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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Tradutores na Literatura

Hoje é dia 30 de setembro, Dia do Tradutor. Não coincidentemente, também é dia de São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do hebraico para o latim - daí a razão de ele ser o santo padroeiro dos tradutores.

Por conta disso, gostaria de compartilhar três livros de literatura que li e um que não li com personagens tradutores.

1. Bestiário (1951), livro de contos do argentino Júlio Cortázar:


Este ano saiu essa edição linda da editora Civilização Brasileira. 

Bestiário é um dos meus livros preferidos, além de conter um dos meus contos preferidos: "Carta a uma senhorita em Paris", cuja história é narrada como se fosse mesmo uma carta a Andrée, que está em Paris. O narrador é um amigo que está passando uns dias em seu apartamento em Buenos Aires. O problema é que ele vomita coelhinhos, e escreve a carta justamente para contar a ela sobre essa situação. A casa é repleta de dicionários, o que dá a entender que Andrée é tradutora e, mais adiante, o narrador/escritor da carta confirma que ele é tradutor, pois a tradução que ele está fazendo de um livro de Gide (André Gide, escritor francês) está atrasada, provavelmente por causa dos coelhinhos. Para quem tiver interesse, escrevi mais sobre esse conto que me fascina no meu outro blog.

2. O tradutor cleptomaníaco (1933), livro de contos do húngaro Dezső Kosztolányi:

 
Esta edição foi lançada em 1996 pela Editora 34, que publica uns livros ótimos de autores do Leste Europeu e livros ótimos em geral, mas está esgotada.

O conto que dá nome ao livro, "O tradutor cleptomaníaco", é sobre um tradutor que, ao traduzir um livro, subtrai elementos do texto original, como, por exemplo, joias, dinheiro, lustres. Entendi como uma espécie de constatação do autor: ao se traduzir sempre algo se perde ou é "roubado" do original, embora a maioria dos tradutores não exerça a cleptomania de forma consciente - pelo menos eu acho.

3. Travessuras da menina má (2006), do peruano Mario Vargas Llosa:


Edição publicada pelo selo Alfaguara, da editora Record, indicada pela amiga Sandra, que trabalhou comigo em uma editora e também ama ler. 

Depois de uma decepção amorosa, Ricardo (Ricardito), o narrador-personagem, parte de Lima, no Peru, para Paris, na França, a fim de realizar o sonho de ser tradutor e intérprete da Unesco. Em Paris, a vida seguia normalmente, até que, aparentemente ao acaso, ele reencontra seu amor de adolescência, para novamente ser abandonado por ela. Por conta do trabalho, Ricardo precisa viajar pela Europa e para outras partes do mundo, onde reencontra a "menina má", que está sempre em busca de um homem rico que realize seus caprichos - o amor e os mimos oferecidos por um simples tradutor não basta. Gostei do livro por ser, de certa forma, uma inversão dos romances que normalmente lemos: não é a mulher que morre de amores, se humilha, corre atrás e faz de tudo para que o homem preste atenção nela ou fique com ela; aqui, é o homem que encarna o papel romântico, é feito de bobo e sofre muito pela pessoa que mais ama.

Livro que ainda não li, mas pretendo ler em breve: O passado (2003), do argentino Alan Pauls:


Não li o livro, publicado no Brasil pela Cosac Naify, mas vi o filme baseado nele, com o Garcia Bernal (!). Fiquei meio decepcionada, pois a sinopse prometeu, mas o filme não entregou. Quero muito ver se o livro é melhor - em geral, é.

O filme é sobre um tradutor que faz legendas para filmes e também trabalha como intérprete em conferências. Ele termina um relacionamento de doze anos com a namorada e, depois de um tempo e alguns acontecimentos marcantes, ele começa a sofrer de um tipo de amnésia e a ter lapsos linguísticos - começa a esquecer os idiomas que antes dominava, o que deve ser o pesadelo de qualquer tradutor (isso já me passou pela cabeça um dia também, deve dar pânico perder a matéria-prima do nosso trabalho). Apesar de ser uma questão superinteressante, o filme se centra nas aventuras amorosas do protagonista (Bernal). Achei um pouco desperdício, pois filmes com dramas amorosos existem a rodo, filmes com tradutores que sofrem de amnésia e vão perdendo o conhecimento dos idiomas, não.


Um comentário:

Crisão disse...

Um post bem mais suave, não??