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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bate-papo com Fábio Moon, Gabriel Bá e Laerte no CCBB

No dia 31/07, numa terça, depois do trabalho, fui para o CCBB, lá perto da Praça da Sé, para encontrar o Sergio, que me convidou para ver um bate-papo sobre HQs com os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (escrevi sobre a maravilhosa HQ Daytripper deles aqui) e com o (a) Laerte, ou seja, um evento muito legal! Coloquei o "o (a)" na frente do nome do(a) Laerte porque, como agora ele(a) se veste de mulher, não sei bem como ele(a) prefere ser chamado. Achei interessante uma pessoa da plateia, ao fazer uma colocação e uma pergunta no fim do evento, dizer coisas do tipo: "Eu gostaria de perguntar para a Laerte..." com bastante naturalidade. De início, não sei se conseguiria, porque meu lado racional de revisora analisaria "Laerte" como um nome masculino, logo, não dá para colocar um artigo feminino antes dele. Dá. Claro que dá. É só não deixar meu lado revisora tomar conta da situação.

Vendo esta tirinha (amei!), acho que a Laerte prefere ser tratada no feminino mesmo:





Mas, voltando ao bate-papo, quando cheguei, já havia uma fila enorme do lado de fora do CCBB. O Sergio, que estava em segundo lugar na fila, conseguiu ingresso para para a sala onde os convidados e o mediador iam estar em carne e osso e eu consegui ingresso para uma sala em frente, onde eles estariam apenas virtualmente, projetados em um telão. Apesar de eu ter insistido para o Sergio ir lá ver o pessoal na sala em que eles estariam (muito mais legal!), ele acabou trocando o ingresso e entramos na sala com o evento projetado. Quando entrei, os gêmeos estavam acabando de falar algo, agradecendo a presença, não sei, e logo me veio: "Mas e o Laerte?", olhei para trás e vi que tinha passado por ela sem perceber... e fiquei com uma sensação de deslumbramento por estar perto de pessoas que eu admiro.

Os três convidados foram para outra sala, se juntar ao mediador, Xico Sá, e ficamos aguardando o evento começar. Primeiro, falaram os  gêmeos. Fizeram uma apresentação em Power Point, com vários desenhos feitos em diferentes fases da vida deles. Falaram que começaram a desenhar juntos desde pequenos, que o fato de serem gêmeos e gostarem de desenhar estreitou os laços entre eles. Descobriram, ainda na FAAP, onde estudaram, que queriam trabalhar com HQs - nessa época desenhavam e vendiam fanzines (acho que semanais) por 0,50 para os colegas de faculdade, só para não darem de graça, "porque se você dá algo de graça, as pessoas não dão valor". Apesar do enorme sucesso que Daytripper fez, os editores americanos não tinham certeza absoluta de que queriam publicá-la (essa HQ foi lançada primeiro nos Estados Unidos e ficou na lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times). Para mim, o mais tocante foi perceber o tanto de amor que eles têm pelo trabalho que fazem, e, ao mesmo tempo, a consciência que têm de que se pararem de desenhar hoje, de divulgar o que fazem em redes socias e eventos diversos, tudo isso que eles levaram muitos anos para construir acaba. Gosto muito de pessoas que acreditam no próprio trabalho e seguem em frente, por mais difícil que seja (não imagino como deve ter sido viver de quadrinhos antes de eles serem conhecidos, como faziam para pagar as contas e aquele sentimento que talvez devia bater: "Estamos fazendo a coisa certa? Vale a pena?"). E o mais difícil é que eles optaram por HQs autorais, com profundidade literária, se tivessem optado por super-heróis ou coisas do tipo "Turma da Mônica", talvez o caminho teria sido menos árduo. Eles falaram que leem todo tipo de HQ e gostam da diversidade (em momento algum falaram mal dos super-heróis, que eles cresceram lendo, nem de HQs mais comerciais), mas optaram por contar e desenhar as próprias histórias.

Com a Laerte, o tom da conversa foi um pouco menos caloroso, tive a sensação de que ela não curte tanto desenhar como os gêmeos, não consegui sentir aquela coisa que os  gêmeos pareciam transpirar o tempo todo: "amamos o que fazemos, sem isso não conseguimos viver", e se tornou cartunista meio por acaso. Teve uma hora em que ela falou que achava que gostava mais de ler HQs do que de produzi-las... haha. Falou um pouco sobre o contexto político conturbado pelo qual o país passou e como foi trabalhar naquela época em que as HQs só podiam ser encontradas nas bancas de jornal. De uma outra época.

O bate-papo foi filmado e está disponível aqui no ideia@s online, um projeto muito bacana do CCBB. Para quem gosta de quadrinhos e do trabalho do Moon, do Bá e da Laerte, vale a pena ver o vídeo, que é longo (tem mais de duas horas), mas muito muito rico. Tem também uma entrevista exclusiva com a Laerte que pretendo ver assim que der.

Aproveito o post para divulgar uma matéria engraçadíssima, mas com fundo sociológico verdadeiro, que saiu na revista Piauí, em outubro de 2010, e que o Chico, um amigo tradutor, divulgou no Facebook (apesar da minha total aversão ao Facebook, admito que às vezes amigos postam dicas ótimas de tudo quanto é coisa por lá): O louco de palestra, por Vanessa Barbara.

O texto é longo, como avisou o Chico, mas bem divertido. Quem costuma frequentar palestras, congressos e eventos com convidados falando sobre vários temas, certamente vai lembrar de várias situações parecidas com as descritas ali. E por que divulgo a matéria sobre louco de palestra nest post? Bom, porque, no fim do bate-papo, a plateia pôde fazer colocações e perguntas para os quadrinistas, e várias pessoas puderam exibir o lado "louco de palestra" que existia/existe em cada um de nós. A diferença é que alguns de nós conseguimos reprimir isso e  o consequente constrangimento para quem está lá na frente.

Eu e Sergio achamos que não valia pena ficar para ouvir colocações e perguntas sem sentido e saímos antes do fim. Descobri que, para ser palestrante, é preciso, além de tudo, uma paciência de Jó.

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