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domingo, 12 de maio de 2013

Peça "O desaparecimento do elefante"


Num dia em que fomos para um compromisso infeliz, a Babu disse que ia ver essa peça no SESC Pinheiros dali a algumas semanas e chamou a Yuri e eu. Me interessei muito por ter sido baseada em contos do Haruki Murakami (Minha querida Sputnik, Caçando carneiros, Norwegian Wood), um dos meus escritores preferidos. Então fomos.

Esse post não pretende ser nenhuma crítica especializada - até porque eu como comentarista de teatro... pff -, mas apenas uma visão pessoal da peça.

Para ler críticas de verdade, leiam o Blog do Dirceu (de onde várias fotos do André Gardenberg que ilustram este post foram tiradas) e também a Revista Stravaganza.

Foram escolhidas cinco histórias do livro The Elephant Vanishes (não encontrei tradução do livro no Brasil) para integrar a peça dirigida por Monique Gardenberg:

1. O pássaro de cordas e as mulheres de terça-feira
2. O comunicado do canguru
3. Sono
4. Segundo ataque
5. O desaparecimento do elefante.

Esta é a capa de uma das edições americanas (publicada pela Vintage Books, um selo da Random House):


E esta é a capa de uma das edições britânicas (parece que também foi publicado pelo selo Vintage britânico):


Se eu pudesse escolher, leria essa edição, só por causa da capa, que é uma foto do Nobuyoshi Araki (ele tirava fotos estranhas, muitas com mulheres nuas ou seminuas amarradas com cordas, uma arte erótica chamada "shibari", ou com animais, como cobras e lagartos). Escrevi um pouco sobre esse fotógrafo há alguns anos aqui.

Todas as histórias têm um quê de fantástico, algo que foge da "normalidade cotidiana", misturando drama e humor. 

A minha história preferida foi, de longe, "Sono", sobre a esposa de um dentista e mãe de um menino de uns 12 anos que não sente sono e passa dias e noites ininterruptas sem dormir sem que o marido e o filho saibam. Nas noites insones, lê Ana Karenina e sua realidade passa a ser a do livro - de onde ela parece não querer mais sair. Talvez seja clichê, mas gostei muito, achei a montagem muito bem-feita. É linda a cena de um baile em que a personagem dança com o amado fictício.

Maria Luisa Mendonça e André Frateschi

 Em segundo lugar vem "O pássaro de cordas e as mulheres de terça-feira", em que um marido desempregado vive um dia conturbado. Primeiro recebe uma ligação de uma mulher excitada ao telefone e, depois, ao sair para procurar o gato da esposa, encontra uma adolescente tomando sol e ouvindo música perto de um terreno baldio, justamente onde vários gatos costumam passar, segundo a própria adolescente, então ele se senta para esperar o tal gato. Entre assuntos aparentemente sem nexo, o marido parece sentir um deslocamento em relação à sua própria vida.

 Caco Ciocler e Fernanda de Freitas

"O comunicado do canguru" é a história mais sem graça e cansativa - poderia ter sido BEM mais curta. Um homem grava uma carta para uma compradora da loja onde ele trabalha depois que ela escreve para falar sobre o problema de um produto. Ele se apaixona pela cliente só pela carta que ela escreveu e decide enviar uma carta-resposta mais "pessoal".

"O desaparecimento do elefante" não é ruim, mas parece que faltou algo na montagem. É sobre um elefante que some de um dia para o outro e ninguém sabe o que aconteceu.

"Segundo ataque" foi a pior de todas. A Marjorie Estiano fazia o papel de uma garota vestida de cosplay (visual baseado em animes e mangás) e falava com um irritante sotaque supostamente japonês  que quase não dava para entender, embora várias pessoas morressem de rir. Não me ofendi nem nada, apenas achei ridículo e desnecessário. A garota cosplay e o "mano maloqueiro" vão ao "WcDonald's" para roubar hambúrgueres para saciar a fome e quebrar uma "maldição", pois o maloqueiro havia assaltado uma padaria com uns amigos uma vez e acreditava que sentia tanta fome por causa disso.


Marjorie Estiano e Caco Ciocler

Enfim, a peça não foi tudo aquilo que eu imaginava, mas também não foi de todo ruim. E ainda fico impressionada com o fato de as peças do SESC lotarem quando o elenco é composto por atores globais. O que é algo bastante positivo, pois as chances de as pessoas voltarem depois, independentemente de haver atores globais ou não, são maiores.

Trechos da peça (das várias histórias e tem a linda cena do baile de "Sono" no final):


3 comentários:

Lúcia Harumi disse...

Mas esses atores globais (desta peça)são ótimos... Pelo que vc diz a Marjorie Estiano foi infeliz, pois eu a considero ótima atriz. Quando a vi, pela primeira vez, na Malhação onde fazia a mau carater Natasha, fazia com tanta naturalidade que cheguei a achar que ela fosse mesmo daquele jeito. Depois fez papéis todos diferentes uns dos outros e convenceu. Que pena. Gosto dela como atriz e como cantora.

aline naomi disse...

Eu não conhecia a Marjorie Estiano como atriz, só como cantora (eu gostava de uns covers que ela cantava, a voz é boa!). Sobre o papel dela na peça, é só a minha opinião, acho que a maioria gostou (o que me faz sentir um pouco implicante). É que tenho um pouco de raiva quando pessoas retratam orientais de um jeito meio ridículo (não sei se já viu "Bonequinha de Luxo", mas lá tem um americano que faz papel de um japonês ridículo... parece que, quando o diretor do filme se encontrou com o Kurosawa pessoalmente e o Kurosawa comentou sobre ele ter retratado um japonês daquela forma, o diretor de Bonequinha morreu de vergonha). Fiquei imaginando se o Murakami assistisse, se ele não acharia ridículo também. Afinal de contas, a personagem dele era japonesa, talvez tivesse um jeito peculiar de falar, usasse gírias, mas certamente não falava com um sotaque japonês ridículo.

old_little_girl disse...

Problema não era nem o sotaque... o foda é que tinha horas que não dava pra entender absolutamente nada do que ela falava, e depois contava o resto da conversa pq não se entendeu a primeira parte. Advinhar o que a "japa" falou pra entender o resto da história que tava complicado. =/