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domingo, 30 de junho de 2013

A Menina Sem Qualidades


Vi a divulgação da estreia dessa série, produzida por Felipe Hirsch para o canal MTV, em murais nas estações do metrô e fiquei interessada em assistir. Me chamou a atenção a foto de Ana, a protagonista vivida pela atriz Bianca Comparato (que tem 27 anos mas encarna uma garota de 16), porque era muito diferente das personagens de outros programas de TV - aparentemente, ela não estava superproduzida, maquiada, com roupas e acessórios caros da moda - pelo contrário, estava até desalinhada, despenteada. Ou seja, me passou a imagem de que não seria mais uma dessas séries voltadas, no fim das contas, para fazer com que jovens consumam mais e mais a fim de estancar o vazio de suas existências. Me passou a impressão de que teria algum conteúdo. Que seria diferente da maioria das outras séries e seriados com esse tipo de perfil meio voltado ao consumo, ou então repleto de vampiros ou de seres fantasiosos de um reino muito distante, que eu não consigo assistir por falta de vontade e interesse.

Não consegui ver a série na TV, pois passava em dias de semana, à meia-noite e eu quase nunca lembrava, mas desencanei depois que soube que a série completa seria disponibilizada  no próprio site da MTV (este), mas também não tive paciência para ver lá, pois demora uma eternidade para os vídeos serem carregados. 

Esperei um pouco e uma alma caridosa disponibilizou todos os episódios no YouTube (para ver o primeiro episódio completo, clique aqui).

Terminei de ver tudo hoje e gostei muito. Tanto que fiquei muito interessada em ler o livro. Sim, a série foi inspirada no livro escrito pela alemã Juli Zeh, talvez por isso seja bom.


A tradução no Brasil foi publicada pela editora Record como A menina sem qualidades (em referência ao livro de Robert Musil, O homem sem qualidades, um dos vários livros que Ana aparece lendo na série - aliás, em uma cena, sua mãe diz ao diretor do colégio que ela havia herdado a biblioteca do pai e lido todos os livros), mas o título original é Spieltreib, que quer dizer algo do tipo "instinto de jogador", a vontade natural que as pessoas sentem de participar/fazer parte de jogos, que é a essência do livro/da série.

A capa de uma das edições originais em alemão que encontrei na internet é esta:


A autora Juli Zeh nasceu em 1974 na cidade de Bonn e escreveu Spieltrieb em 2004.

Fiquei interessada em saber se a referência que um dos professores de literatura faz a Cortázar, em especial ao livro Jogo da Amarelinha, também foi criado pela autora ou foi mera adaptação para o público brasileiro (que ficou muito boa, aliás). Só lendo o livro saberei.



Gostei muito de um texto que saiu no site da Deutsch Welle, a TV alemã, cujos trechos reproduzo abaixo:

"Sentimento universal
No livro, a história se passa em uma escola na pequena Bonn, capital da antiga Alemanha Ocidental. Ali, dois adolescentes começam a desenvolver uma obsessiva dependência em uma relação de amizade que ultrapassa fronteiras e questiona moralidade, compaixão e previsibilidade.
Do bucolismo industrializado do coração da Europa, a história foi transferida para o bucolismo tropical e caótico da classe média de São Paulo. A cidade, no entanto, tem um papel secundário na série, que foca no isolamento de Ana e em suas relações em casa e principalmente na nova escola.
A escola é o universo social dos adolescentes, que podem construir personalidades e lidar com conflitos complexos em um mundo de adultos perdidos, onde os jovens são sobrecarregados com informação e comunicação via internet.
Enquanto no gigantesco mundo as vanguardas do que é bom ou mau se subvertem, no microcosmo da escola, tanto em Bonn como em São Paulo, desenvolve-se uma história vibrante.
Os personagens, que receberam o nome de Ana e Alex no Brasil, são considerados pós-niilistas: nem no "nada" eles acreditam. Para o diretor há uma forte crença nesse vazio, mas é algo que será revelado no decorrer da história. Eles manipulam os colegas mais frágeis e os professores da escola particular que estudam em São Paulo.
A série reflete sobre a falta de moral dos personagens, questionando valores e princípios da sociedade contemporânea, mas de maneira sutil, já que o que explode na tela são os sentimentos e certa frieza encantadora, principalmente na atuação convincente de Bianca Comparato como Ana.
Mesmo com 27 anos, a atriz não se intimidou em viver uma adolescente de 16. O que causa certo estranhamento no começo da série ganha vida no trabalho corporal da atriz, que consegue com versatilidade mostrar a complexidade da personagem, mesmo nas cenas de nudez ou sexo.
O livro capta uma condição contemporânea dos jovens, que várias partes do mundo hoje encontram problemas comuns em lidar com o dia a dia e com as pressões de um mundo contemporâneo onde a informação suprime o tempo – e muitas vezes a infância.
A sensação atual do presente foi transferida para a televisão. A série cresce nos seus momentos de silêncio e introspecção, ganhando força na ótima trilha sonora. No entanto, os diálogos soam, muitas vezes, bem resolvidos demais na boca dos jovens, o que pode criar certa artificialidade.

