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terça-feira, 15 de maio de 2012

Pais e filhos



"Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais"

Quando eu era adolescente, ouvia muito Legião Urbana. Eu praticamente só ouvia isso. E no CD As quatro estações, o meu preferido, tinha (tem) a música Pais e Filhos, que mistura versos com falas de pais e falas de filhos. Quando eu ouvia essa faixa, às vezes pensava na relação que eu tinha com meus pais e imaginava se eu conseguiria ser uma mãe melhor, caso eu tivesse filhos, e no que eu faria diferente. Hoje em dia já não penso. Já não pretendo ter filhos (o maior projeto de vida de uma mulher? depende da mulher...); eu que tinha certeza absoluta de que adotaria uma criança assim que tivesse estabilidade financeira. 

Há algum tempo terminei de ler o romance Por favor, cuide da mamãe, da escritora sul-coreana Kyung-Sook Shin, e voltei a pensar nessa relação pais-filhos. Também vi o filme Contos de Tóquio, do diretor japonês Yasujiro Ozu, e revi o maravilhoso Hanami - Cerejeiras em Flor, da diretora alemã Doris Dörrie, que também tratam dessa questão.

No livro, Mamãe é uma senhora de 69 anos que, quando saiu de uma cidade do interior e foi visitar os filhos em Seul com o marido, se perdeu no metrô. Os filhos começam a procurá-la, enquanto cada um se lembra dela e, com remorsos, reconhecem os sacrifícios que ela fez por eles e de situações em que a trataram com um certo descaso. Também há uma parte em que o marido revela seus pensamentos e sentimentos e a parte mais triste: quando a própria Mamãe narra a história como ela a vê e sente.

Do ponto de vista narrativo, o que causa estranhamento no começo é o fato de os personagens se referirem a si mesmos na segunda pessoa ("Você segurou a mão de Mamãe e olhou-a nos olhos. Poucas vezes sua mãe lhe fizera uma pergunta como essa.", quando "você", na verdade, quer  dizer "eu"); isso só não acontece na parte em que Mamãe narra. Interpretei essa troca de pessoas (eu/você) como a consciência dos personagens falando com eles.

Em Contos de Tóquio, os pais decidem visitar os filhos na capital japonesa, mas os filhos estão ocupados com outros assuntos e, para eles, ter os pais lá é um estorvo. A viúva de um dos filhos é quem acaba acolhendo-os. 

Pais em Contos de Tóquio

 Pais e viúva de um dos filhos

Já em Hanami, os pais vão visitar os filhos em Berlim, porque a esposa-mãe, Trudi, descobre que o marido, Rudi, está com uma doença terminal e, de certa forma, quer fazer com que ele veja os filhos antes de morrer a qualquer momento. Mas, chegando lá, não são tão bem recepcionados pelos filhos - que discutem com quem eles vão ficar durante a visita. Segundo este site (e vários outros), Hanami foi inspirado em Contos de Tóquio, mas, na minha opinião, ficou melhor!

 Pais, Rudi e Trudi, em Hanami
 
A namorada da filha acaba levando-os para conhecer a cidade e acompanha Trudi a uma apresentação de butô do Tadashi Endo (fui vê-lo em uma apresentação em São Paulo no ano passado!), que era um dos sonhos dela.

Trudi e a namorada da filha

Quando o casal decide viajar para uma cidade praiana, os filhos ficam aliviados, pois terão uns dias livres deles.

"Nós temos um ao outro. Isso é a verdadeira felicidade."

 Essa imagem está na capa da versão do DVD brasileiro (que saiu pelo selo da Livraria Cultura)

Até que Trudi morre dormindo e o pai se sente perdido [o irônico é que ele é que estava muito doente e teoricamente morreria antes]. Então ele decide visitar o filho que mora em Tóquio e realizar o sonho da esposa e mãe de seus filhos, que era conhecer o Monte Fuji e, talvez, aprender a dançar butô no Japão. Em Tóquio, o filho Karl também está ocupado com trabalho e confessa a um dos irmãos, por telefone, que está "enlouquecendo" com o pai por perto. Em outra parte do filme, ele fala para o pai algo do tipo: "A mamãe que queria tanto conhecer Tóquio e eu é que acabei fugindo pra cá".

Como o filho fica quase o tempo todo no trabalho, Rudi sai para conhecer Tóquio sozinho e conhece Yu, uma garota que dança butô em um parque repleto de cerejeiras em flor.

Rudi e Yu


Yu caracterizada, dançando butô

Trailer de Hanami, filme que recomendo muito:


No romance, Mamãe tinha um amigo, com quem desabafava sua vida e seus dilemas, assim como nos filmes era sempre alguém de fora da família que parecia ter mais afinidade com os pais ou fazer alguma diferença na vida deles do que os próprios filhos.

Quando os laços com nossos pais se rompem? É quando cansamos de tentar corresponder às expectativas deles? Ou quando achamos que já estamos crescidos? Quando?

