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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O escafandro e a borboleta


Parece pura ficção, mas não é.

Jean-Dominique Bauby, chamado pela família e por amigos de "Jean-Do", tinha 43 anos quando sofreu um derrame que deixou seu corpo paralisado do pescoço para baixo. Ele era editor da revista francesa Elle e estava dirigindo seu carro, pois ele e o filho haviam combinado de ver uma peça de teatro naquele dia.


Depois desse episódio, ele ficou em coma por vinte dias e acordou em um hospital em Berck, na região de Pas-de-Calais, no norte da França. Ele não conseguia falar, e o único meio de comunicação com o mundo externo era o olho esquerdo. Foi diagnosticado com a síndrome locked-in

A fonoaudióloga responsável por seu tratamento primeiro o ensinou a piscar uma vez para dizer "sim" e duas vezes para dizer "não". Depois, passaram a adotar um meio de comunicação em que ela ia recitando as letras do alfabeto na ordem de frequência em que são usadas em francês e, quando ele queria que aquela letra fosse selecionada, ele piscava. Foi assim que ele passou a se comunicar com as pessoas de quem gostava.

Pesquisei sobre esse método de comunicação que a fonoaudióloga usou, mas não consegui encontrar respostas para as minhas dúvidas - queria saber se ele foi criado por ela ou se já existia e se é usado no Brasil também. Apesar disso, encontrei essa matéria, que é bem interessante, sobre um sistema de comunicação para pacientes que sofrem de paralisia por meio da dilatação da pupila.


Já havia visto a versão cinematográfica da poética autobiografia de Jean-Do, O escafandro e a borboleta, dirigido por Julian Schnabel, há anos e, recentemente, li o livro homônimo. A leitura, feita em algumas viagens para ou do trabalho, foi bem rápida e prazerosa (o livro tem 142 páginas e as letras são bem grandes, como se fosse um livro para pessoas com dificuldades visuais ou para crianças). Do filme, só lembrava de como tinha sido o momento do derrame - quando sentiu que não estava bem, ele estacionou o carro perto da casa de uma parente que era enfermeira, o filho saiu correndo para chamá-la, e ela conseguiu levá-lo para o hospital a tempo de salvá-lo.

O escafandro e a borboleta foi escrito pelo método de associação com letras e piscadas que a fonoaudióloga usava com ele. Antes de sofrer o derrame, o autor tinha um contrato com uma editora para escrever um livro - ele pensava em escrever uma versão moderna de O conde de Monte Cristo, em que a protagonista seria uma mulher, mas, como as coisas não aconteceram como ele imaginava, acabou escrevendo sua autobiografia. A editora, então, contratou uma pessoa para tomar os ditados de Jean-Do, e o livro foi escrito entre julho e agosto de 1996.

Será que eu era cego e surdo ou será que a luz de uma desgraça se faz necessária para iluminar a verdadeira face de um homem?

Ele dedica o livro aos filhos e à Claude Mendibil, que tomou o ditado do livro durante dois meses.

Para Théophile e Céleste, com os desejos de muitas borboletas.
Quero expressar minha gratidão a Claude Mendibil, cujo papel na realização deste livro será compreendido por quantos lerem suas páginas.
As borboletas são usadas como metáfora para a liberdade de que ele foi privado e que davam asas à sua imaginação, eram as borboletas-pensamentos lhe serviam como válvula de escape, ou pelo menos entendi assim.

 Longe desse escarcéu, no silêncio reconquistado, posso ouvir as borboletas voando pela minha cabeça. É preciso muita atenção e até certo recolhimento, pois o seu adejar é quase imperceptível. Uma respiração mais forte basta para abafá-las. Aliás, é espantoso. Minha audição não melhora, mas eu as ouço cada vez mais. De fato, as borboletas devem dar-me ouvidos.

A versão para o cinema ficou muito boa e ilustra melhor como se dava a comunicação entre o protagonista e as pessoas ao seu redor. Jean-Do foi interpretado pelo ótimo ator Mathieu Amalric.
 


Esse era o verdadeiro Jean-Do:


Ele faleceu dez dias depois da publicação de seu livro, em 9 de março de 1997.



Recomendo o filme e o livro!

3 comentários:

Rafaela Figueiredo disse...

Li seu post sobre a profissão Assistente editorial [na qual estou ingressando] e achei fantástica. Parabéns!
Depois, cheguei a este. E lembrei q escrevera tb [http://mudandoeuvou.blogspot.com.br/2011/03/o-codigo-da-palpebra.html] sobre O escafandro e a borboleta [q eu amo].
Deixo meu agradecimento pelo primeiro e um sorriso pelo segundo. :)

Um abraço, Aline.

aline naomi disse...

Que legal, somos colegas, então!
Passei pelo seu blog para ler seu post sobre o livro e gostei. Você escreve bem. ;)

Rafaela G. Figueiredo disse...

:)
grata pela visita retribuída.

volte/volto sempre!