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sábado, 18 de janeiro de 2014

Você é minha mãe? - Alison Bechdel


Título: Você é Minha Mãe? - Um Drama em Quadrinhos
Título original: Are you My Mother? - A Comic Drama
Autora: Alison Bechdel
Tradutor: Érico Assis
Editora: Cia. das Letras
Número de páginas: 304
Publicação no Brasil: 2013

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Terminei de ler esta HQ há alguns dias e gostei bastante. Nela, a autora e quadrinista americana Alison Bechdel conta sobre sua estranha e às vezes distante relação com a mãe, além de descrever as conversas com psicólogas e namoradas, episódios da infância e sonhos. A narrativa também é permeada por leituras de livros de psicologia (Winnicott) e literatura (Virginia Woolf). Me identifiquei com algumas partes e fui lembrando de várias coisas em relação à minha própria mãe, que conto abaixo.


Alison é lésbica, no entanto, a relação com a mãe não parece ser estranha exatamente ou só por isso. Talvez a relação com os pais, em geral, seja meio esquisita e o que eles representavam ou representam para nós se reflete no que somos mais do que imaginamos, e então isso precisa ser resolvido internamente, às vezes, à base de anos e anos de terapia.
Abaixo, a Alison está contando um sonho para Jocelyn, que foi uma de suas psicólogas. (Quase no fim da HQ, Alison conta que ela havia morrido de câncer e soube disso por meio de um e-mail que o parceiro dela enviou para ela.)


Mas um dos trechos que me chamou mais a atenção e mexeu mais comigo foi quando Jocelyn pede a Alison que pergunte à mãe qual foi a principal coisa que ela aprendeu com a mãe dela (avó de Alison).


E a resposta da mãe foi: "Que meninos são mais importantes que meninas".


Fiquei me perguntando qual foi a principal coisa que aprendi com a minha mãe ou a principal mensagem que ela me transmitiu. Sem pensar demais, o que me veio foi: "A me resignar e a me conformar". Na minha visão, minha mãe tem um perfil bastante conformista e isso ficou entranhado em mim. Já a imagem que meu pai me passou foi meio que o oposto: "Vá e siga o seu caminho, porque a vida passa muito rápido". E essas duas coisas às vezes se digladiam dentro de mim. Se, por um lado, me conformo com a vida como ela é/está, por outro, às vezes sinto: "Se não for pra ter a vida que eu quero, prefiro morrer".

Lembro que quando tinha uns 4 ou 5 anos meus pais brigavam com uma certa frequência e, quase sempre, isso terminava com a minha mãe chorando num canto e meu pai indo para o quarto deles. Uma vez perguntei: "Por que você não se separa dele?" (já na época, para a minha lógica infantil, não era "normal" ficar com alguém que faz a gente chorar) e minha mãe respondeu algo do tipo: "E como você acha que vou criar você e seu irmão?". Para mim essa é a cena que mais ilustra a personalidade conformista dela. A renúncia por ela mesma e o autossacrifício pelos filhos. Não tenho dúvida de que, no lugar dela, eu teria pego as malas e ido embora com os filhos. Mas não julgo, pois cada um toma as decisões que acha melhor para si, ainda que aquilo o anule e o faça infeliz depois.

Talvez o distanciamento que sinto em relação à minha mãe tenha a ver com o meu "horror" a ser como ela; eu preferiria morrer a ser conformista e abrir mão das coisas que eu quero, de tomar minhas próprias decisões. Além disso, talvez explique um pouco o fato de eu ter uma tendência a ser workaholic também - trabalho bastante para ter dinheiro, pagar minhas contas e não precisar depender de ninguém nunca (que depois venha a querer me aprisionar de alguma forma) e com a vontade de ser o mais autossuficiente que eu conseguir.
Uma vez alguém, um amigo ou conhecido de que não me lembro, comentou que gostava de orientais, pois, em geral, elas eram mais submissas (o que tem a ver com a cultura japonesa mesmo). Na época isso me deixou meio ressentida. Nem sei se ele se deu conta de como esse comentário era machista. No fim, deixei pra lá. Algumas mulheres devem se sentir felizes em ser submissas e quem sou eu para falar qualquer coisa.


