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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Um alguém apaixonado - Abbas Kiarostami


O título do filme mais recente de Abbas Kiarostami, Um alguém apaixonado, pode não impressionar e ser confundido com algum filme romântico-padrão, mas está bem longe disso. Em inglês, foi batizado de Like Someone in Love, nome de uma música de Ella Fitzgerald, que também não diz muito sobre o conteúdo do filme.

Depois de filmar Cópia Fiel na Itália, Kiarostami ambientou esta história em Tóquio, e "não poderia acontecer em nenhum outro lugar", segundo o próprio diretor, ao responder à pergunta de alguém da plateia: "Por que Tóquio?", depois de uma sessão do filme no CineSESC, como parte da programação da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no fim do mês passado. O diretor contou que esteve no Japão há muitos anos e sempre quis filmar algo lá. Pelo visto Tóquio fascina não só a mim...

Em um bar de jazz em Tóquio que me remeteu a algum livro do Haruki Murakami (que, antes de ser autor, foi dono de um bar de jazz e em pelo menos um de seus livros parte da história se passa nesse tipo de ambiente), em pouco tempo descobrimos que Akiko (Rin Takanashi) é uma das garotas de programa que trabalha no local. Por insistência do dono, um "cafetão de classe", ela deixa de ir ao encontro de sua avó, que viria de uma cidade do interior para Tóquio naquele dia, para se encontrar com um amigo pessoal dele.


Akiko entra em um táxi e, antes de ser levada para o seu destino, pede para o motorista dar a volta em uma praça onde a avó disse que estaria. Pela janela do carro, ela avista a avó, que havia lhe deixado várias mensagens manifestando seu carinho e a imensa vontade de encontrá-la, e retornaria à sua cidade naquela noite. Talvez ela tenha pensado em descer e desistir do programa, algumas lágrimas correm, mas ela se deixa conduzir. Adormece no táxi.


O amigo do cafetão, Takashi (Tadashi Okuno), é um senhor octagenário, ex-professor universitário, escritor e tradutor.


Akiko fica surpresa com tantos livros na casa de Takashi e também com um quadro que para ela era familiar.

Depois de conversar amenidades, Akiko caminha até o quarto, porque diz que está com sono. Takashi esperava que ela jantasse a refeição que ele havia preparado para ela.


Ela adormece e o olhar paternal de Takashi paira sobre ela. Ele não se aborrece com isso, como se o encontro nunca tivesse tido uma intenção sexual.


Logo no início do filme, no bar, Akiko aparece discutindo com o namorado pelo celular e esse assunto é retomado na manhã seguinte ao encontro com Takashi, que inclusive a leva, toda sonolenta, para uma prova - ela estuda Ciências Sociais na mesma universidade em que Takashi lecionara há muitos anos.




Ao chegar na universidade, o namorado, Noriaki (Ryo Kase), começa a discutir com ela, confirmando sua personalidade possessiva e ciumenta (o que já fora contado por Akiko a uma amiga no bar), enquanto Takashi os observa do carro. Ele havia dito que a esperaria. Akiko segue para fazer a prova e Noriaki puxa conversa com Takashi e interpreta que ele é avô de Akiko, o que Takashi não confirma nem nega.



Depois de acontecimentos mais ou menos banais e de uma calmaria, o filme toma outros rumos.

Akiko parece uma boneca de porcelana, bonita e frágil, que não consegue ter as rédeas da própria vida. No entanto, é apenas a minha impressão e o que o recorte de sua personalidade me permite ver num período muito curto de tempo. Ou talvez ela só esteja tentando se acostumar com a megalópole em que tudo acontece muito rápido, na velocidade do trem-bala, e não há tempo para sentir nem digerir os acontecimentos. A solidão dos personagens é latente. Como em Encontros e Desencontros, os personagens parecem meio "à deriva" - não se fundem harmoniosamente ao ambiente, estão ilhadas em seus próprios mundos, com possibilidades subjacentes.

Em quase duas horas e no curto espaço de tempo em que a própria narrativa acontece (mais ou menos um dia), Kiarostami consegue mostrar de modo delicado e ao mesmo tempo intenso como as pessoas podem interferir e alterar o destino umas das outras, mesmo em acontecimentos aparentemente banais do dia a dia.

Trailer do filme:



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