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sábado, 30 de março de 2013

28 de março - Dia do Revisor (algumas reflexões)

Muito trabalho e meus blogs largados. Continuo com o objetivo de juntar dinheiro para estudar publicação no exterior, então, alguns sacrifícios são inevitáveis. Às vezes é preciso abrir mão do que se quer fazer para fazer o é preciso fazer e alcançar objetivos.

***

Eu não sabia, mas dia 28 de março é "Dia do Revisor". Fiquei sabendo por alguns posts de amigos no Facebook e por alguns tweets que recebi no dia. Devido às últimas experiências como revisora, gostaria de escrever algumas reflexões sobre a profissão.

Bom, meu último trabalho de copidesque (a definição segue no próximo parágrafo) de um livro traduzido foi bastante trabalhoso e confesso que praguejei bastante enquanto trabalhava nele, pois em vários trechos parecia que o tradutor não tinha compromisso nenhum com o trabalho que estava fazendo.

Definição de copidesque tirada daqui:
  
“A atividade de copidesque é mais complexa que a de revisão. (…) Se um texto é mal redigido, com repetições injustificáveis, mal paragrafado, contendo ideias desconexas, primando pela falta de coesão e coerência textual etc., ele deve ser copidescado. No processo de copidesque, o profissional propõe, reescreve, revisita o original, com a finalidade precípua de ‘relavrar’ o texto. Há textos ricos em conteúdo, mas que não resistem a uma análise acurada. É nessa hora que o revisor (ou o copidesque) tem de exibir o seu conhecimento de leitura, de cultura geral, e sua habilidade na produção de texto, conferindo clareza ao trabalho.” [NETO, Aristides Coelho. Além da Revisão: critérios para revisão textual. Brasília: Editora Senac-DF, 2008]

Fiquei perplexa com o estado do texto, pois o penúltimo trabalho de copidesque foi bastante tranquilo. A tradutora era excelente e dava para ver que havia todo um trabalho de pesquisa por trás para justificar as traduções.

Sinceramente, não sei se é antiético, imagino que não, pois não citarei nome do tradutor, título do livro e nem editora, mas gostaria de compartilhar alguns pontos críticos e recorrentes ao longo da tradução desse último livro que copidesquei:

1. frases sem sentido;
2. frases traduzidas ao pé da letra (que até eram compreensíveis, mas não fluentes, pelo menos no português do Brasil);
3. uso abusivo de palavrões quando o próprio autor não se utilizava desse tipo de linguagem;
4. saltos de tradução (trechos não traduzidos);
5. personagem chamado "Carl", que no meio do livro vira "Carlos" e depois volta a ser "Carl";
6. erros de digitação muito acima do aceitável;
7. inclusões de informações não descritas pelo autor e que alteravam ligeiramente a leitura (exemplo inventado para ilustrar: "Fulano vestia uma blusa de lã vermelha que havia sido tricotada pela avó", sendo que "vermelha que havia sido tricotada pela avó" não existia no texto original) - isso para mim é um indício de que o tradutor é meio frustrado, queria muito ser autor e, como tradutor, não respeita o texto original, acha que pode "melhorá-lo" em algum sentido;
8. tradução não condizente com o original, o que dava a impressão de que o tradutor não pesquisou nada, fez tudo no "achômetro".

Por falta de uma análise mais cuidadosa minha, havia prometido entregar o copidesque em uma semana, porque foi o prazo solicitado - eles precisavam disso com urgência - mas, diante desses problemas, não consegui e pedi mais uma semana. Lição aprendida: fazer pelo menos as primeiras páginas do trabalho antes de aceitar o prazo de entrega solicitado (apenas havia lido uma parte do texto e não consegui detectar todos os problemas) e negociar, se for o caso. Também é importante ler o arquivo mais para o fim, porque, no começo, a qualidade pode ser uma e, no fim (com o cansaço, preguiça, falta de tempo, etc.),  outra.

No início de todo trabalho de revisão/copidesque, tenho bastante respeito pelo trabalho do autor ou tradutor, mas, depois de um tempo, quando percebo que o trabalho parece ter sido feito nas coxas, passo a interferir bastante, sem dor na consciência. A não ser que venha uma "ordem superior" do tipo: "Sabemos que o texto está ruim, mas o autor/tradutor é chato, então faça o mínimo de alterações, acerte apenas o que estiver gramaticalmente inaceitável, para não termos problemas depois". 

Sei que parece (é!) muito presunçoso da minha parte julgar e dar a impressão de que estou "acima do bem e do mal", mas não é isso; tenho noção de que também estou em um processo de aprendizado e tentando melhorar sempre e nunca vou saber TUDO, mas não consigo entender e nem aceitar que algumas pessoas façam um trabalho porco e não estejam nem aí. E também não entendo a opção de o mercado absorver esse tipo de mão de obra (quando há opções melhores - sempre há).

Bom, aí me vieram algumas reflexões:

1. É justo um tradutor que faz um trabalho excelente receber ($) o mesmo que um tradutor meia-boca? É justo o revisor que praticamente precisa reescrever o texto do autor receber um terço ou um quarto do valor pago para esse outro profissional?

2. Por que tradutores meia-boca [meias-bocas?] continuam prestando trabalho para a editora, mesmo depois de terem feito trabalhos ruins para a mesma editora anteriormente? (Cheguei à conclusão de que são "protegidos", ou seja, parentes ou amigos de funcionários que precisam de dinheiro e, como sabem um pouco de inglês, fazem bico como tradutores. Não sei se é isso, mas que parece, parece.)

3. Embora não exista a obrigatoriedade do diploma em tradução (nem em qualquer outra área) para exercer o trabalho, é possível deduzir, só pelo texto, quem teve formação ou quem procura se aprimorar, mesmo sem diploma na área, e quem não tem a menor consciência do que está fazendo e também não se importa.

4. Percebo que há uma demanda de pessoal mais qualificado e com mais experiência para fazer trabalhos editoriais, mas imagino que o fator financeiro também conte - não se consegue bons profissionais pagando um valor muito abaixo do praticado no mercado.

5. Não ter um diploma na área não é desculpa para se traduzir de qualquer jeito. Conheço vários tradutores formados em diferentes áreas e que fazem um ótimo trabalho.

6. Até que ponto o revisor é responsável pela qualidade de um texto originalmente ruim? É possível, de fato, "consertar" um texto?

7. Não consigo imaginar ninguém dos meus colegas de tradução entregando um texto como o que vi. E se professores de prática de tradução que tive vissem algo do tipo, dariam zero. Ou, no mínimo, uma nota muito baixa, porque o texto naquele estado significaria que a pessoa não aprendeu mesmo nada durante o curso.

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