do Lorca (sonetos do amor obscuro e divã de Tamarit). Legal que o do Lorca está no Original e tbém traduzido. Quando quiser, te empresto.
Boa semana! Cuide-se bem. Bjs

aline naomi disse...

Ah, eu adoro livros, tia! :)
"O livro de areia" você me deu - mas ainda não li.
O editor falou sobre essa coleção e cheguei a ver nas bancas, mas preciso ler o que tenho em casa antes de comprar outros livros. De qualquer forma é bom saber que você tem um Lorca, nunca se sabe quando terei vontade de lê-lo! Beijo e obrigada!