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sábado, 30 de março de 2013

Massacre de Jonestown


Hoje terminei de ler esse livro sobre o "massacre em Jonestown". O livro foi escrito por Manoel Hygino dos Santos e publicado pela Edições Júpiter, de Belo Horizonte, em 1979. O livro passa longe do primor, mas foi o único que consegui encontrar sobre o assunto em português. E não recomendo por acrescentar muito pouco ou quase nada.

Há algum tempo, não lembro exatamente por que, cheguei a este documentário:


Nunca tinha ouvido falar do "massacre de Jonestown" e fiquei horrorizada. 

Em 18 de novembro de 1978, pouco mais de 900 pessoas, seguidoras do líder religioso Jim Jones, fundador da igreja People's Temple, aparentemente cometeram suicídio coletivo em Jonestown ("cidade de Jones"), na Guiana, depois de tomar uma mistura de suco, tranquilizantes e cianureto. Eram americanos, principalmente negros, que viajaram (ou foram coagidos a viajar) dos Estados Unidos para a Guiana para trabalhar e morar em uma "comunidade alternativa" no meio da floresta, onde, teoricamente, todos seriam iguais, respeitados e cuidados.

Mas a realidade era bem diferente disso. O líder, Jones, que se autoproclamava a reencarnação de Deus e de Lênin, depois de um tempo, começou a impor regras absurdas aos seus seguidores, como, por exemplo, submissão a castigos físicos caso infringissem determinadas regras; casais não podiam mais ter relações sexuais; apenas ele (Jones) poderia se relacionar sexualmente tanto com homens quanto com mulheres do templo; as pessoas eram submetidas a horas exaustivas de trabalho, sem receber nenhum tipo de salário; as pessoas eram obrigadas a tomar um coquetel que o líder dizia ser veneno, como prova de lealdade - no entanto, antes do "suicídio coletivo" (ou, de um certo ponto de vista, "assassinato coletivo"), eram apenas simulações.

Passada a raiva e a indignação com as pessoas que optaram por seguir Jim Jones, vieram as reflexões.

É, às vezes tenho raiva das pessoas que se deixam levar por líderes religiosos, abrindo mão de posses, de sua própria autonomia e liberdade de escolha para sua própria vida (para mim, Jim Jones era apenas um maluco que estava lá, pregando, se não houvesse seguidores, ele jamais teria conseguido fazer o que fez). Mas não se trata apenas de "burrice" nem de "falta de estudo". É uma questão muito mais complexa.

Dentro do contexto (final dos anos 1970), fazia sentido pensar em uma comunidade igualitária, já que os negros sofriam muito mais preconceito e exclusão social do que hoje. E os negros, por sua vez, só ganhariam ao aderir a uma comunidade que os respeitasse. E, pelo que parece, a People's Temple estava aberta a pessoas brancas e negras, ricas ou pobres. Me impressionou o fato de várias pessoas com formação superior (médicos, advogados...), além de estudantes universitários, terem aderido à comunidade também. O que, para mim, é uma prova de que ter passado por uma universidade não garante que as pessoas tenham discernimento ao fazer escolhas na vida. Não sei se é verdade, mas não duvido, muitas pessoas deram dinheiro à comunidade voluntariamente (e, depois de um tempo, parece que foram obrigadas) e o patrimônio do líder era de milhões de dólares.

Depois de ver o documentário e ler o livro, cheguei à conclusão meio óbvia de que quem busca apoio na religião (qualquer religião) está disposta a pagar um preço pelo suposto "apoio espiritual". É uma escolha. Talvez não a mais certa para mim, nem para você, mas para quem sente falta de algo e encontra na religião um refúgio, é, sim, a melhor escolha. Então, estou tentando não julgar. E cada um que tome suas decisões e arque com as consequências. O duro é que, às vezes, as crianças pagam pelos "erros" dos pais. Nesse massacre, cerca de 250 crianças foram obrigadas pelos próprios pais a beber a mistura com cianureto. Racionalmente, é inconcebível pais que colocam um líder religioso ou uma ideologia acima da vida e segurança dos filhos... é muito deprimente.

Um fato curioso é que, segundo este texto, Jones parece ter lido 1984, de George Orwell, e aplicado algumas das técnicas de controle mental apresentadas nesse livro de ficção, como, por exemplo, deixar os alto-falantes ligados o tempo todo, inclusive à noite, com mensagens que ele próprio gravava - provavelmente com o objetivo de fazer com que seus seguidores tivessem a impressão de estar sendo vigiados o tempo todo. Aliás, o próximo livro que vou ler será 1984 e, depois, o primeiro volume de 1Q84, do Murakami, que, pelo menos no título, está relacionado ao livro do Orwell.

Muito tempo se passou depois do massacre de Jonestown e, hoje, no Brasil, ainda vemos pastores tentando extorquir (não consigo pensar em outra palavra) seus fiéis, como faz o Marco Feliciano aqui. Mas, novamente, tento ficar calma e pensar que cabe a cada um decidir sobre sua própria vida, inclusive se deixar extorquir e acreditar em pastores picaretas.

10 comentários:

Lúcia H. disse...

Tinha esquecido desse fato. Terrível. Soube na época em que aconteceu. Realmente chocante. Só não sabia que haviam tantas crianças lá... Muito triste. Qualquer tipo de fanatismo é um perigo.

aline naomi disse...

Muito triste mesmo, tia. E depois de saber disso, agradeci mentalmente por meus pais não serem fanáticos religiosos e nunca terem me obrigado a frequentar missas/cultos. Acho que foi um ponto positivo na educação que eles deram pra mim e pro Alan - deve ser infernal frequentar uma determinada igreja porque os pais obrigam e não porque queremos ou porque faz sentido para nós.

TiagoQuingosta disse...

Nossa, foi comparando o que Infeliciano está fazendo ao massacre que houve, que cheguei ao seu blog. Parabéns pelo texto. A fé cega nunca trouxe algo bom, precisamos ser comedidos.

aline naomi disse...

Oi, Tiago!
Pois é, acho a fé cega um tipo de doença. Parece que sempre existiu e continuará a existir, por mais que não gostemos...

Antonio Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Felipe disse...

Existe também um livro chamado "Massacre da Guiana", que traz o relato do jornalista do "The Washington Post", Charles Krasue. Realmente essa história é incrível e intrigante.

aline naomi disse...

Antonio Felipe, obrigada pela indicação do livro! Vou procurar.

aline naomi disse...

Antonio Felipe, encontrei o livro por R$ 3 na Estante Virtual. Comprei, vou ler e depois faço um complemento ao meu post. Muito obrigada novamente!

Tainá Rei disse...

Muito bom o post! Estava curiosa e, para começar a pesquisa, teu texto me ajudou bastante.