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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Samba e feijoada no Traço de União

O título do post também poderia ser: "Samba e feijoada - uma visão", "Algumas reflexões sobre o samba de elite em São Paulo" ou "Pessoas que não gostam de samba, mas que vão para a roda de samba" [a Marina, uma amiga, brincou que ia fazer um doc comigo com esse último].


Sábado passado fui encontrar amigos num lugar chamado Traço de União, quase ao lado da estação de metrô Faria Lima, em Pinheiros, onde tocam samba e, dizem, a feijoada é muito boa.

A Carol, com quem estudei tradução, e o marido, que atualmente moram em Atlanta, Estados Unidos, vieram passar as férias no Brasil e ficaram o fim de semana em São Paulo, antes de ir para Rio Preto, onde mora a família da Carol, aí aproveitamos para marcar esse encontro. A Day, uma amiga em comum da faculdade, sugeriu o Traço, porque adora samba e já o frequentava; todo mundo que queria ir para o encontro, aparentemente, também gosta de samba, e a Carol queria mesmo algo nessa linha "genuinamente brasileira", então fomos para lá. Mas, por e-mail, já tinha avisado que samba não era a minha praia e que eu não me estenderia muito - depois de um tempo a música (não só samba, mas qualquer outra que não agrade os meus ouvidos, ou seja, quase todas) começa a ficar insuportável. Infelizmente, a maioria das músicas para mim soa como barulho de britadeira, buzinas, furadeira etc. e, depois de um tempo, começa a me incomodar muito, às vezes até me dá dor de cabeça. Não estou reclamando, nem tenho motivos para isso, porque a maioria quis ir para esse lugar, então, como minoria, aceitei o convite e fui, porque adoro essas pessoas e para vê-las toparia até ir para o baile funk ou para o "sertanejo universitário", se eles assim quisessem.

Marcamos o encontro para mais ou menos às 13h, para podermos comer e conversar, antes que o lugar ficasse cheio - a Day comentou que depois das 16h ninguém mais entrava direto, porque a partir disso começava a formar fila de espera. Eu, a Rê e a Marina chegamos lá pelas 14h, uma amiga da Carol que não conhecíamos já estava lá há algum tempo, sozinha, coitada. Pedimos uns sucos e petiscos e ficamos lá esperando a Carol e demais pessoas, que chegaram quase 16h por causa do trânsito caótico dessa cidade. Quando chegamos, estava ótimo, com um número de pessoas razoável, a música para mim ainda estava boa. Às 16h30 os funcionários retiram as mesas que ficam no corredor central do galpão (é, o lugar é um galpão!), para poderem enfiar mais gente que gosta de sambar lá dentro - tem lógica, já que a entrada custa R$ 30, até às 16h tem um desconto e a entrada sai por R$ 25 [esse valor é apenas da entrada/couvert e não é convertido em comida ou bebida; o suco de fruta custa R$ 6/copo - é o preço mais alto que já paguei por um suco de melancia na vida! -, e a porção de batata frita, R$ 14; a feijoada deve custar entre R$ 50 e R$ 60 - como não comi a feijoada, não sei exatamente quanto custa]. Depois das 16h30, a coisa começa a ficar um pouco desagradável para quem não gosta de lugares lotados...

Foto by Carol ou Catherine

Conversei e ri mais um pouco com os amigos e lá pelas 18h aproveitei a saída da Camila, a amiga da Carol que tinha chegado primeiro, e também fui embora.

Quando estava passando pela multidão para chegar ao caixa, pagar e sair, um cara passou a mão no meu braço propositalmente, como uma "provocação", morri de nojo e fiquei pensando que se eu estivesse acompanhada de outro homem, ele jamais faria isso. Mas não dei muita importância porque, no fim das contas, quem estava no lugar "errado", eu ou ele? Concluo que quando você vai para um lugar desses (assim como para uma danceteria ou para uma casa de swing, entre outros lugares específicos), já sabe o público que vai encontrar e que, muito provavelmente, as pessoas vão ficar alteradas por causa da bebida e essa interação (encostar em desconhecidos, passar a mão) se torna "normal" [observação: odeio que pessoas desconhecidas fiquem tocando em mim, me sinto muito ameaçada e me afasto rápido]. E senti que nesse lugar o samba é só um pretexto para o pessoal beber, ficar louco e engajar essas interações corporais; imagino que a maioria das pessoas que o frequente é solteira.

Outra observação que faço é o fato de elitizarem o samba, um tipo de música popular. Então concluo que quem frequenta o Traço é do tipo que, conscientemente ou não, tem a seguinte postura: "Gosto de samba, mas não me misturo com a gentalha, por isso pago R$ 30 de entrada". Para mim é muito paradoxal, porque o samba deveria ser acessível a todos, principalmente para quem ama samba de verdade e não pode pagar isso de entrada. É meio triste se for pensar: o samba como qualquer outro produto que pode ser embalado e vendido para a elite.

De qualquer forma, valeu para conhecer o lugar e constatar que não tem nada a ver comigo. São Paulo tem lugares que eu nunca saberia que existem se amigos não me fizessem frequentá-los... e isso é um aspecto que considero positivo, porque estou aberta a novas experiências nessa cidade com possibilidades infinitas.

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