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sábado, 13 de outubro de 2012

A arte de criar os filhos

No começo do mês, li essa notícia, sobre um menino de 12 anos que "caiu" [eufemismo para o fato de ele ter se jogado?] do quinto andar do tradicional colégio de São Bento, no Rio de Janeiro.

Fiquei pensando nas dificuldades e na responsabilidade de se ter filhos.

Sei que, na verdade, talvez só os pais e pessoas mais próximas saberão o que realmente aconteceu para a criança ter tomado essa decisão drástica, mas dois trechos da matéria me chamaram a atenção: o fato de o menino ter mudado de colégio e ter tido um período difícil de adaptação e o fato de ele ser "introvertido".

É compreensível que os pais queiram que os filhos estudem nos melhores colégios (a mãe dele era professora de português nesse colégio e, por isso, provavelmente não pagava a mensalidade em torno de R$ 2 mil), mas até que ponto isso vale a pena? É fato que o quanto mais puxado é o colégio, mais os estudantes estudam, mas será que todos estão preparados para tantas exigências? Talvez os pais, por estarem muito focados no trabalho e em outros problemas, não percebam o quanto os filhos estão sofrendo ou simplesmente não estão felizes, então, quando algo assim acontece, é tudo uma surpresa.

Não estou julgando os pais, nem tenho respostas, mas me coloco no lugar de pessoas que têm filhos e penso se eu conseguiria fazer melhor e se meus filhos seriam felizes.

Quando terminei a sétima série em um colégio estadual, meus pais me colocaram em um colégio particular perto de casa. Acho que a ideia era eu ter uma oitava série um pouco melhor porque no ano seguinte (colegial) eu certamente iria para um colégio particular puxado. Eu não gostei do colégio. A sala tinha uns quinze alunos, dos quais a maioria se conhecia desde a primeira série. Que eu me lembre, só tinha eu, um menino e outra menina de alunos novos na sala. A menina, de quem fiquei amiga, acabou saindo depois de alguns meses. Acho que o menino gostava de mim, porque lembro de ele ter mandando uns bilhetes se declarando - e o pessoal ficava nos zoando muito por isso, mesmo eu não tendo nenhuma reação, lá eu era apática. Lembro que os meninos eram verdadeiros capetas, chegaram a jogar pó de giz no cabelo de uma professora e de tê-la feito chorar em sala, entre várias outras capetices. Não sei que tipo de educação esses moleques recebiam em casa, os pais deles deviam ser pessoas ótimas a julgar pela forma como os filhos se comportavam. E, nessa época, eu também era muito "introvertida". Me sentia ameaçada ao me expor e não tinha vontade de falar com ninguém da sala, porque essas pessoas não faziam sentido para mim, ser amiga delas ou não, para mim, tanto fazia. Não tinha vontade de ir para o colégio. A minha sorte foi que falei que não queria mais estudar lá para os meus pais e eles acataram a minha decisão. Esperei o primeiro semestre terminar e depois voltei para o colégio estadual onde estavam amigos com quem eu tinha estudado por anos. Fiquei contente, era isso que eu queria. Entendo que para a minha formação como estudante foi ruim, porque, lógico, na escola particular os professores eram melhores e a qualidade de ensino também, só que: eu não estava feliz.

Imagina se meus pais trabalhassem feito malucos para pagar as contas e me obrigassem a continuar estudando onde eu não queria, simplesmente porque, para eles, era a melhor opção para mim? Se minha mãe trabalhasse fora, eu certamente teria começado a matar aula.

Para quem nunca passou pela situação, parece "bobagem", "coisa de criança", mas, para a criança, é algo que pode chegar a ser insuportável. Para adultos, equivale a trabalhar com pessoas odiosas em um ambiente que não faz sentido. Apenas com a vantagem de que quando somos adultos, em geral, conseguimos construir uma armadura para que as coisas ruins nos atinjam menos e que somos responsáveis pelos nossos atos e decisões, diferentemente da criança, cujos pais podem ter ideias como esta: "eu pago as suas contas, você vai fazer o que eu quero; quando você pagar as suas contas, você faz o que quiser".

Sinto muito pelo menino e também pelos pais, que precisarão conviver com a culpa inevitável e com a dúvida: "poderíamos ter feito melhor?".

Chego à conclusão óbvia de que nem sempre o que os pais acham melhor é, de fato, o melhor para os filhos.

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