Outro episódio de que me lembro foi quando, há vários anos, meus avós (pais dela) começaram a brigar por motivos bastante infantis e uma dessas brigas aconteceu porque minha batian queria sair para fazer aulas de karaokê (ela cantava em festivais e chegou a ganhar uns troféus - que hoje estão na sala de visitas dela) e meu ditian, marido dela, não queria que ela saísse. Sempre que ela saía, meu ditian ficava reclamando, brigando. A coisa era de uma infantilidade que me fazia rir. Aí minha mãe fez o seguinte comentário: "Já que ele não gosta que ela saia, ela não deveria sair, aí ele não ficaria bravo". Ou seja, vamos nos anular, deixar de fazer o que gostamos para evitar conflitos. Fiquei pasma e comentei que não concordava e que não via problema em a batian sair para fazer uma das poucas coisas de que ela realmente gostava. Espero que se um dia meu pai implicar com alguma coisa que ela queira fazer, ela não venha chorar no meu ouvido (se bem que minha mãe nunca tem vontade de fazer nada; logo depois que me formei, comentei que ela deveria fazer uma faculdade também e ela riu, disse que estava muito velha para isso, e obtive a mesma resposta quando, uns anos antes, sugeri que ela procurasse trabalhar fora). Talvez tenha sido mais ou menos nessa época que deixei de me importar. Minha mãe ia viver a vida que ela achava melhor e eu ia viver a minha.

Ainda bem que meu pai não é do tipo que chifra a esposa e, se ela reclamasse, ele a espancaria. Já me perguntei se meu pai fosse um troglodita covarde, se ela continuaria com ele mesmo assim. Prefiro acreditar que, nesse caso, ela tomaria alguma atitude menos conformista.

Apesar disso, acredito que minha mãe fez o melhor dela como mãe. Talvez não tenha sido como eu queria, mas eu também não devo ser a filha que meus pais esperavam que eu fosse. Então estamos quites. Levou um bom tempo para eu descobrir que, muitas vezes, a relação entre pais e filhos tem a ver com uma certa frustração em vários níveis de ambas as partes.

Mas, voltando ao livro, a Alison também conta que, desde criança, escreve diário e isso me estimulou a voltar a escrever no meu. Tem coisas que são impublicáveis, além de não interessar a ninguém e só servir para mim mesma lembrar/não esquecer do que aconteceu em determinado dia ou para extravasar os emaranhados da minha cabeça. E é mais barato que fazer terapia. Aliás, não sei se eu teria paciência para fazer terapia.


Recomendo para quem gosta de histórias envolvendo família e autobiografias. 

Já comprei a HQ anterior dela, Fun Home, em que ela conta sobre a relação com o pai (que era gay enrustido e que acabou se suicidando), pela Estante Virtual, e estou esperando chegar.

Ah, o site oficial da Alison Bechdel é este:  http://dykestowatchoutfor.com/ .

4 comentários:

Karen disse...

É engraçado, minha mãe também é parecida com a sua. Tenho a impressão de que, lá no fundo, ela tem muita vontade de experimentar coisas diferentes se tivesse a oportunidade, coisas que não faria por vontade própria, mas se tivesse um empurrãozinho... Meu pai é um japonês excêntrico e meio doidinho, faz as coisas dele do jeito dele mesmo que digamos o contrário e isso é enervante. Acho que ela teria sido mais feliz se tivesse se casado com alguém mais "tradicional" e que meu pai teria sido mais feliz se não tivesse se casado. De qualquer forma, nenhum dos dois nunca disse que deveríamos ser assim ou assado, tivemos muita liberdade para fazer escolhas, até demais, acho que eles nunca disseram "não faça isso".

Maria Clara disse...


Maria Clara

nossa, bela reflexão sobre os conflitos com os pais! nessas horas é que eu vejo o quanto deve ser meio chato ser filho(a) único(a) porque acredito que é bastante instrutivo observar como nossos irmãos e/ou irmãs lidam com nossos pais já que muitas vezes os conflitos se repetem neles também
ps.: isso aqui logo vira um divã público, taí uma boa ideia para quem precisa economizar o dinheiro com o analista :-)))

aline naomi disse...

Karen,
eu acho que se minha mãe tivesse se casado com um cara que a estimulasse a fazer várias coisas, ela faria. Mas a família do meu pai (e o meu pai) tem toda aquela cultura machista de japoneses dos séculos passados, então o casamento não deve ter sido/não é muito estimulante para ela.
Meus pais também nunca exigiram que eu nem meu irmão fosse de um jeito ou de outro, mas eu sentia/sinto que eles esperam que "honremos" o nome da família, não fazendo coisas que o envergonhem, enfim (isso é tão japonês... haha).

aline naomi disse...

Maria Clara,

sinceramente, eu não gostaria de ser filha única! A atenção dos meus pais ficaria apenas em mim, e também as expectativas deles. Claro que deve ter outras vantagens (do tipo que o dinheiro que os pais gastaram com mais filhos poderia ser gasto para dar uma vida talvez mais confortável e com mais luxos para esse filho único), mas, abro mão disso. Ter irmão é ótimo. Talvez ter tido mais irmãos seria legal também... porque haveria mais pessoas com as quais eu poderia ter assuntos em comum e desenvolver uma amizade muito próxima. Meu irmão e eu somos muito diferentes e temos interesses completamente diferentes também - acho que a única coisa que nós dois adoramos é comer comidas boas. Ele também cozinha. :)