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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hoje eu sou Alice - Alice Jamieson


Se você passou pela infância e pela adolescência sem ser abusado(a) física, emocional ou psicologicamente nenhuma vez, é uma pessoa de sorte. É essa a sensação que tive ao terminar de ler a autobiografia da inglesa Alice Jamieson, escrita com ajuda de Clifford Thurlow, publicada no Brasil pela Larousse em 2010.

Também lembrei de um Papai Noel de luto que vi na TV há alguns anos. Ele se vestia de preto e carregava um manifesto escrito ''Estou de luto por todas as crianças que foram violentadas, estupradas e mortas por monstros em formas humanas''. Depois de ler o livro, isso faz ainda mais sentido para mim.

 Nilson Francisco dos Santos, Papai Noel de luto

A foto acima foi retirada deste site. Vale a pena ler a matéria. Hoje em dia o Nilson protesta contra a corrupção no governo (leia aqui).

Voltando, não sei exatamente como cheguei a este livro, mas o que me chamou a atenção e despertou a vontade de lê-lo foi a doença de Alice: Transtorno de Personalidade Múltipla (ou Transtorno Dissociativo de Identidade). Quis saber como era ter que conviver com isso. Como conviver com vários tipos de personalidades e manter um pouco de sanidade? Seria possível?

Alice foi diagnosticada com o transtorno quando tinha 24 anos, em 1993. Ela o desenvolveu depois de ser abusada sexual, física e emocionalmente de modo constante pelo próprio pai e às vezes por membros de um grupo de pedófilos, para os quais o pai a cedia em sessões que, quando ela era pequena, pareciam "cultos ao demônio". Ninguém poderia desconfiar desse conto de horror, pois eles eram uma família perfeita e próspera, moradores de uma região abastada de Midlands, Inglaterra.

"Este é o pesadelo:
Estou deitada na cama e olhando para o teto, onde o móbile projeta padrões variantes que giram em círculos acima de mim. As sombras movem-se mais rápido quando a porta se abre e um homem coberto pela escuridão entra devagar. Ele pega meus bichinhos de pelúcia e os joga no chão. Tira meu pijama. Beija meus lábios. Coloca o pingelo na minha vagina, no meu bumbum, na minha boca. Sinto novamente o gosto de leite azedo que sai do seu pinguelo. O gosto permanece na minha boca ao longo de todo o dia seguinte.

Era o mesmo pesadelo que me perseguia desde a adolescência, desde a puberdade, mas com uma diferença sutil. A outra garotinha que observava aquelas cenas não estava lá. O homem no sonho era claramente meu pai, e a menininha era eu." 
(p. 127)


"Uma menininha com cerca de seis anos que se parece comigo, mas que não sou eu, sente-se feliz ao sair do carro com seu papai. Eles entram no castelo e descem as escadas para a masmorra, onde pessoas se movem como sombras à luz de velas. Há tapetes e retratos engraçados nas paredes. Algumas das pessoas usam túnicas e capuzes. Às vezes, elas entoam cantos com vozes monótonas que assustam a menininha. Há outras crianças, algumas completamente despidas. Há um altar como o da Igreja de Saint Mildred da vizinhança. As crianças se revezam no altar a fim de que as pessoas - a maioria homens, mas também algumas mulheres - possam beijar e lamber suas partes íntimas. O papai da garotinha segura sua mão com força. Ela olha para ele, que lhe sorri. A menininha gosta de passear com seu papai."
(p. 71)

Como forma de autoproteção, sua identidade foi fragmentada. Alice desenvolveu várias identidades "alternativas" para lidar com o trauma do abuso. As principais identidades eram: o Professor, o bebê Alice, Billy, Samuel, Shirley, Kato, Eliza e J.J. Cada personalidade tinha suas próprias memórias e falavam entre si na cabeça de Alice ou com ela, incentivando-a sempre a se matar, pois não valia nada.

Em meio a descobertas sobre seu próprio passado, Alice conta sobre sessões com psicólogos, internações, TOC, anorexia, abuso de drogas, do estupro que o pai cometeu quando ela o confrontou sobre os abusos, aos 21 anos, o primeiro amor, viagens, o amor que sentia pelo avô, a relação com a mãe, Alec, sua alma-gêmea, o processo de aprendizado para lidar com a própria doença.

Ela chegou a processar o próprio pai, que era procurador em Birmingham, e conseguiu ganhar uma indenização, que certamente não paga todo o sofrimento e os transtornos indeléveis que ele lhe causou, mas dá um certo alívio de saber que existe alguma justiça no mundo. O livro não diz se o pai foi preso ou o que aconteceu com ele.

Não é leitura para qualquer um, me deu bastante angústia ao ler várias passagens, e fiquei pensando se há alguma forma de minimizar o problema da pedofilia. Seria o caso de falar sobre isso nas escolas, desde o pré-primário? Muitos abusadores ameaçam as crianças, que, por terem muito medo, não conseguem pedir ajuda. Não sei o que os pais achariam disso. Os pais que abusam dos filhos certamente não iam gostar.

As (auto)biografias sempre me fazem ver as pessoas por ângulos diferentes, por isso gosto tanto delas. Não que os livros de ficção não me proporcionem isso, é que as autobiografias fazem isso com muito mais intensidade. São pessoas reais falando sobre vivências reais. Muitas vezes julgamos as pessoas por elas serem "estranhas" demais ou terem comportamentos bizarros, que destoam muito da "normalidade", sem pensar que são diferentes de nós, tiveram experiências diferentes (às vezes, traumáticas) e toda a soma disso se reflete no que elas são e fazem hoje.

Lembrei desses filmes que tratam do tema pedofilia:

1. Mistérios da Carne (Mysterious Skin)
2. Na captura dos Friedmans (Capturing the Friedmans) [documentário]
3. O lenhador (The Woodsman)
4. Má educação (La Mala Educación)
5. Festa de família (Festen)
6. Preciosa (Precious)
7. Marcas de um passado (Runaway)
8. Anjos do Sol
9. Lolita

E também de um livro de ficção da Hilda Hilst, O Caderno Rosa de Lori Lamby (narrado pela própria criança). Esse eu ainda não li, mas parece bom, especialmente por ser narrado por uma voz infantil, por chocar e, consequentemente, provocar algum tipo de reflexão nos leitores.

O que os pais podem fazer para prevenir o abuso sexual e proteger seus filhos - clique neste link do "Observatório da infância".

E, por fim, esse vídeo que dispensa palavras:



Um comentário:

Anônimo disse...

Simplesmente alucinante esse livro. Um misto de angustia pelas situacoes e despreso por esse ser que e chamado de pai.
Deveria ser lido por profissionais da efucaçao e assistencia social. Qualquer sinal de abuso deve ser investigado.