Processos radicais
A Menina Sem Qualidades mostra não só a descoberta de uma nova realidade, mas o poder que a juventude tem em adolescentes que são colocados, cedo e imaturamente, em contato com questões complexas e adultas.
Ana é uma menina inteligente, que parece não querer romper seu isolamento, até que Alex ingressa em sua turma. O jovem se aproxima e confere poder à garota, o que a convence a participar de uma perversa trama que inclui seduzir o professor Tristán, vivido pelo ator argentino Javier Drolas.
Para o diretor, o desejo do professor pela jovem transgride os padrões. O envolvimento dos dois quebra convenções e crenças da jovem. O personagem de Alex tem um uma visão extremamente pragmática do mundo, e é nesse mundo que sua crueldade funciona. O pragmatismo se torna mais importante que a visão amorosa do mundo.
Para Hirsch, o motor da série é o impacto que a história tem com qualquer um que entra em contato com ela. Ele acredita que a escritora radicalizou processos como o conflito de gerações, os juízos de valores e os padrões morais.
A trama foi adaptada para a TV por Hirsch, Marcelo Backes e Renata Melo. “O livro da Zeh permite um sobrevoo poético sobre essa geração. Não é algo caricatural, como são muitos programas de televisão que têm um olhar mercadológico sobre a juventude, pois precisam vender produtos associados a ela. Acho uma grande coragem botar outras texturas no ar”, conclui o diretor."

O texto original e completo pode ser lido aqui.

Também vale a pena ler a entrevista abaixo, feita por Mariana Caldas e publicada originalmente em 3 de maio de 2013 no blog da MTV:

"Autora de 'A Menina Sem Qualidades' diz que é admirável adaptar romance filosófico para a TV
Juli Zeh é considerada uma das principais autoras da nova geração. Em seus romances, a escritora trama boas histórias para tratar, com profundidade filosófica, do mal estar dos nossos dias. Premiada já em seu livro de estreia, “Adler Und Engel”, Zeh estourou com “A Menina Sem Qualidades”, livro em que se baseia a nova série da MTV, dirigida por Filipe Hirsh. 
“A Menina Sem Qualidades” descreve a angústia da juventude atual e é desses livros que não deixam ninguém sair ileso. Impossível não se paralisar diante da história de Ada e Alev, para nós, Ana e Alex.
Ana se apaixona por Alex, um menino manipulador, de 18 anos, que a convida para entrar num jogo pragmático de sexo, poder e manipulação, envolvendo um professor da escola de classe média onde estudavam.  Smutek - o nosso Tristán -, um ex-refugiado político que vive num universo em que certos limites ainda estão vigentes, acaba se envolvendo com Ada, e consequentemente, sendo vítima do jogo matemático de Alev. 
Em entrevista por e-mail, Zeh contou à MTV um pouco mais sobre suas motivações, seus personagens e também sobre o seu novo livro, ‘Corpus Delicti’, que trata de um futuro asséptico, e promete ser mais um belo retrato dos traços e mecanismos dos comportamentos contemporâneos. Leia abaixo:

Quando e por que decidiu escrever 'A Menina Sem Qualidades'? Quais eram suas principais motivações? 
Na verdade não havia uma decisão clara de escrever romance determinado. Eu apenas comecei com a ideia de Ada e Alev na minha cabeça, e então as duas personagens começaram a atuar sozinhas e a história se desenvolveu enquanto eu escrevia.
Você pensa que os dramas vividos por Ada e Alev são universais? Dizem respeito a uma nova geração de jovens que pensa saber de tudo e não acredita em nada?
 Acho que as questões filosóficas em 'A Menina Sem Qualidades' são bastante universais. O que liberdade tem a ver com moralidade? É possível imaginar um conceito "individual" de moral? Essas são questões importantes para a contemporaneidade, mas também dizem respeito à adolescência. Então Ada e Alev caem bem tanto para a nova geração quanto para a sociedade contemporânea.
O que fez com que esses jovens rompessem os limites do certo e do errado? 
Não é um problema com a juventude. Em um mundo globalizado, muitas regras vinculadas à cultura não se aplicam mais. Muitas pessoas ao redor do mundo acabam se sentindo desorientadas. A adolescência é uma metáfora para a mentalidade dos nossos dias.
Qual foi sua reação ao saber que a MTV Brasil gostaria de adaptar esse livro para a TV? Está ansiosa? 
Com certeza estou ansiosa para ver isso. Eu acho admirável que um romance filosófico como 'A Menina Sem Qualidades' seja adaptado para uma série de TV.
A tradução do título do livro para o português faz referência a 'O Homem sem Qualidades', de Robert Musil? Você acha que os dois trabalhos dialogam entre si? Ele foi uma influência para você?
Ele foi uma forte influência. Eu reli 'O Homem Sem Qualidades' enquanto trabalhava em 'A Menina Sem Qualidades'. Há uma série de referências a ele no meu livro.
O que fez esse romance ser um sucesso, em sua opinião?
 Ele lida com questões muito importantes sobre o presente e o futuro. É importante ter um diálogo sobre essas duas coisas. 
Seu novo livro 'Corpus Delicti' também fala de problemas contemporâneos e é bastante polêmico. Você acha que, de alguma forma, estamos nos movendo em direção a um futuro asséptico? 
Nós estamos. Pessoas sentem que liberdade é um estado de desorientação, solidão, falta de responsabilidade, incerteza e medo. É por isso que começam a ansiar por segurança, por uma vida com riscos mínimos. Isso é muito sedutor para os políticos, assim como é bom para a economia tirar vantagem dessa mentalidade. Pessoas com medo são facilmente instrumentalizadas."
 
Para ler a entrevista no próprio blog da MTV, clique aqui. Para quem se interessa pela série ou pelo livro, vale a pena acessar o blog, pois há várias informações sobre a série, a autora e o livro.

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