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sábado, 18 de agosto de 2012

Dois rios - Tatiana Salem Levy


Acabo de ler Dois Rios, da Tatiana Salem Levy, que o Álef, um colega do curso de tcheco, me emprestou na semana passada.

Quis ler esse livro desde que li um trecho na revista Bravo!, há meses. E, como o Álef já tinha lido, me emprestou.

Dois Rios é o nome de uma ilha onde uma parte da história acontece. Mas também entendo como uma metáfora da história dos dois irmãos gêmeos (Joana e Antônio) - dois rios que correm em direções diferentes, mas que acabam por desaguar no mesmo mar.

A primeira parte é narrada por Joana, que, depois da morte do pai, ficou no apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, com a mãe. E a segunda é narrada por Antônio, como se ele estivesse escrevendo uma carta ou falando em pensamento com Marie-Ange.

Marie-Ange é a mulher por quem os dois irmãos se apaixonam em momentos diferentes. Joana, quando a vê na praia em Copacabana, e Antônio, quando a vê no aeroporto em Paris.

Na primeira parte, Joana fala com encantamento sobre Marie-Ange, sobre um certo ressentimento que tem pelo irmão, que abandonou tudo e saiu mundo afora para trabalhar como fotógrafo. O tom é poético, mas meloso e passa pelo filtro de alguém que está apaixonado. Joana enfatiza muito o fato de Marie-Ange tê-la salvado (ideia com a qual não concordo; só acho que as pessoas podem ajudar, mas não SALVAR - só as pessoas conseguem salvar a si próprias, a não ser quando o salva-vidas te salva quando você está literalmente se afogando na piscina ou no mar e situações assim). Confesso que a uma certa altura, eu estava um pouco entediada com a voz da Joana. Gostei muito mais da segunda parte, narrada por Antônio, sem tanta melancolia e aquele tom meloso-apaixonado que a maioria das mulheres leitoras deve adorar e com o qual a primeira parte foi escrita. Mas nesse ponto a Tatiana Salem foi bem-sucedida. Não é fácil (pelo menos para mim) contrapor vozes de personagens diferentes sem que elas pareçam a mesma voz. O contraste das narrações é nítido.

O enredo, principalmente a segunda parte, me lembra o do filme A Aventura, do diretor Michelangelo Antonioni, e, consequentemente, o livro Minha querida Sputnik, do Haruki Murakami, que foi inspirado no filme do Antonioni. Não vou contar muito mais, porque, senão, estrago a essência do livro. Mas quem já viu o filme do Antonioni ou leu o livro do Murakami deve imaginar o que acontece em Dois Rios.

Uma curiosidade: na segunda orelha do livro, que fica no final, tem uma pequena biografia da autora e uma foto dela. Ao lado esquerdo da foto, o crédito: "Marie-Ange Luciani". Talvez essa Marie-Ange da vida real tenha servido de inspiração para a Marie-Ange personagem!

Trechos selecionados:

Joana

"Tudo o que eu queria naquele momento era sentir as mãos de Marie-Ange pelo meu corpo. Seria bom se ela o adivinhasse, pensei, mas o desejo de ser tocada era ainda melhor do que ser tocada. Meu corpo queria suas mãos, talvez seu corpo também quisesse as minhas, e era assim que eles se tocavam, nossos corpos, sem nenhum gesto."

 "Minha vontade de beijá-la de repente se tornou vontade de beijar o mundo inteiro, as crianças, os velhos, as prostitutas, as gordas, os sarados, as magras, o homem da barraquinha [...] Eu, ao lado dela, esquecia tudo o que havia atrás de mim e cobiçava apenas o que ainda não conheço. Eu, ao lado dela, o desejo de me esquecer e voar na direção do outro, dos outros. Eu, ao lado dela, uma enorme vontade de viver."


Antônio

"Desde então quase não descansei. De vez em quando passo pelo Brasil, pela casa da minha mãe, e reforço a certeza de não pertencer a lugar algum, de querer continuar perambulando por terras desconhecidas, encontrando pessoas que mal posso imaginar. O mundo, no lugar da pequenez das dores domésticas."

"Eu quis dizer alguma coisa, mas não sabia o quê. Já tinha me apaixonado algumas vezes, duas ou três, mas sempre evitava permanecer muito tempo com a mesma mulher. A partir de um determinado momento eu ficava aflito, com receio de me prender a alguém e ter que abrir mão da minha vida."

Encontrei este vídeo da autora falando do próprio livro no Youtube.

4 comentários:

Lúcia H. disse...

Bacana a idéia: dois narradores.
Fiquei curiosa. Talvez leia, qquer hora dessas.

aline naomi disse...

O legal é que cada um deve se identificar mais com um dos personagens. Estava lendo críticas de outras pessoas e tem gente que gosta muito mais da Joana!

cristina disse...

Gostei muito de seu comentário sobre "salvar" alguém em momentos significativos, para não dizer cruciais da vida. Uma amiga comentou sobre o livro e eu resolvi fazer umas pesquisas. Parece, para mim, aqueles livros que se lê em determinado momento da vida, aquele que estamos procurando identificações com as coisas, histórias, talvez semelhanças com a nossa vida. Obrigada por postar sobre o livro, bjos!

aline naomi disse...

Oi, cristina!
Obrigada pelo comentário. Leia o livro e, se der, depois volte para dizer com que personagem se identificou mais. O livro fala sobre mudança de vida, pessoas que de certa forma foram transformadas pelo amor de outra pessoa...
Beijo!