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domingo, 26 de agosto de 2012

O Romance - James A. Michener

Já faz um tempo que terminei de ler esse livro e queria escrever sobre ele. Pelo título, eu nunca imaginaria se tratar de um romance sobre o meio editorial. O crédito pela indicação e empréstimo do livro vai para o sr. J.B., com quem trabalho.

Se eu pudesse escolher, só trabalharia com editores que gostam de ler e leem. Não consigo levar muito a sério editores de livros que não leem.


O livro foi lançado no Brasil pela editora Rocco em 1992, ou seja, há vinte anos, mas o conteúdo do romance é muito atual, principalmente a questão da venda de direitos autorais para outros países, que movimenta muito dinheiro. Para quem não sabe, funciona assim: a editora que publica um livro detém os direitos de publicação no país de origem e, em geral, em todos os outros também, se ele “estoura” e vira best-seller (ou mesmo antes, dependendo da reputação do autor), editoras de outros países querem publicar, então é preciso negociar: por quanto a editora venderá os direitos de publicação? Depois da negociação - às vezes envolvendo várias editoras que querem publicar a tradução -, a editora estrangeira paga um adiantamento e, posteriormente, mais uma porcentagem de acordo com a venda dos livros, sendo que uma parte disso a editora “original” repassa para o autor. Por exemplo, o acordo é fechado em R$ 50 mil (estou chutando um valor para um livro best-seller) em adiantamento; quando a editora atinge a marca de X exemplares vendidos e esses R$ 50 mil já tiverem sido quitados em vendas, a editora passa a pagar uma porcentagem sobre a venda semestral ou anual dos livros, dependendo do que foi acordado. Enfim, fiquei surpresa de saber que isso já existia nos anos 90, e provavelmente existiu desde sempre!

O Romance é dividido em quatro partes, narradas em primeira pessoa pelos seguintes personagens:

1. O escritor – Lukas Yoder

2. A editora de texto – Yvonne Marmelle

3. O crítico – Karl Streibert

4. A leitora – Jane Garland

Lukas Yoder é o escritor que escreve romances baseados na cultura e nos costumes de uma comunidade de imigrantes alemães do Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos; ele fracassa em venda nos primeiros trabalhos, mas com a ajuda da editora Yvonne Marmelle, consegue atingir o sucesso depois de anos de persistência. Sua esposa o apoia e sempre apoiou – foi ela quem trabalhou como professora para sustentar a casa enquanto ele escrevia.

Yvonne Marmelle começou a gostar de ler ao ser incentivada por um tio, ainda criança. Teve de deixar a faculdade depois do primeiro ano, pois o pai perdeu o emprego e ela precisava trabalhar e ajudar a pagar as contas da casa. Foi encaminhada pelo pai para trabalhar em uma fábrica, mas, ao chegar no bairro onde a tal fábrica funcionava, decidiu que não era aquilo que ela queria para a vida dela e se dirigiu para Avenida Madison, em Nova York, onde funcionavam (talvez ainda funcionem?) várias editoras de livros. Lá ela conseguiu um emprego de datilógrafa na editora Kinetic, onde foi crescendo, até se tornar editora. Na vida pessoal, ela tem uma história interessante com um escritor meio vagabundo, que se acha um escritor maravilhoso, mas que não consegue escrever nada, fica lendo jornal e bebendo enquanto Yvonne se mata de trabalhar na editora.

Karl Streibert é o crítico de “alta literatura” e professor universitário, discípulo de um famoso professor britânico, com quem tem um affair [na verdade, é mais que isso, é uma ligação de “amor intelectual”], que luta para escrever um romance, enquanto descobre talentos literários entre seus alunos. Na vida pessoal, seu mentor morre de Aids, e, na vida profissional, ele aceita o fato de não ser um bom escritor, embora consiga fazer análises brilhantes do trabalho de outras pessoas.

Jane Garland é a leitora cujo neto escreve brilhantes manuscritos. Ela é viúva e, com a herança que o marido milionário deixou, ajuda a patrocinar atividades na faculdade onde Karl Streibert leciona e atividades culturais em geral para a comunidade da cidade onde mora. Leitora ávida, gosta dos romances de Lukas Yoder, com quem tem contato pessoal, mas o neto defende que eles não têm qualidade – visão compartilhada por Streibert.



Capa do livro em inglês. Achei por R$ 5,50 na Estante Virtual!


Em meio a tramas pessoais e profissionais dos protagonistas, vários detalhes do meio editorial são revelados: a questão da venda de direitos autorais, como já citei; o trabalho de seleção de original para publicação e acompanhamento do texto durante a produção do livro (Yvonne Marmelle indica vários pontos a ser melhorados nos romances de Yoder e ele trabalha com afinco neles); best-sellers de qualidade duvidosa precisam ser publicados, pois sustentam financeiramente a editora (como as pessoas compram muito, a editora arrecada um bom lucro e pode investir em novos, e talvez melhores, autores); a dificuldade para lançar livros e sobreviver sendo autor; o poder da crítica, que pode tanto alavancar a carreira de um escritor como destrui-la; a compra de editoras pequenas por grandes conglomerados editoriais multinacionais (isso já acontecia no começo dos anos 90!, fiquei muito surpresa), entre várias outras questões.

Leitura obrigatória para quem trabalha no meio!

Agora estou lendo, entre vários outros (porque não consigo ler só um de cada vez, é muita hiperatividade mental...), Ser Feliz®, do canadense Will Ferguson, sobre um editor que lança um livro de autoajuda que vira best-seller: todos mudam radicalmente para melhor e o que importa é ser feliz e fazer do mundo um lugar melhor para todos. É de um sarcasmo fenomenal. Depois escreverei sobre ele aqui, mas já deixo a dica.

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