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domingo, 10 de novembro de 2013

Um tradutor segundo Moacyr Scliar

Conheci (a obra do) Moacyr Scliar tardiamente. Só no ano passado fui ler Max e os felinos, por conta da polêmica em torno do plágio que Yann Martel, autor de As aventuras de Pi, supostamente havia praticado. [Embora, por enquanto, tenha lido apenas o livro do Scliar e visto o filme baseado em Pi - já comprei o livro do Martel e lerei assim que possível -, para mim está claro que o Martel plagiou o livro do Scliar, sim, mudando apenas o contexto histórico/pano de fundo do enredo, e, além disso, é mau caráter por ter negado isso e ainda afirmado que o livro do Scliar seria de "segunda categoria".]

O autor gaúcho faleceu em 2011, mas deixou uma porção de obras importantes que provavelmente serão lidas por gerações e gerações.

O segundo livro do Scliar que li recentemente foi Histórias para (quase) todos os gostos.



Aparentemente escrito para estudantes do ginásio (porque faz parte de uma coleção chamada "A leitura é uma aventura"), me espantei com a qualidade dos contos. Para dizer a verdade, comprei esse livro porque sabia que nele havia um conto cujo protagonista era um tradutor; o conto se chama "Notas ao pé da página" e, depois de lê-lo, fiquei com a sensação de que o Scliar é um gênio.

O conto de cinco páginas é escrito em forma de cinco notas de rodapé.


Por meio dessas notas com tons muito pessoais no diário do autor, que foi ou será publicado postumamente, tomamos conhecimento da relação que o tradutor tinha com o autor: o autor escrevia poemas e o tradutor era seu amigo (além de ser o tradutor de seus livros), até o tradutor começar a flertar e a sair com a esposa do autor. Depois disso, o autor, desiludido, parece ter se afastado do novo casal.

É muito engraçado, porque o tradutor, um ególatra (como alguns tradutores são na realidade), conta coisas muito íntimas do autor, dele próprio e da mulher que figurava no triângulo amoroso em notas totalmente desnecessárias: "A essa altura já estávamos, N. e eu, dormindo juntos; todas as noite ela vinha a meu hotel"; "Note-se que, a partir desta página, N. não mais é mencionada. O autor também não fala da áspera discussão que tivemos ."

Lendo este conto, me lembrei de uma tradutora que prestava serviços para uma das editoras onde trabalhei. Ela vivia puxando notas de rodapé, a meu ver, desnecessárias, que davam a impressão de que ela queria demonstrar muito mais conhecimento do que os leitores dos livros que ela traduzia. Eu já parto do princípio de que os leitores têm um certo conhecimento de mundo e não é necessário puxar várias notas de rodapé - e muito menos com trechos copiados da Wikipédia - ao longo do livro, que era o que ela muitas vezes fazia. Até porque, como leitora, muitas notas de rodapé desnecessárias começam a me irritar por causa da quebra no ritmo da leitura.

Moacyr Scliar é um gênio!

2 comentários:

Dennys Silva-Reis disse...

Oi, Aline!
Gostei da sua postagem!
Por acaso você tem o pdf desse conto? Gostaria muito de ler!

aline naomi disse...

Olá, Dennys!

Não tenho o pdf do conto, infelizmente. Mas tenta comprar o livro. Encontrei essa opção bem barata na Estante Virtual (R$ 13 com frete incluso): https://www.estantevirtual.com.br/sebodamalu/Moacyr-Scliar-Historias-para-Quase-Todos-os-Gostos-146114400

Abraço!