Me identifico com a filha sul-coreana do romance, que é escritora e vive viajando para divulgar seus livros (talvez seja um alter-ego da autora?) e também com o Karl, que saiu da Alemanha e foi morar e trabalhar em Tóquio. Também me sinto fugindo de laços famíliares (dos quais é impossível fugir - agora eu sei) e buscando meu próprio futuro. Há coisas entre pais e filhos que não dá para colocar em palavras, só sei que a relação com meus pais melhorou depois que saí da casa deles; se eu soubesse que seria assim, teria saído muito antes. Não que a relação fosse ruim, mas a superproteção me sufocava e a minha vontade de independência me fez tomar essa decisão (minha mãe fez um draminha quando anunciei que vinha morar e trabalhar em São Paulo, sozinha, mas quando viu que eu não ia mudar de ideia, parou com isso - chantagens emocionais não me comovem, muito pelo contrário).

Tem gente que consegue ter um relacionamento de amizade e cumplicidade com os pais, o que não é exatamente o meu caso. Talvez pela falta de afinidades (meu pai mesmo me disse uma vez que eu era a diferente da família, que gostava de coisas "exóticas" - e eu tomei isso como elogio, porque talvez haja vantagens em ser diferente num mundo em que muitas pessoas são iguais ou muito parecidas nos gostos, modos e pensamentos).

Pensando bem, os laços se afrouxam quando percebemos que somos ou queremos ser diferentes dos nossos pais, embora muito do que eles foram ou são como pais continuará com a gente para sempre, mesmo depois que eles se forem. Apenas pegamos outro caminho e crescemos de outra forma, nem sempre do jeito que eles queriam ou esperavam, mas crescemos.

"Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?"
(Pais e Filhos - Legião Urbana)

5 comentários:

Luciana Borba disse...

Belo post. Pais são pais em qualquer lugar ou momento. Acho que temos muito deles mas também aprendemos a não sermos tão iguais. Buscamos nos sonhos e caminho com a certeza de que temos para onde voltar.

Lúcia H. disse...

Assisti um Dorama: "Aikurushii". A mãe da moça diz: "Seja mãe" e ela: "Ah, sim, pretendo me casar e um dia ter filhos". A mãe (que estava doente para morrer): "Mesmo que não case". E ela:"ãhn?!" Se vc tiver filho(s), vou adorar ser tia-avó. Já perguntei pra Alan e Adriana quem vai me fazer tia-avó primeiro. Um jogou para outro. E você? Sei que tem muitos planos de crescer profissionalmente, viajar, sede de saber, mas mesmo que seja mais tarde... né? Sobre ser diferente... já me senti muito dessa forma. A Batyan até dizia que eu não era filha dela, que tinha me "encontrado" porisso eu era diferente da sua mãe e do tio Oti. Uma época até cheguei a acreditar e sofrer por isso. Hoje rio disso. Acho que comentei com vc uma frase que meu amigo Guilherme perguntou à Sensei como ficaria em Nihongo, de Bob Marley: "Vcs riem de mim porque sou diferente e eu rio de vcs porque são todos iguais". Não é importante ser igual aos outros... Ser original é tudo de bom! Bjs,
Tia

aline naomi disse...

Obrigada por comentar, Lu! :)

***

Tia,
antes eu queria muito ter pelo menos um filho adotivo para poder passar coisas boas para ele (ou ela) e também poder aprender com ele - quando a gente vira adulto parece que ficamos meio formatados e uma criança conseguiria me fazer ver a vida de uma forma mais rica, mas ultimamente tenho visto crianças tão malcriadas e impossíveis em lugares públicos (chorando, gritando, correndo) e fiquei imaginando que eu teria vontade de chorar se adotasse uma criança hiperativa e malcriada; não sei se eu teria estrutura psicológica para lidar com isso sem ficar em frangalhos (mental e fisicamente esgotada), por isso a ideia de ter filhos está suspensa.
E sobre ser "diferente", eu também já me senti mal por isso (de certa forma, a gente sempre quer se encaixar num grupo), mas hoje está tudo bem.
Beijos!

Lúcia H. disse...

Ainda espero que mude de idéia, um dia. Não tive filhos, tive medo de que isso me frustrasse um dia. Mas até o momento, não me afetou. E, depois tenho vcs: Aline, Alan, Dri, sobrinhos que me dão muito orgulho. Vcs tem muitas qualidades, mas uma em comum que acho bem bacana e é mérito de vcs: os três tem muitos amigos e são muito queridos por eles. É um dom saber cativar e manter bons amigos. Ah, uma vez vc tinha uns 11/12 anos, disse para a Batyan que queria ser minha filha, morar comigo. Que a Batyan tinha 3 filhos e 3 netos, mas que havia algo de errado, pois cada neto deveria se um de cada filho. Foi engraçado, na época. Mas se eu tivesse tido uma filha como vc que tem várias coisas em comum comigo, eu teria adorado.

aline naomi disse...

HAHAHAHA! Não lembro de ter comentado isso, tia. Mas não seria mal ter sido filha sua!